O corpo fala e tem memória
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de agosto de 2012
Michelle Aligleri <br> Reportagem Local <br> 
Não apenas as lesões podem alterar o funcionamento do corpo, os traumas emocionais também podem mexer com toda a postura de uma pessoa, pois os músculos e ossos têm memória. A emoção dos momentos vivenciados é capaz de deixar marcas físicas que interferem no corpo.
Este é o foco de uma técnica de fisioterapia chamada de posturologia, que foi apresentada em Londrina pelo professor francês Philippe Villeneuve. Ele ministrou na cidade o curso de formação para a primeira turma brasileira de Posturologia, a convite do instituto de fisioterapia Afonso Salgado.
Segundo Villeneuve, a má postura pode ser provocada por traumas físicos ou emocionais que levam à reação geral de todo o corpo. Por isso, o método é mais direcionado para pacientes com dores crônicas. ''São pessoas que apresentam uma melhora ao buscarem as terapias tradicionais, mas o problema volta a rescindir após um tempo'', disse.
Considerada uma terapia complementar, os praticantes da posturologia explicam que a história pessoal e a personalidade de cada um tem grande influência sobre a postura. ''Uma pessoa que é ansiosa está sempre com o tronco deslocado para frente, neste caso os músculos da coluna ficam sobrecarregados'', exemplificou.
Ele acrescentou que pessoas que têm problemas intestinais ou mulheres com cólicas menstruais têm tendência a curvar o tronco sobre as pernas para repousar a zona de dor. Isso tudo, diz ele, é inconsciente, gerado e controlado de maneira automática.
Dores na coluna, enxaquecas, tensão pré menstrual e problemas circulatórios são alguns dos quadros que podem ser tratados com a posturologia. ''Temos bons resultados com pessoas que apresentam distúrbios do sono. Estes pacientes estão sempre hiperalertas e se protegem o tempo todo, quando conseguimos fazê-los relaxar e corrigimos a postura, o sono melhora'', afirma Villeneuve. Segundo ele, a técnica é indicada em especial às dores funcionais. ''Não tratamos pessoas com câncer ou fraturas'', explica.
De acordo com o professor, os órgãos dos sentidos absorvem informações do ambiente em que estamos e tudo está ligado à parte cortical, que leva informações para todo o corpo. Para corrigir a postura do paciente, o profissional usa o toque de maneira suave em pontos estratégicos do corpo. ''São neuroestimulações que fazemos nos pés, boca ou nos olhos, desta forma conseguimos mudar a percepção dos órgãos dos sentidos em relação ao ambiente. Neste momento o cérebro corrige a postura e o resultado é instantâneo'', disse.
Para que os estímulos feitos pelo terapeuta apresentem um bom resultado, Villeneuve explicou que é fundamental que as vias de comunicação neurológicas entre os pés e a cabeça estejam funcionando bem. Se houver algum problema neste trajeto, é preciso fazer um trabalho de terapia manual. ''Não tentamos recolocar nada no lugar, só desejamos estimular os pontos receptores com manobras que são muito sutis mas são reconhecidas pelo cérebro''.
O professor acrescentou que há receptores por todo o corpo e que a maioria deles coincide com pontos usados pela acupuntura. ''De certa forma a posturologia une a medicina ocidental, que dá valor a neurofisiologia, com a medicina oriental'', destacou.
Sintomas e tratamento
Os principais sinais de que há algo errado que precisa ser investigado por um profissional são dores recorrentes, um ombro mais baixo que o outro, instabilidade e diferenças entre membros inferiores. ''O mais importante é o exame clínico, que precisa ser muito bem desenvolvido'', disse. Conforme ele, a posturologia pode intervir até mesmo em crianças.
Após o diagnóstico, o tratamento dos problemas é realizado com estimulações nos dentes (feitas com orientação de dentistas), nos olhos (através de óculos com cristais que fazem com que a pessoa tenha uma visão diferente e enxergue as imagens corretamente) ou por meio de palmilhas com relevos finos. ''A posturologia invade muitos campos porque liga todas as partes do corpo''.
Após o início do tratamento, em que o terapeuta faz uma nova proposta ao cérebro, é preciso esperar entre um e dois meses para fazer um retorno. ''Uma pessoa que tem dor há cinco ou dez anos precisa ter pelo menos 30% de melhora entre uma consulta e outra'', disse, acrescentando que na maioria dos casos são necessárias entre três e quatro sessões para solucionar o problema por completo.

