Obesidade pode estar ligada às emoções
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segunda-feira, 01 de dezembro de 2014
Micaela Orikasa<br> Reportagem Local 
"Consigo me controlar até que de repente alguma situação me desequilibra e eu como, como, como. Teve dias que passei madrugadas inteiras com insônia e a única coisa que me confortava era mastigar. Abria a geladeira e só parava quando acabava tudo. Depois, vinha um sentimento imenso de culpa. É horrível".
O depoimento é de Márcia (nome fictício), diagnosticada com transtorno de ansiedade e distúrbio alimentar há pouco tempo. Infelizmente, o relato dela não é uma exceção. Ele reflete uma condição preocupante que atinge cada vez mais a população e por isso vem ganhando a abordagem de muitos profissionais.
Se antes a obesidade era tratada com maior ênfase para a questão alimentar, agora ela também é relacionada com transtornos emocionais, em especial a depressão e a ansiedade. Para se ter uma ideia, um recente relatório do National Center of Health Statistics, sobre a população dos Estados Unidos, aponta que 43% dos adultos deprimidos são obesos.
Mas apesar das afirmativas, a ciência ainda não tem uma resposta para a relação de causa e efeito. Para a psiquiatra Giuliana Claudia Cividanes, especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e membro da Associação Americana de Psiquiatria, há algumas hipóteses.
Uma delas, por exemplo, no caso da depressão, é que o fato da doença deixar o paciente sem motivação, com perda de energia, cansaço e falta de autoestima, a atividade física é desprezada, assim como o controle da alimentação.
"Outro fator é o uso de medicações, pois muitas utilizadas na psiquiatra não só aumentam o apetite, como também reduzem o metabolismo. Isso faz com que o paciente acabe acumulando mais gordura", afirma. Dessa forma, além dos sintomas da doença que dificultam o controle, os remédios contribuem no ganho de peso.
Segundo o cirurgião bariátrico Caetano Marchesini, de Curitiba, cerca de 30% dos pacientes que o procuram hoje para cirurgia bariátrica são obesos de longa data e têm depressão. "Mas também existem outros distúrbios psiquiátricos associados, o que eleva esse percentual para 40%", comenta.
Há anos, Márcia (nome fictício) vem lutando contra a compulsão alimentar. Ela diz que foi da geração da anfetamina (droga sintética inibidora de apetite), mas com a proibição da mesma, passou a engordar novamente.
Ela só se deu conta de que precisava de ajuda quando passou a ter insônia e só a comida lhe trazia alívio e prazer. Esses episódios começaram, segundo ela, há alguns meses, com o acúmulo do estresse no trabalho e a rotina corrida com dois filhos pequenos.
"Me dei conta que precisava de um apoio psicológico. Com essa compulsão, cheguei a engordar dez quilos em duas semanas", desabafa Márcia, que este ano passou a ter sessões com uma psicóloga, a tomar ansiolítico e acompanhamento de uma nutricionista.
"Estou tentando ainda, mas me sinto mais calma, mais segura. Hoje, me sento à mesa com outra postura e não penso mais em comida o dia inteiro. Além disso, as situações compulsivas estão diminuindo. Meu objetivo é reduzir o diabetes que surgiu por causa do sobrepeso, assim como o colesterol e triglicérides. Não quero ser magra, quero ter saúde", conclui.
O cirurgião Marchesini é um dos autores da proposta de elaboração de um plano de ação para controlar e prevenir a obesidade entre crianças, jovens e adultos no Paraná, de 2015 a 2018. Uma audiência pública foi realizada este mês e reuniu médicos, educadores físicos, nutricionistas, legisladores e representantes do governo e da sociedade civil.
"O Brasil tem pouco mais de 20 milhões de obesos, incluindo crianças e jovens. O problema é que a obesidade não acarreta só o excesso de peso. Ela vem acompanhada de doenças, como diabetes, hipertensão, colesterol elevado, entre outros. Futuramente, isso terá uma consequência muito difícil para o País. O acompanhamento multidisciplinar é fundamental para bons resultados", conclui.

