Por uma vida mais leve

Especialistas afirmam que praticar um hobby ajuda a evitar várias doenças físicas e transtornos mentais

Simoni Saris - Grupo Folha
Simoni Saris - Grupo Folha

Por uma vida mais leve
Marcos Zanutto - Grupo Folha

"No mosaico a gente se encontra com as amigas; cada uma tem uma ideia diferente e a gente tira a tristeza do coração", afirma Ivone Blanco 


O hobby nem sempre é uma ocupação remunerada, mas nem por isso deve tomar um lugar menos importante do que o trabalho. A atividade profissional garante a sobrevivência, mas são os momentos de lazer que proporcionam maior qualidade de vida. A pressão no ambiente corporativo, com quadro de funcionários cada vez mais enxuto, acúmulo de funções e responsabilidades e aumento da cobrança por produtividade e alcance de metas pode contribuir para o desenvolvimento de doenças como enxaqueca e problemas cardiovasculares, além de estresse, ansiedade e depressão. Praticar um hobby ajuda a evitar uma extensa lista de doenças físicas e transtornos mentais, asseguram especialistas.






“Ter um hobby é tão importante quanto ter um trabalho”, atesta o psicólogo José Roberto Figueiredo Palcoski, do Hospital Nossa Senhora das Graças, em Curitiba. Ter uma atividade de lazer que traga satisfação, afirma ele, reduz o quadro de estresse porque muda o padrão de pensamento e aumenta a produção de neurotransmissores ligados à sensação de prazer e alegria, como a serotonina. “A depressão ocorre quando diminui a serotonina. Praticar um hobby não impede que a pessoa desenvolva transtornos mentais como a depressão, que é multicausal, mas em alguns casos pode prevenir. A gente vai trazer essa questão do hobby para as pessoas que apresentam os sintomas relacionados ao estresse, como ansiedade, síndrome do pânico, Síndrome de Burnout”, diz Palcoski.



No processo de tratamento desses transtornos mentais, a prática de alguma atividade que não tenha relação com a ocupação profissional é indicada. Participar de um grupo de corrida, fazer ioga ou dedicar-se aos trabalhos manuais são algumas formas de escapar da rotina, mas o psicólogo ressalta que matricular-se em um curso de pintura, por exemplo, quando não se tem muita inclinação para as artes apenas para tentar fugir do estresse pode ser um motivo de frustração. “A dica é pensar no que você gostava de fazer quando criança e tentar incluir essa atividade no seu dia a dia. Esse pode ser um bom ponto de partida”, sugere Palcoski. “Se quando criança gostava de brincar de pega-pega porque a brincadeira permitia o contato com os amigos, então encontre toda semana os amigos para comer uma pizza. Funciona como um processo de organização de conflitos.”



Mas encontrar alegria nas coisas simples do cotidiano também é válido, ressalta o psicólogo. Ficar em casa na companhia dos familiares, ler um livro ou assistir ao programa de televisão favorito acompanhado de uma bebida quente sob um cobertor também podem ser considerados hobbies. “Se as atividades simples são sua fonte de prazer, elas podem ser mais eficazes”, destaca o psicólogo.



QUALIDADE DE VIDA

Entre a classe médica, a prática de um hobby também é reconhecida como um importante e poderoso complemento ao tratamento clínico. Mudar os hábitos e a rotina para ampliar a expectativa e a qualidade de vida é a orientação dos médicos aos pacientes, mas a adesão depende de um longo processo de conscientização, afirma o cardiologista Icanor Antonio Ribeiro, de Londrina. “A conscientização é o grande desafio nosso. As doenças circulatórias são muito frequentes e as causas, muito conhecidas – diabetes, tabagismo, obesidade, estresse, hipertensão. Mas as complicações surgem ao longo dos anos e as pessoas sentem-se bem apesar de terem alguns problemas. Imaginam que no momento futuro mais adequado vão mudar o comportamento, mas não é assim. Por mais que a gente diga que é importante o controle de peso, o exercício físico, o convívio com a família, o lazer, nem sempre há uma aceitação”, lamenta.



O cenário econômico atual, observa o cardiologista, faz com que as pessoas se voltem mais à própria sobrevivência, reduzindo o tempo dedicado às atividades que garantem maior qualidade de vida, que são os cuidados com a saúde, o relacionamento familiar e as atividades físicas e de lazer. Mas mesmo em uma situação de desemprego e insegurança, ressalta Ribeiro, é possível e bastante recomendável incluir na rotina afazeres que dão mais leveza à vida. “É muito importante que haja o convívio social com pessoas queridas. São momentos extremamente prazerosos de total relaxamento”, ensina o médico. “A vida é um conjunto. Tem que trabalhar, mas também tem que valorizar a família, desenvolver a espiritualidade, praticar uma atividade física, praticar o lazer, encontrar os amigos. É isso que dá sentido à vida.”



RESULTADOS

Para quem ainda não se animou a incluir em sua rotina atividades que ajudem a se desligar do trabalho, Palcoski tem uma boa notícia que pode funcionar como um poderoso incentivo. Para uma boa parte das pessoas, diz o psicólogo, a resposta é quase imediata. “Vejo um paciente que chega estressado ao consultório em uma semana e no intervalo de uma sessão para outra vivencia o hobby. Resolve ir ao cinema no final de semana, encontrar os amigos, praticar um esporte. Na sessão seguinte, o relato é de uma sensação de descanso não só físico, mas mental porque conseguiu trocar o foco do pensamento. O paciente começa a vir para o consultório feliz porque encontrou uma forma de enfrentar a dificuldade dele”, garante.


“Se é uma pessoa mais depressiva, com o humor mais rebaixado, que foca na dificuldade que vai vivenciar ao começar a praticar o hobby e tem falta de energia decorrente do adoecimento, aí temos que trabalhar um pouco mais, com tolerância, até que ela perceba os benefícios, mas os resultados também vêm", afirma o psicólogo.



" Não é bom ficar martelando as nossas dores"


Há 20 anos, Ivone Blanco experimentou a maior dor que uma mãe pode sentir na vida: a perda de um filho. A tristeza veio forte, mas ela decidiu não se entregar à depressão. Como já tinha afinidade com as artes e os trabalhos manuais, procurou esse caminho como consolo e também para se sentir valorizada.



Começou pintando telas, objetos em porcelana e cerâmica até que teve o seu primeiro contato com a arte do mosaico. Foi juntando pequenas peças para formar desenhos coloridos que Blanco conseguiu refazer a alma, em pedaços desde a morte do filho. “Se não fosse essa ajuda, realmente, eu não sei o que teria sido. Não é bom ficar martelando as nossas dores. A gente vai para a aula, coloca pecinha por pecinha, vai ficando lindo e ver o trabalho pronto é muito bom.”


Anos depois, uma nova perda a abalou. Dessa vez, a morte do neto. E foi o mosaico, mais uma vez, que a ajudou a juntar os caquinhos do coração. “No mosaico a gente se encontra com as amigas e faz uma atividade muito linda. Cada uma tem uma ideia diferente e a gente tira a tristeza do coração. Transfere para uma coisa mais bonita do que ficar chorando. Além de pedir para Deus apoiar a gente”, ensina.



O grupo de alunas que frequenta o ateliê, diz Blanco, é bem unido e, além do trabalho artístico, as aulas são uma oportunidade de socialização. “Vou mais do que um dia por semana. Tomamos café, conversamos. É uma coisa que vale muito a pena. Não é bom ficar dentro de casa. A arte eleva a alma.”


Com o aprimoramento da técnica, Blanco transformou a atividade em renda. As peças que produz são divulgadas nas redes sociais, meio pelo qual recebe muitas encomendas. No dia da entrevista, ela corria com os preparativos para a organização de um bazar. “Não faço só mosaico. Faço pintura em tecido, cerâmica, são peças variadas. Tenho muita saúde e disposição. Trabalho bastante e nem vejo a semana e o ano passarem. Não me esqueço do meu filho e do meu neto, mas passa a tristeza. Recomendo para todo mundo que estiver com depressão ou sofrendo muito por uma perda. É a melhor coisa que tem.”



Por uma vida mais leve
Gina Mardones - Grupo Folha

Daiane da Costa: “Eu gosto de criar; faz muito bem, é super relaxante e ajuda a expandir a minha criatividade"



Crochê, costura, bordado, decoração de interiores. Não faltam talentos para a vendedora Daiane Souza da Costa. Desde muito nova ela descobriu nas atividades manuais uma forma de terapia. “Sou ansiosa e essas atividades me ajudam a diminuir a ansiedade e o estresse. No dia a dia, a gente sofre muita pressão e quando estou me dedicando a esses trabalhos manuais, passo horas. É muito gostoso. Cada pessoa deveria ter uma afinidade com uma coisa legal, que goste de fazer”, sugere.



O capricho e o amor depositados em cada peça confeccionada por Costa chamaram a atenção de uma amiga, que a incentivou a comercializar os produtos e deu certo. Hoje, o que era prazer virou uma nova fonte de renda. Mas mesmo transformando o hobby em mais um trabalho, a vendedora garante que o tempo que dedica à atividade extra não deixou de ser um momento de descontração. “Eu gosto de criar, fazer com as mãos. E não é só para ganhar dinheiro. Me faz muito bem, é super relaxante e ajuda a expandir a minha criatividade. Quanto mais eu faço, mais eu quero fazer. E faço com muito amor.”



O contato com as tintas, com as cores, o planejamento de cada detalhe da decoração de um ambiente, comenta Costa, são formas de relaxamento. Concentrar-se na organização da casa também a ajuda a “ficar zen”. “Gosto muito de ver tudo arrumado. Dobrar, separar. Em casa, eu chego a deixar as coisas bagunçadas só para eu poder arrumar”, conta.



No rastro dela, vem o filho Matheus, 11, que já demonstra bastante interesse pelo desenho e conta com o total apoio da mãe. “Eu o incentivo a fazer, a criar coisas. Ele desenha, escreve muito e muito bem e gosta bastante de desenhar plantas baixas. Agora ele está começando a se interessar por crochê.”



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