Com o tema aquecido no Senado brasileiro, as discussões sobre a regulamentação do uso medicinal ou industrial da Cannabis sativa (nome científico da maconha), ganham cada vez mais holofotes. A liberação para o uso das substâncias da planta no tratamento de várias doenças tem sido cobrada, principalmente, por pais de filhos que não obtiveram resultados satisfatórios com os tratamentos convencionais.
O debate por enquanto, se refere ao medicamento canabidiol (CBD), um composto derivado da planta. Pelo fato da Cannabis sativa ser vetada no País, somente pacientes com autorização especial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) podem importá-lo. Por meio da assessoria de imprensa, a agência comunicou que está discutindo a possibilidade de reclassificação do canabidiol (para a lista de compostos sob controle especial) e que o tema deverá entrar em pauta nas futuras reuniões, porém, ainda sem prazo.
Quanto às liberações do medicamento em caráter excepcional, a Anvisa "pretende garantir que, nos casos em que há a necessidade do uso de produtos à base de CBD (desde que reconhecidos e prescritos por profissionais da área médica), os pacientes sejam devidamente atendidos". Desde que a Agência criou mecanismos para que as pessoas possam ter acesso a esses medicamentos sem demandas judiciais, a Anvisa já recebeu 118 pedidos de importação do canabidiol, por meio do pedido excepcional de importação para uso pessoal, além de 13 por demandas judiciais.
O prazo médio das liberações pela Anvisa é de uma semana. Dos 118 pedidos, 87 foram autorizados, oito aguardam o cumprimento de exigência pelos interessados e 19 estão em análise. Ocorreram ainda, quatro arquivamentos de processos.

AÇÃO DOS COMPOSTOS
Para compreender melhor a ação dos compostos da Cannabis sativa, o neurocientista e pesquisador da Universidade de Brasília (UNB), Renato Malcher-Lopes, explica que o nosso cérebro possui um sistema chamado "endocanabinoide", formado por um grupo de receptores que envolvem aspectos de nossa saúde mental, emocional e fisiológica.
"É um sistema muito importante como alvo de medicamentos. Ele produz substâncias que atuam sobre as estruturas reguladoras, ou seja, os mesmos receptores sobre os quais também atuam direta e indiretamente, os componentes da maconha, chamados de fitocanabinoides", ressalta o pesquisador que estuda o tema há 12 anos. Acredita-se que cerca de 500 substâncias químicas das mais diversas classes já foram isoladas e identificadas na maconha.
No livro "Maconha, Cérebro e Saúde", publicado em 2007, os autores Sidarta Ribeiro e Malcher-Lopes apontam que "a maior parte destes compostos exibe diferentes propriedades farmacológicas de potencial uso medicinal". Porém, a concentração relativa de cada um depende da linhagem e cultivo de cada planta. "Em geral, o tetraidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD) são os canabinoides mais abundantes".

EFEITOS
Ainda de acordo com o neurocientista, o canabidiol em si, puro, tem efeito anti-inflamatório, anticonvulsivante (inibe o excesso de ativação neuronal, que serve para impedir tanto a epilepsia quanto alguns sintomas do autismo), analgésico, sedativo e também auxilia no tratamento do câncer, impedindo a formação de metástases. Pesquisadores ressaltam que o CBD não causa dependência.
Já o THC é o principal responsável pelos efeitos psíquicos e não é indicado, portanto, para tratar convulsão se sua concentração for alta, pois pode até piorar o quadro. O pesquisador ainda diz que para crianças com epilepsia refratária, é interessante que esse óleo tenha muito CBD e pouco THC, assim como nas situações de esclerose múltipla e dores associadas a doenças que afetam o sistema nervoso central.
"Vale lembrar que a planta Cannabis pode ser trabalhada geneticamente, resultando em variações de óleos que podem ser usados para determinados tipos de doença", explica Malcher-Lopes, acrescentando que em geral, os pacientes que têm obtido autorização da Anvisa para importar o remédio, fazem uso dessa linhagem com muito CBD e quase zero de THC.
Quanto à possibilidade de uso desses medicamentos, o neurocientista afirma que é muito versátil. "Certamente o uso fumado não é aconselhado, justamente pela fumaça, mas uma das vias de efeito rápido é a via pulmonar. Existem em alguns países, aparelhos que ‘transformam’ o extrato caseiro da planta em vapor. A pessoa vai inalar esse vapor e a vantagem é que o efeito é imediato e a pessoa pode usar doses menores", afirma. Em relação ao óleo, a via é oral, em forma de gotas.
Por mais que a discussão seja em torno do uso medicinal, cientistas reforçam que o uso abusivo e a longo prazo da maconha enquanto um conjunto de componentes, pode sim trazer riscos, inclusive para psicóticos, jovens em crescimento e gestantes.

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