PALAVRA DE ESPECIALISTA
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de abril de 2011
Luciana Leis <br> <br> 
O desejo de filhos está bastante internalizado na maioria das mulheres, sendo fruto de um processo histórico, já que é passado de mãe para filha através de processos identificatórios ao longo das gerações familiares.
É comum vermos, desde muito cedo, meninas brincando com suas ''filhas-bonecas'', cultivando o sonho de virem a ser mãe um dia, treinando esse papel para ser atuado em algum momento de suas vidas.
Para a mulher, ser mãe está associado a sentir-se completa, potente, produtiva, a ser capaz de repetir os ensinamentos sobre maternidade passados por sua mãe, enfim, a ''sentir-se mulher''.
Deste modo, não conseguir conceber abala profundamente a autoestima da mulher, abrindo um vazio quanto ao referencial feminino, exigindo desta uma redefinição de sua identidade individual, que passa a incluir em sua história a dificuldade de poder conceber um filho.
Cada menstruação vivenciada a partir da busca por uma gravidez é experimentada como um fracasso pessoal; sem contar as tentativas frustradas através de tratamentos de reprodução assistida que colaboram por reforçar ainda mais essa ideia pois, afinal, ''nem com os tratamentos a gravidez acontece''.
No entanto, é chegada a hora em que a gravidez finalmente ocorre e, em meio a tantas alegrias e expectativas, nota-se que a experiência anterior de infertilidade costuma deixar uma marca de incapacidade no psiquismo destas, fazendo-as se sentir inseguras frente às suas capacidades de gerarem e cuidarem de uma criança.
Percebo, no atendimento clínico a essas mulheres, que a gravidez é vivenciada com muito mais receios e ansiedades do que as mulheres que não passaram por essa experiência. O medo de não possuir um bom útero para desenvolver um bebê sadio é frequente, assim como receios de não levar a gravidez adiante, não conseguir amamentar, não ser uma boa mãe entre outros.
Além disso, nota-se que a atenção sobre o próprio corpo passa a aumentar nestas gestantes, sintomas como enjoos e/ou vômitos, na maioria das vezes, sentidos como desagradáveis para as demais grávidas, para essas mulheres são vivenciados, de certa forma, como positivos, já que servem como um marcador interno de que permanecem grávidas; o mesmo acontece com os movimentos fetais nas fases mais posteriores de gestação, os quais muitas vezes acabam sendo buscados para certificar-se de que o bebê continua vivo.
Assim, nota-se que apesar do sucesso da gravidez, essas mulheres apresentam uma dificuldade em poder acreditar que agora são férteis e capazes, já que os fantasmas deixados pela infertilidade invadem sua mente, dificultando que a mesma possa se apropriar dessa mudança positiva em sua história.
No entanto, logo nos primeiros meses após o nascimento do filho, percebe-se que toda essa insegurança aos poucos vai cedendo espaço para uma maior confiança em si mesma e na sua capacidade de maternagem.
A partir do momento que a mulher vai sentindo que seus cuidados estão sendo suficientes para manter seu bebê bem e sadio, passa a se sentir mais confortável e segura neste novo papel tão almejado por ela.
Porém, faz-se relevante destacar que essa experiência não produz só mazelas, já que todo o sofrimento trazido pela infertilidade costuma resultar também em mães mais maduras e implicadas na criação de seus filhos, uma vez que a intensificação do desejo que ocorre durante a espera pela gravidez acaba levando-as a refletirem mais sobre seu papel de mãe e a investirem emocionalmente nessa criança muito antes dela ser concebida.
O sofrimento trazido pela infertilidade costuma resultar também em mães mais maduras e implicadas na criação de seus filhos
LUCIANA LEIS é psicóloga especialista em psicologia hospitalar, com enfoque no atendimento a casais inférteis

