O efeito indesejado dos anti-inflamatórios
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Um comprimido para aliviar a dor. Quem nunca recorreu à caixinha de remédios para uma solução imediata? Pois bem, apesar de parecer inofensiva, a automedicação nunca deixou de ser um comportamento perigoso e uma preocupação constante entre os médicos, que sabem muito bem das consequências para o organismo, seja em um curto ou longo prazo.
E entre tantas classes de medicamentos, os anti-inflamatórios merecem uma atenção especial já que afetam diretamente os rins, órgãos responsáveis por filtrar e eliminar substâncias tóxicas do sangue. O uso indiscriminado pode então, prejudicar seu funcionamento, causando diversos problemas renais.
Esse alerta é dado pelo nefrologista Getúlio Amaral Filho, de Londrina, ao reconhecer que a maioria da população ainda desconhece os riscos desta prática e afirmar que o uso descontrolado de anti-inflamatórios segue crescendo cada vez mais.
Estatísticas do Sistema Nacional de Informações Tóxico Farmacológicas (Sinitox) apontam que, há duas décadas, a automedicação se mantém como a principal causa de intoxicação em seres humanos. "Muitas pessoas usam por conta, sem indicação e receita médica e, com isso, ficam sujeitas a terem problemas, inclusive renais", completa.
De acordo com Amaral Filho, estudos revelam que o consumo acima de mil comprimidos ao longo da vida, de modo sequencial, pode provocar um dano permanente ao rim e fazê-lo parar. "Se isso acontecer, a pessoa precisará fazer uma hemodiálise ou até um transplante renal dependendo da gravidade do caso", salienta.
Para entender de que forma esses remédios prejudicam nosso organismo, o especialista explica que cerca de ¼ do volume de sangue que o coração bombeia passa pelos rins, que têm a função de filtrar as impurezas que posteriormente serão eliminadas pela urina.
"O anti-inflamatório age no local inflamado, mas também atinge o rim, pois o medicamento tem a ação de inibir uma enzima chamada COX-2, que regula a circulação do sangue e que é importante para o bom funcionamento desses órgãos", explica.
PROBLEMAS RENAIS
Quanto aos danos decorrentes do uso descontrolado dos anti-inflamatórios, Amaral Filho cita um quadro de insuficiência renal aguda, que pode atingir também as pessoas saudáveis, ou seja, com rins em funcionamento normal. "Isso pode ocorrer com apenas dois ou três comprimidos e não somente com o uso prolongado (da medicação). Além disso, o quadro pode se agravar caso o paciente esteja desidratado", afirma.
Já os pacientes que apresentam alguma doença renal ou que integram o grupo de risco (idade acima de 60 anos, hipertensão arterial, histórico de pedra no rim, diabéticos, obesos, pessoas com crises de gota) estão sujeitos a terem mais complicações.
Segundo ele, é muito comum também o acúmulo de líquidos (inchaço) pela inibição do funcionamento dos rins e o aumento na pressão arterial mesmo entre aqueles que não têm a patologia. "Se a pessoa já é hipertensa e toma medicamentos, no momento em que ela ingerir anti-inflamatórios, pode haver um descontrole", salienta.
Porém, os problemas não param por aí. O especialista explica também que pode ocorrer uma inflamação nos rins (nefrite intersticial aguda) por uma possível alergia ao remédio. "Com isso, o rim fica todo inflamado e pode parar de funcionar. Mas esses danos são temporários. Isso significa que ao parar de tomar o remédio, a tendência é que o quadro volte ao normal", diz.
Com relação a um período de uso mais prolongado, de um a três meses por exemplo, os órgãos podem perder proteína (síndrome nefrótica) ou, então, ter um acúmulo de potássio no sangue, o que pode levar até a uma arritmia.
Por último e o mais preocupante, de acordo com ele, é a doença renal crônica, decorrente do uso contínuo e a longo prazo. "As pessoas devem saber que todos esses problemas renais podem ser muitos graves, mas a incidência vai variar de pessoa para pessoa", enfatiza.


