Washington - A descoberta de uma mutação genética que confere proteção contra o mal de Alzheimer pode ajudar cientistas na busca de uma droga contra a doença, que leva à perda de memória e à morte. A pesquisa foi liderada pela empresa DeCODE, da Islândia, que sequenciou o DNA de 1.795 nativos do país-ilha.
Os cientistas descobriram que a incidência de Alzheimer era muito menor entre os portadores da mutação. A alteração rara foi encontrada num gene batizado de APP, no qual outras mutações, em geral, aumentam o risco de ter a doença.
Em um estudo na edição da revista ''Nature'', os autores descrevem como diferentes variedades do APP levam a múltiplas formas das moléculas que formam as placas amiloides, fibras proteicas que causam Alzheimer.
Placas amiloides se formam aos poucos em neurônios pelo acúmulo de uma molécula chamada beta-amiloide. Como a célula não consegue destruir as moléculas, elas acabam sobrecarregando e matando os neurônios.
A mutação identificada faz com que as proteínas que são precursoras da amiloide se degradem de forma diferente, originando moléculas que o cérebro consegue ''digerir''.
Acredita-se que a proteína APP seja um componente importante das membranas de neurônios, apesar de sua função ainda ser mal conhecida.
Essas moléculas precisam ser produzidas e destruídas de maneira adequada. No estudo, cientistas encontraram uma enzima identificada com a sigla BACE-1, que ''desmonta'' a proteína APP da maneira errada, deixando a nociva beta-amiloide como produto dessa quebra.
O que ocorre de diferente nos portadores da mutação protetora é que as APPs têm certa imunidade à BACE-1. ''A busca de drogas contra a BACE-1 já vinha ocorrendo nos últimos 10 a 15 anos, mas de forma lenta, porque não havia uma prova de princípio mostrando que essa estratégia iria funcionar'', disse à Folha Kári Stefánsson, presidente da DeCODE e cientista coordenador do estudo.
''Essa mutação fornece a prova, porque ela torna a BACE muito menos efetiva, e há uma redução de 40% a 50% nos peptídeos amiloides. A busca de uma droga que atue assim deve ser reavivada já.''
Outra descoberta embutida nesse estudo é um mecanismo biológico que liga o mal de Alzheimer à demência senil generalizada, que provoca falhas de memória em pessoas muito idosas.
Acreditava-se que a forma mais conhecida da doença não tivesse relação com o declínio de capacidades cognitivas no envelhecimento. Mas a mutação descoberta pela DeCODE ajuda a proteger as pessoas dos problemas de memória mais genéricos quando elas envelhecem.
''Nossos resultados sugerem que a doença de Alzheimer com início tardio seria o lado extremo do declínio de funções cognitivas ligadas à idade'', afirma Stefánsson. Segundo o cientista, estudar portadores da mutação também pode ajudar na criação de tratamentos.
''Podemos medir o nível de proteínas beta-amiloides no sangue dessas pessoas para saber quão longe é preciso ir em um tratamento antes que se possa verificar um efeito terapêutico'', diz.
Para Stefánsson, essa seria uma maneira de investigar a eficácia de determinada droga experimental.
A descoberta tem um sabor especial para Stefánsson, que conseguiu colocar a DeCODE de novo na liderança desse tipo de pesquisa genética após a empresa passar por dificuldades na crise de 2008.
O braço americano da companhia pediu falência em 2009, e jornais noticiaram que a matriz islandesa deixaria de investir na pesquisa de drogas. Stefánsson nega que isso tenha passado por sua cabeça. ''Não faria sentido para mim'', disse.

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