Por menos cesarianas
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de abril de 2015
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
O meio pelo qual os bebês nascem nunca teve tantos holofotes como agora. Isso se deve ao alerta que a Organização Mundial de Saúde (OMS) fez recentemente em Genebra, sobre o que considera uma "epidemia" de partos por cesárea em todo o mundo, nas últimas duas décadas.
Nesse contexto, o Brasil chamou atenção por estar no topo deste ranking, com um índice de 53,7% em 2011 e a estimativa de ter atingido 55% no ano passado. Esses dados são da própria OMS, que defende 15% como taxa ideal.
Com esses índices e uma preocupação em nível mundial, a entidade tenta a partir de agora, convencer todos os envolvidos (médicos, hospitais e gestantes) a refletirem sobre os partos, em especial na saúde suplementar, onde a taxa de cesáreas em 2013, chegou a 84,5%, do total de 541.476 partos realizados no Brasil, segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
EM LONDRINA
Em uma projeção local, conforme publicação também da ANS e considerando as duas principais operadoras de planos de saúde em Londrina, o número de partos cirúrgicos no mesmo ano, chegou a uma média de 94% de um total de 2.039 procedimentos.
Já na rede pública, de acordo com os dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos do Ministério da Saúde (Sinasc/MS), foram 5.508 cesáreas, de um total de 8.483 nascimentos, representando 54%.
No ano passado, foram realizados 7.674 partos no município, sendo 7.100 na rede pública (hospitais públicos e privados conveniados com o SUS local). Deste total, 2.831 foram de partos vaginais e 4.269 por cesárea.
MEDIDAS
Para reverter essas estatísticas, o MS e a ANS anunciaram no fim do ano passado, novas medidas para incentivo ao parto normal e, assim, reduzir a ocorrência de cesarianas desnecessárias, tanto no sistema privado quanto público.
"A cesariana deve sempre ter indicação médica. Ela ocasiona riscos desnecessários quando é indicada sem necessidade, tanto para a saúde da mulher quanto do bebê. Aumenta em 120 vezes os problemas respiratórios e esse número triplica o risco de morte materna", afirma a a ginecologista e obstetra em Londrina, Inês Paulucci Sanches.
A estratégia que entrará em vigor no dia 5 de julho, é a exigência de partogramas, documentos que detalham como foi o parto. Ele já é exigido no SUS, mas não tem a mesma rigidez nos planos de saúde.
A Resolução Normativa nº 368 que dispõe sobre o direito de acesso à informação das beneficiárias, também obriga os hospitais a informar os percentuais de cirurgias cesarianas e de partos normais tanto da instituição quanto do médico e disponibilizar o cartão da gestante com informações sobre o pré-natal. Se uma operadora não prestar tais informações, ficará sujeita a uma multa de R$ 25 mil.
SEGURANÇA E CONVERSA
Na visão da ginecologista, "o Brasil está assumindo essa mudança e agora não tem volta". Inês defende que o parto normal tem que ser a primeira escolha. "A cesariana é uma conquista científica, mas não podemos ter excesso. Existe toda a questão da comodidade da agenda da própria paciente e do médico obstetra, mas o que deve prevalecer é a segurança e garantia de saúde da mãe e do bebê", acrescenta.
Para ela, muitas vezes em um parto por cesárea, o nascimento não ocorre no momento ideal, porque a melhor hora de optar pela forma que o bebê vai nascer é esperar o início do trabalho de parto. "Cada caso é um caso, mas vejo que muitas mulheres vêm ao consultório com a ideia da cesárea já definida", ressalta.
O pediatra Maurício Marcondes Ribas, presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM) do Paraná, deixa bem claro que é obrigação do médico, durante o pré-natal, explicar que o parto normal é o parto fisiológico.
"É quando a natureza naturalmente vai ajudar. Ele é acompanhado de dor, com situações próprias, mas nada insuportável. Além disso, são inúmeros os benefícios, em especial na recuperação da mulher", defende.
Por outro lado, Ribas ressalta que não se pode criar uma situação em toda a sociedade, de criminalização da cesárea. "Ela não deve ser um procedimento absolutamente de eleição, pois tem um nicho muito importante. É um procedimento que pode salvar a vida tanto da mãe quanto do bebê, em uma série de circunstâncias", completa.

