Paraná já teve 16 surtos de caxumba
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segunda-feira, 07 de novembro de 2016
Juliana Gonçalves<br> Especial para a FOLHA 
O número de casos de caxumba aumentou de forma significativa no Brasil em 2016, com surtos registrados em várias regiões, inclusive no Paraná. De janeiro a setembro, a Secretaria de Estado de Saúde (Sesa) registrou 16 surtos de caxumba em todo o Paraná, dois deles na região de Londrina: um em Tamarana, com 33 pessoas infectadas, e outro em Rolândia, com seis casos. Um surto acontece quando há o aumento repentino do número de casos de uma doença em um local específico, não sendo necessário um grande número de infectados.
Segundo o chefe da vigilância epidemiológica da 17ª Regional de Saúde, Edmilson de Oliveira, a investigação desses surtos mostrou que o perfil da população infectada mudou: antes comum entre crianças, a caxumba agora tem atingido mais adolescentes e adultos jovens. "Dos 39 infectados nesses dois surtos, 31 tinham mais de 12 anos e a maioria foi vacinada contra caxumba na infância", conta. Segundo ele, isso ocorre porque a vacina vai perdendo sua eficácia ao longo do tempo.
Londrina passou pelo período mais propício à circulação do vírus, o inverno, sem nenhum surto. Segundo especialistas, o grande aumento no número de casos se deve a uma geração que não recebeu as duas doses da vacina contra a caxumba e está mais propensa a ter a enfermidade.
Por não ser uma doença de notificação obrigatória, a Secretaria de Saúde de Londrina não tem registros de números de casos, mas a Vigilância Epidemiológica afirma que o município não teve um cenário atípico da doença como acontece, por exemplo, na capital. Em Curitiba, o número de casos registrados entre janeiro e setembro foi cerca de 280% maior que em todo o ano de 2015, saltando de 675 casos para mais de 1,9 mil.
A infectologista consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Carla Sakuma, acrescenta outro fator às causas dos surtos recentes. "Existe uma população que não foi vacinada contra a caxumba e agora está sendo infectada, aumentando a circulação do vírus", explica. Segundo ela, os principais responsáveis pelo aumento de casos na população adulta jovem são os homens, que são maioria entre os não imunizados. "Eles vão menos ao médico, têm medo de agulha, não se cuidam tanto quanto as mulheres", afirma.
A vacina tríplice viral que imuniza contra sarampo, caxumba e rubéola só foi incorporada ao calendário básico de vacinação da primeira infância em 1996. Em 2006, uma segunda dose da vacina, necessária para aumentar a eficácia da vacina, passou a integrar o calendário de vacinação de 4 a 6 anos de idade. Só em 2013, o Ministério da Saúde passou a recomendar uma dose da vacina tríplice viral aos 12 meses e uma dose da quádrupla viral que acrescenta a varicela aos 15 meses de idade. Assim, houve um acúmulo de pessoas que não tomaram ou tomaram apenas uma dose da vacina. São pessoas que nasceram antes da tríplice viral e não passaram por campanhas de vacinação da tríplice viral para adultos.
A infectologista do Hospital Universitário (HU) de Londrina, Jaqueline Capobiango, levanta três hipóteses para os casos atuais. "A infecção hoje ocorre mais em quem tomou apenas uma dose da vacina, que tem eficácia menor. Tem também casos de caxumba em quem tomou as duas doses, mas perderam os anticorpos ao longo dos anos. E tem os casos que não tomaram nenhuma dose", explica.
O consultor empresarial Alexandre Shimada, que há duas semanas, aos 32 anos, teve caxumba, acredita estar no grupo daqueles que perderam a imunização da vacina ao longo do tempo porque sua mãe garante que sua carteira de vacina estava completa.
A doença, que é mais severa em adultos, não teve uma evolução tranquila. "Começou com uma dorzinha no maxilar, fui ao médico e ele recomendou que eu ficasse uma semana em casa, de repouso. Aí a dor piorou, tive muita febre. Dizem que quem está com caxumba não pode fazer esforço, mas eu não conseguiria fazer esforço nem que eu quisesse", conta. Dois dias depois do diagnóstico, Shimada foi internado, passou um dia no hospital, voltou para casa, mas teve que voltar porque a inflamação se espalhou. "Era tanta dor, que eu não conseguia nem andar", lembra.
A consultora da SBI afirma que só é considerado imune ao vírus da caxumba o adulto que tomar uma nova dose da vacina depois dos 12 anos. "Para estar protegido, é preciso tomar o reforço da vacina entre 12 e 49 anos", ressalta Carla. Segundo ela, a vacina não tem um prazo de duração comum para todas as pessoas, por isso a necessidade de reforçar a imunização. A vacina contra caxumba é disponibilizada nas unidades básicas de saúde (UBS), tanto para crianças, quanto adolescentes e adultos de até 49 anos.
Gestantes não podem se vacinar contra a caxumba, já que a vacina é feita com vírus vivos atenuados, e, em geral, está associada aos vírus da rubéola e do sarampo em uma mesma imunização. Além disso, deve-se evitar a gravidez até trinta dias depois de receber a vacina. Apesar de ser um importante fator de risco para aborto quando a infecção ocorre no primeiro trimestre da gestação, a caxumba não costuma deixar sequelas.

