Mau uso da fecundação in vitro preocupa
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de junho de 2015
France Presse 
Lisboa - O caso de uma alemã de 65 anos, mãe de 13 filhos e que deu à luz quadrigêmeos no final de maio, preocupa os especialistas em fertilidade, que alertam para uma utilização abusiva das técnicas de fecundação in vitro. Annegret Raunigk deu à luz em Berlim três meninos e uma menina prematuros, que pesaram apenas entre 665 e 960 gramas, depois que a mãe fez uma fecundação in vitro de dois doadores anônimos na Ucrânia. "O problema principal, independentemente da idade da mãe, é a transferência de múltiplos embriões", avaliou o médico Adam Balen, entrevistado em Lisboa durante a conferência da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE, na sigla em inglês).
"As gravidezes de múltiplos são perigosas para a mãe e ainda mais para os bebês", garantiu o presidente da Sociedade Britânica de Fertilidade, explicando também que com as tecnologias atuais e um embrião de qualidade, uma transferência é suficiente.
Entre os muitos riscos estão partos prematuros, baixo peso ao nascer do bebê ou atrasos cognitivos.
"A sociedade pode contribuir com o nascimento de crianças que não terão tão bom começo como outras?", questiona a médica Françoise Shenfield, da University College de Londres, especialista em reprodução humana e bioética. Há alguns anos, vários países tentam reduzir o número de gravidezes múltiplas. É o caso de Reino Unido, Estados Unidos ou França, onde a Agência de Biomedicina estabeleceu certas recomendações.
O NEGÓCIO
"Algumas clínicas fazem publicidade explicando que as pacientes podem viajar e se beneficiar de tratamentos mais baratos. Mas os resultados acabam sendo desastrosos", como o do mês passado. "Com certeza alguém está lucrando muito com isso", alertou. Para o especialista, todos os países deveriam financiar tratamentos de fertilidade para evitar que exista este "negócio". "É o tipo de história escrita pelos grandes titulares dos periódicos e apresentam nossa especialidade para o mundo", lamenta Françoise Shenfield. Segundo ela, é impossível legislar a reprodução assistida no mundo inteiro. Mas a médica participou da redação de um guia de boas condutas para limitar o número de embriões transferidos. Shenfield critica também o papel das agências intermediárias entre os doadores e os receptores de ovócitos, "que ganham muito dinheiro dos pacientes com uma porcentagem do preço da clínica".
Como todas as tecnologias, a reprodução assistida "pode ser utilizada de maneiras boas ou ruins".

