O lado oculto da depressão
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domingo, 24 de agosto de 2014
Micaela Orikasa<br> Reportagem Local 
Um dia na escola, Felipe (nome fictício), hoje com 26 anos, achou que estava sendo perseguido. Os dias passavam e a sensação só aumentava. Até que certa vez começou a ter sintomas físicos, como taquicardia, suor e boca seca. Desde 2003, Felipe luta a cada dia para manter o controle mental e emocional, para seguir uma rotina "normal" de estudos e trabalho.
O mesmo empenho define o dia a dia do empresário Paulo Afonso, de 51. Logo ao despertar, o primeiro pensamento que lhe vem à mente é quase que uma oração para que possa começar bem o dia. Casado e pai de duas filhas, ele chegou a passar um mês sem dizer uma palavra dentro de casa. Há anos, ele "rema contra a maré" da depressão.
Duas histórias, duas vidas e um ponto em comum. Falar de depressão em tempos atuais - apesar de muito progresso na divulgação e nos tratamentos - ainda incomoda muita gente. Um assunto oculto, silenciado. Em muitos relatos não é difícil perceber que a ausência de conhecimento sobre a gravidade e os riscos é "mascarada" por preconceitos.
Assim como Felipe e Paulo, milhões de pessoas sofrem de um transtorno da personalidade, que afeta a saúde mental e as defesas psicológicas. Esta é uma definição da depressão, dada pelo psicoterapeuta Ivan Capelatto, que estará em Londrina nesta semana apresentando seu mais novo livro e palestra "A Vida Humana: perdas e consequências".
Ele acrescenta ainda que é uma soma de sintomas, "que vão desde uma pequena tristeza até uma dor psíquica insuportável que pode conduzir a ideias suicidas". No último dia 11, a notícia de que o ator americano Robin Williams cometeu suicídio trouxe à tona a discussão sobre as "doenças mentais". O fato ocorreu 12 dias após o humorista brasileiro Fausto Fanti, do "Hermes e Renato", ser encontrado morto em seu apartamento. Ambos sofriam de depressão, conforme relatos de familiares.
O que grande parte da população pode ainda não ter se dado conta é que no mundo mais de 350 milhões de pessoas sofrem de depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Muito mais preocupante que essa estatística é o número crescente de brasileiros entre 15 e 29 anos que cometem suicídio.
Um levantamento realizado pelo Datasus, banco de dados do Sistema Único de Saúde (SUS), levando em consideração os últimos 20 anos (1990-2010), mostra que o número de óbitos nesta faixa etária aumentou 95%, resultando em cerca de 25 mortes ao dia. O estudo foi publicado pela FOLHA neste ano e teve como entrevistada a médica psiquiatra Alexandrina Meleiro, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).
Especialista em suicídio, ela afirma que "há um grande medo dos familiares e amigos de que se falarem no assunto irão induzir a pessoa a cometer suicídio. Na verdade, vejo como um alívio a possibilidade de compartilhar a angústia com alguém".
A experiência clínica a leva crer que entre os motivos dessa triste realidade estão a maior facilidade ao uso de drogas, mais lares desfeitos, instabilidade, sociedade de consumo que valoriza o "ter" e não o "ser", ou seja, um valor menor à vida. A especialista ainda ressalta que a OMS aponta a existência de doenças mentais como a primeira causa de suicídio.

