Mudando a gordura de lugar
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domingo, 02 de março de 2014
Michelle Aligleri<br>Reportagem local 
Diminuir o volume da barriga e aumentar o das mamas é o sonho de muitas mulheres que não estão satisfeitas com a silhueta corporal. Se antes os médicos davam uma resposta negativa para quem queria tirar gordura de um lugar e colocar em outro, hoje a história é diferente. Uma técnica possibilita aproveitar a gordura extraída na lipoaspiração e utilizá-la na reconstrução ou aumento de mamas, glúteos ou em cirurgias estéticas para preenchimento facial. Apesar de existir há muitos anos, a lipoenxertia ainda é pouco conhecida entre os brasileiros.
A novidade na lipoenxertia refere-se ao tratamento que se dá à gordura retirada do corpo do paciente antes de fazer o enxerto, segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (CBCP), João Moraes Prado Neto. De acordo com ele, a grande expectativa atualmente está voltada para a descoberta de células tronco no tecido gorduroso. "A medicina está sempre em evolução e há muito para caminhar nesta área", destaca o médico. Ele se refere às últimas pesquisas que apontam que a densidade de células tronco na gordura pura é duas vezes maior do que em outros tecidos corporais. "Injetar gordura não melhora apenas o preenchimento com a reposição volumétrica da região, mas também melhora a textura da pele. Esta mesma gordura já está sendo pesquisada no tratamento de algumas doenças degenerativas", salienta.
Enquanto as pesquisas para outras áreas ainda estão em andamento, o uso mais frequente da lipoenxertia é na cirurgia estética ou reparadora. O cirurgião plástico Antônio Juliano Trufino afirma que a maior parte das brasileiras opta por esta técnica cirúrgica para aumentar as medidas do glúteo. Apesar de atender a um público interessado em melhorar o fator estético, este não era o objetivo inicial da lipoenxertia. Trufino explica que esta técnica foi criada por médicos italianos para fazer a reconstrução das mamas em mulheres vítimas de câncer. "É uma cirurgia simples e pouco invasiva. Utilizamos uma cânula para fazer a retirada da gordura do corpo da paciente, pode ser da barriga, costas, culote ou do glúteo. Esta gordura passa por um procedimento de preparo dentro da própria sala de cirurgia e então é injetada com uma outra cânula no local desejado", explica. Conforme ele, com algumas sessões é possível fazer a reconstrução total da mama da mulher apenas utilizando gordura do próprio organismo, sem a necessidade de colocar prótese de silicone.
Como não há corte, as cicatrizes são mínimas, além disso a gordura usada é parte do corpo da própria paciente, o que elimina a chance de rejeição. Pesquisas realizadas já mostram que o procedimento não aumenta as chances de aparecimento de câncer e não atrapalha na realização de exames como mamografia. Diante dos resultados registrados pelos pesquisadores, iniciou-se o uso desta técnica para fins estéticos e atualmente ela está substituindo o uso do silicone em muitos países. "As mulheres europeias gostam da mama com aparência mais natural e por isso preferem a lipoenxertia à colocação de silicone", aponta o médico.
Segundo ele, na mama a gordura é injetada entre a glândula mamária e o músculo peitoral. "A gordura não altera o formato da mama da mulher, apenas aumenta o tamanho. Ela também não interfere na consistência. Dá formato à mama sem pesar, mas não corrige a flacidez. Geralmente quem busca esta técnica são as mulheres que não querem que as outras pessoas saibam da cirurgia plástica", salienta. Outro benefício apontado pelo médico é a recuperação mais rápida da paciente, que, segundo ele, pode voltar a ter uma vida próxima ao normal dentro de uma semana após o procedimento.
Resultados
De acordo com João Moraes Prado Neto, apesar da cirurgia de mama ser uma das mais comuns, do ponto de vista estético os melhores resultados da lipoenxertia são observados nas pequenas áreas. "Quanto menor a quantidade de gordura e mais vasos sanguíneos existirem na região, maior é a pega e a preservação dos resultados da cirurgia", avalia. Isso significa que a injeção de gordura no "bigode chinês" apresenta um resultado significativamente melhor do que o mesmo procedimento realizado no glúteo. "Na região glútea há menos vascularização, isso significa que a gordura injetada será menos nutrida e que haverá morte do tecido, reabsorção e, consequentemente, redução do volume na região", explica Prado Neto. Para reduzir o efeito da reabsorção, o médico explica que em algumas regiões o volume de gordura injetado é 30% maior do que o volume desejado pela paciente.
Se antes era comum os médicos submeterem uma paciente à lipoaspiração e depois à colocação de uma prótese de silicone, agora a aliança entre estes dois procedimentos pode estar com os dias contados. "Há estudos que comprovam a segurança e a eficácia da lipoenxertia, mas é preciso que o procedimento seja realizado em ambiente hospitalar por médicos qualificados e vinculados à Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica", orienta Prado Neto.
Como é uma técnica relativamente simples, Trufino teme que alguns médicos sem treinamento específico decidam fazer a lipoenxertia em ambiente ambulatorial, o que pode colocar em risco a vida do paciente. "É um procedimento simples mas há um risco de infecção e outras complicações se a técnica não for aplicada adequadamente e se não houver uma equipe treinada e equipamentos adequados para a realização", alerta.
Serviço:
No site da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica - www.cirurgiaplastica.org.br - há a relação de todos os médicos brasileiros vinculados à entidade

