Heloisa Rocha Luz, que aparece com a mãe, contraiu caxumba e ficou dez dias em tratamento, inclusive usando máscara para evitar contágio na família
Heloisa Rocha Luz, que aparece com a mãe, contraiu caxumba e ficou dez dias em tratamento, inclusive usando máscara para evitar contágio na família | Foto: Anderson Coelho



Até o início da primavera, a população passará ainda por 102 dias de clima mais frio e seco. Essa mudança de temperatura reflete diretamente no dia a dia da população. Isso quer dizer que a prática de exercícios físicos tende a ser reduzida, assim como a ingestão de alimentos mais gordurosos tende a aumentar. Também é comum a troca abrupta entre ambientes quentes e frios e a aglomeração de pessoas em locais fechados. Além disso, há uma maior circulação de vírus e bactérias nesta época do ano.

Com todas essas especificidades, médicos afirmam que o inverno é sim uma temporada favorável a algumas doenças, principalmente das vias aéreas. "O aumento ocorre em todos os serviços, público ou privado, por quadros respiratórios", diz a infectologista pediátrica Jaqueline D. Capobianco, do setor de Moléstias Infecciosas do HU (Hospital Universitário) de Londrina.

Segundo a ABORL-CCF (Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial), neste período, o índice de doenças respiratórias aumenta em 40%. "A combinação de ar frio e seco faz com que a mucosa respiratória fique mais sensibilizada, ou seja, provoca uma ação irritativa que agrava as doenças respiratórias", responde o médico alergista Marcello Bossois, da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro.

As doenças podem ser inflamatórias, como a rinite, asma, sinusite alérgica, ou infecciosas, como faringite, otite, pneumonia. "Um paciente alérgico está sempre doente porque sua mucosa está constantemente inflamada e esse processo (inflamatório) cria proteínas chamadas 'carreadoras', que facilitam a penetração de um vírus para dentro do organismo", comenta.

O vírus no organismo favorece a proliferação de bactérias e o paciente, então, pode evoluir para um quadro mais grave. A infectopediatra do HU comenta que nos meses de outono e inverno há uma maior circulação dos vírus sincicial respiratório (VSR), que causam infecções como bronquiolite e pneumonia e o influenza, que causa a gripe.

Mas não são só as vias aéreas que sofrem com o clima. Outras doenças transmitidas por gotículas também têm maior incidência, como é o caso da meningite meningocócica (inflamação das membranas que revestem o cérebro); a varicela (popularmente chamada de catapora), porém mais frequente no final do inverno e início da primavera; e a caxumba (infecção que afeta as glândulas salivares).

Neste primeiro semestre, Londrina notificou três surtos de caxumba, sendo dois ocorridos em março (cinco e sete casos, respectivamente) e um surto no mês de maio (nove casos).

Entre os pacientes está a estudante Heloisa Rocha Luz, 14. O primeiro sintoma que ela sentiu foi o cansaço, seguido de dor na região do ouvido. "Ela mesma disse que poderia ser caxumba porque um colega de sala de aula tinha contraído a doença", conta a mãe Luciana. No dia seguinte, o rosto da menina estava bastante inchado e o médico confirmou o diagnóstico. Ela voltou para casa com a prescrição de remédios para alívio da dor e febre.

Após dez dias de tratamento, uso de máscaras para evitar contágio entre a família, muito repouso, alimentação saudável e atividades escolares em casa, a garota retomou a rotina normalmente.

A mãe conta que a filha estava com todas as vacinas em dia, inclusive a tríplice viral, que confere proteção conta o sarampo, rubéola e caxumba. A
infectopediatra Capobianco explica que existe uma pequena parcela da população que não responde à vacina e, por isso, continua suscetível à doença. "A caxumba vem aumentando nos últimos três anos, com pequenos surtos em todo o País. Mas o fator principal é porque as pessoas não têm o esquema de vacinação completo, que são duas doses", observa.

A especialista cita que são poucos os remédios específicos para os vírus respiratórios, com exceção do influenza. "É por isso que para a caxumba o tratamento é sintomático, com analgésico, antitérmico e repouso, pois não há um antiviral específico", aponta.

NOTIFICAÇÃO
De acordo com Fátima Tomimatsu, da Gerência de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde, em 2016 foram notificados três surtos nos meses de junho (8 casos), agosto (5 casos) e em setembro (7 casos). Ela informa que a notificação dos casos de caxumba não são feitos isoladamente, e sim na ocorrência de surtos (casos que se restringem a uma área geográfica geralmente pequena e bem delimitada ou a uma população institucionalizada como creches, quartéis, escolas, entre outros).

Em relação à varicela, foi notificado um caso no município no mês de janeiro, enquanto que em 2016 foram 16 casos, sendo 13 residentes em Londrina. Tomimatsu comenta que essas ocorrências englobam somente os casos internados ou graves. "Os casos benignos não são passíveis de notificação compulsória."

Confira no vídeo dicas de como se prevenir contra as doenças de inverno:



Cuidados com as crianças após internação
Crianças que precisam de internação em hospitais trazem sempre uma enorme preocupação para os pais. E após esse período surgem outras apreensões quando ela retorna para casa. Como cuidar? O que fazer para que a recuperação seja total? O que evitar para não atrapalhar o fim do tratamento?

"Primeiro é preciso solicitar o resumo da internação, um documento onde constam todas as informações importantes sobre o paciente e que deve ser guardado porque é essencial para a história dele. Ali estarão também as recomendações da equipe de internação para o complemento do tratamento, porque a alta não quer dizer, necessariamente, que o paciente esteja curado, mas, sim, que está melhor e deve continuar a terapia", informa o pediatra Fernando Lyra, membro do Departamento de Cuidados Domiciliares da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

A maioria das crianças que precisam de internação tem até cinco anos, de acordo com o pediatra, e os cuidados variam. "Quando a criança passou por cirurgia, os familiares receberão treinamento para fazer os curativos em casa e também para a utilização de equipamentos. Se for um caso de doença, a informação aos pais será sobre os medicamentos que devem ser ministrados", afirma Lyra.

Também é preciso estar ciente de que a criança pode estar fragilizada fisicamente, portanto será imprescindível restringir visitas que apresentem alguma enfermidade. "Pessoas com problemas respiratórios, febre, resfriado ou qualquer processo infeccioso não devem visitar a criança", adverte o pediatra.

Importante também é saber quando retornar ao médico. "Febre, volta da dor ou dor exacerbada, vermelhidão em torno da ferida e secreção, em caso de cirurgia, são chamados de sinais de alerta e a criança precisa ser examinada por quem a atendeu ou ser encaminhada ao posto médico. Mas evite procurar atendimento em pronto-socorro desnecessariamente", ressalta.


TRISTEZA
E não é só o físico da criança que sofre com uma internação. "Observamos que muitas crianças ficam tristes, não comem, ficam quietas e não querem brincar quando internadas. Após a alta, o paciente pode ter uma rápida recuperação, mas os pais podem ser mais afetados com os problemas de saúde de seus filhos e também apresentar sinais de depressão, principalmente quando a criança esteve internada por doenças graves e necessitou de tratamento em UTI", explica.

Nesses casos, tanto pacientes como familiares devem procurar ajuda especializada, pois os pais passam a ter uma percepção da criança mais frágil do que ela é na realidade, e isso vai comprometer a autoimagem que o pequeno tem dele mesmo.

"É necessário perceber que o período traumático acabou e mostrar para o paciente que ele está de volta ao cotidiano, que o pior já passou. Se possível, a criança deve voltar à escola, à convivência com os amigos e ao lazer", aconselha o médico.

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