Mesmo que o congelamento de óvulos tenha se tornado possível há cerca de três décadas, o método ainda é cercado de dúvidas e tabus. No imaginário popular, a técnica está atribuída mais fortemente à decisão da mulher em adiar a gravidez, o que é uma realidade.

No entanto, o aprimoramento da técnica acompanhado do diagnóstico precoce de doenças que comprometem a fertilidade da mulher tem levado cada vez mais o assunto aos consultórios, envolvendo mulheres jovens, que em tese apresentam boa idade reprodutiva.

Atualmente, tratamentos oncológicos envolvendo quimioterapia, histórico familiar de menopausa precoce e grau de comprometimento de endometriose são os principais fatores que levam as mulheres a tomarem uma decisão sobre o futuro.

Em uma das clínicas mais tradicionais de Londrina, o especialista em Reprodução Humana, Osmar Henriques, ressalta que uma boa parcela das pacientes que buscam hoje por congelamento de óvulos são pacientes que vão iniciar o tratamento de câncer.

"Vejo que os médicos oncologistas já estão começando a considerar a importância de não iniciar o tratamento em mulheres de 30 a 35 anos, sem ter essa conversa sobre fertilidade", diz.

A ginecologista e obstetra Lauriane Schmidt de Abreu, especialista em medicina reprodutiva, salienta que a questão da idade, principal fator da queda de fecundidade, ainda é preponderante na medicina reprodutiva. "Nós evoluímos no trabalho, nos direitos, mas nosso sistema reprodutor não acompanhou isso. A mulher tem possibilidades e deve discutir isso com o ginecologista", aponta.

Um médica em Londrina, de 33 anos, que prefere não ter o nome divulgado, já tomou a decisão de congelar os óvulos em prol da carreira profissional. Ela conta que tem o desejo de ser mãe, mas não nos próximos quatro anos.

"Profissionalmente, preciso me organizar mais, fazer algumas especializações, inclusive fora do País. Vou me casar em breve e tomamos essa decisão juntos, pois meu noivo também quer se dedicar ao mestrado e doutorado", comenta.

Apesar da decisão tomada, o procedimento será realizado daqui dois anos, quando ela completar 35. "Conversei com minha médica e esse será o período ideal. Mas por ser uma questão importante, procurei me planejar e buscar informação agora", afirma.

A especialista Lauriane, que trabalhou na Itália, considerada o berço na técnica de congelamento de óvulos, explica que a partir dos 35 anos começa a ocorrer um comprometimento da qualidade do óvulo e isso tem uma repercussão na chance de gestação da mulher.

"Não há uma data limite para fazer o congelamento, mas a Sociedade Brasileira de Reprodução Humana desaconselha que a partir dos 44 anos a mulher tenha uma gestação a partir dos próprios óvulos, pois há uma chance maior de disformidade no óvulo, de origem principalmente genética", explica.

Considerando o cenário atual, Lauriane ainda cita que muitas mulheres têm ido ao consultório considerando a infecção pelo vírus zika. "Elas estão pensando em postergar a gestação porque é um assunto que realmente as tem assustado", diz.

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