Pacientes do HU de Londrina são beneficiados com cirurgias inovadoras
Pacientes que não respondiam ao tratamento padrão com remédios passaram por cirurgias inéditas pelo SUS no hospital, nas áreas de neurologia e cardiologia
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020
Pacientes que não respondiam ao tratamento padrão com remédios passaram por cirurgias inéditas pelo SUS no hospital, nas áreas de neurologia e cardiologia
Micaela Orikasa - Grupo Folha 
Quando os remédios não têm mais os resultados esperados ou provocam efeitos colaterais significativos, os médicos buscam alternativas para o tratamento desses pacientes considerados refratários, ou seja, que não respondem aos tratamentos usuais. Como a maioria das opções emprega alta tecnologia, as possibilidades acabam ficando bastante limitadas pelo alto custo e assim, apenas uma pequena parcela da população pode se beneficiar delas. No entanto, as recentes notícias de que importantes cirurgias foram realizadas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) no HU (Hospital Universitário) de Londrina acendem uma nova luz para muitos pacientes e seus familiares, nas áreas de cardiologia e neurologia.

Uma delas alimentou as expectativas da técnica de enfermagem Rosimara Rodrigues de Paula Marconato, que tem sofrido com os efeitos colaterais pelo uso de medicamentos para dor crônica. No dia 12 de dezembro de 2019, ela entrou na sala de cirurgia como a primeira paciente a receber pelo SUS, no município, uma bomba para infusão de fármacos intratecal. Há pelo menos oito anos, Marconato sofre com fortes dores na coluna que a impedem de realizar qualquer tarefa doméstica, trabalhar ou curtir momentos de lazer.
A situação se agravou quando ela foi submetida a três cirurgias - em 2004 e 2007 - devido a uma hérnia que estava comprimindo o nervo do braço. Durante muito tempo, Marconato tomou fortes medicamentos que comprometeram sua qualidade de vida.
Hoje, aos 44 anos, ela está aposentada por invalidez. “Eu não tenho mais vida. Dependo de todos para fazer qualquer coisa. Meu desejo básico é poder tomar um banho gostoso, sozinha, de dez minutos, pois nem isso eu consigo”, desabafa.

O neurocirurgião Marcos Antônio Dias explica que a técnica já existe há pelo menos 20 anos. “Não é uma coisa nova, mas o SUS de Londrina não possuía essa modalidade. Podemos colocar qualquer droga dentro da bomba, mas no Brasil ela tem sido muito utilizada nos quadros de espasticidade e dor crônica intratável, justamente porque um cateter ligado à bomba é introduzido na espinha dorsal, agindo diretamente no sistema nervoso central. Com isso, eu passo a gotejar a droga no alvo”, explica.
A bomba é implantada na região do abdômen e a cirurgia requer anestesia geral. Marconato continua a receber doses de morfina, mas em quantidade bem menor e de forma automática. De oito comprimidos de 30mg cada por dia, ela passou a receber 3mg. “Dessa forma, os efeitos colaterais tendem a melhorar”, afirma o cirurgião.
Marconato diz que sente aos poucos os impactos da cirurgia. “Embora eu continue com outras medicações, já senti melhoras. A dor está diminuindo e tem dias que me sinto realmente bem e consigo tomar um banho rápido sozinha. Tenho o pé no chão de que ela (a bomba) não vai fazer milagre, mas aguentar fazer um passeio com minha família ou poder almoçar fora, já vai me deixar muito feliz”, comenta.

REFIL E BATERIA
A bomba de fabricação americana possui um mecanismo que infunde uma quantidade precisa do medicamento. Após três ou quatro meses, o médico repõe o remédio com uma agulha no centro da bomba. Já a bateria tem que ser substituída com nova cirurgia após 80 meses.
Diante de qualquer intercorrência, o equipamento emite um alerta sonoro. Os dados, como doses a serem liberadas, são programados por um microcomputador acessado pelo cirurgião. Por se tratar de um material metálico, os pacientes recebem uma identificação para comprovar que são portadores da bomba.
Segundo o médico, esta cirurgia na rede privada tem o custo aproximado de R$ 80 mil. “Para esse ano, o HU disponibilizou seis bombas e devemos aumentar no ano que vem. Existe uma demanda grande de pacientes, só que muitas pessoas, quando chegam ao hospital, não estão seguindo o tratamento padrão corretamente. Sendo assim, a gente tem que melhorar o tratamento e investigar melhor o que está acontecendo com aqueles indivíduos, pois a bomba não se aplica em todos os casos”, pontua.
Prótese no coração reduz risco de AVC
Outro procedimento inédito pelo SUS (Sistema Único de Saúde) realizado no HU (Hospital Universitário) de Londrina atende pacientes com fibrilação atrial - arritmia causada pela perda da capacidade de parte do coração de contrair e impulsionar o sangue -, funcionando como uma prevenção do AVC (Acidente Vascular Cerebral), popularmente conhecido como derrame.
A paciente operada é Josefa Romão da Silva, 83, moradora de Primeiro de Maio (Região Metropolitana de Londrina). Ela foi submetida à cirurgia para Implante de Oclusor de Apêndice Atrial Esquerdo porque também sentia efeitos colaterais significativos com as medicações anticoagulantes.
Silva tinha que ser constantemente atendida no hospital por conta do quadro de anemia e de sangramentos digestivos toda vez que tomava o medicamento. Além disso, o fato dela ser hipertensa e diabética, aumentava ainda mais o risco de sofrer um AVC.
O cardiologista Cézar Eumann Mesas, especialista em Eletrofisiologia Clínica, explica que a perda de capacidade de contração provoca pequenos coágulos dentro do coração que podem migrar para áreas remotas do corpo como, por exemplo, o cérebro. Isso explica o risco aumentado de AVC nesses pacientes.
A estimativa no Brasil é de que 16 mil pessoas (1,5% da população) sofram com a fibrilação atrial. Deste total, cerca de 12 mil (75%) são considerados de risco para a ocorrência de AVC e pouco mais de dois mil pacientes (18%) não podem usar a medicação anticoagulante.
Sob anestesia geral, o cirurgião implanta uma prótese metálica por meio de um cateter inserido na veia profunda da virilha. O cateter chega ao coração e libera a pequena prótese (cerca de 25 milímetros) com o objetivo de ocluir o local sede da formação de coágulos.
A técnica ainda é restrita em todo o País e até o momento, beneficiou cerca de 150 pacientes. No SUS, são apenas dois operados em Vitória (ES), além desta paciente em Londrina. “A técnica reduz até 70% o risco de AVC, mesmo percentual estimado para os indivíduos que utilizam e toleram os remédios”, afirma.
De acordo com Mesas, a cirurgia só foi possível de ser realizada no HU porque a fabricante da prótese, uma multinacional americana, fez a doação do material e em contrapartida o hospital viabilizou todo o apoio logístico, infraestrutura e capacitação humana.
“A técnica ainda não foi incorporada no rol de procedimentos pagos e autorizados pela Agência Nacional de Saúde, nem no SUS quanto na saúde suplementar”, comenta. Somente a prótese tem o custo aproximado de R$ 30 mil.

