Há cinco anos, após uma cirurgia para implante de um marca-passo, Irene Scarpim descobriu uma nova maneira de viver. Mas ela conta que essa decisão não foi fácil. "Já tinha escutado falar, mas quando é com a gente, vem uma sensação de medo misturado com um monte de dúvidas", diz.
Com uma frequência cardíaca muito baixa, uma rotina comprometida e algumas indicações médicas, a aposentada viu que não poderia mais protelar. "Não conseguia andar muito até dentro de casa porque me sentia mal o tempo todo. Era horrível", lembra.
Com o marca-passo, essa história ganhou outro rumo e a aposentada virou um exemplo de disposição. Aos 77 anos, ela faz caminhadas, cuida sozinha dos afazeres de casa, adora passear e principalmente viajar. "É vida nova. Me sinto muito bem", completa Irene, que faz parte de uma população de aproximadamente 300 mil portadores de marca-passo no Brasil.
A cada ano, esse número aumenta em cerca de 40 mil, no âmbito do Sistema Único de Saúde, convênios e particulares. E por entender que se trata de uma utilidade pública, cardiologistas brasileiros estão "abraçando" ações que buscam difundir as informações a respeito desses aparelhos.
Com 30 anos dedicados à cardiologia em Londrina, Cláudio Fuganti reconhece que apesar de ser algo comum entre os pacientes ainda há muito desconhecimento sobre todos os dispositivos cardíacos eletrônicos implantáveis.
"As pessoas devem saber que a vida hoje com marca-passo é praticamente normal. Você pode exercer uma atividade física, trabalhar, passear, fazer todas as atividades diárias desde que tenha condições de fazer isso, ou seja, que não tenha outras doenças cardíacas", ressalta.
Todas as possibilidades que o marca-passo permite hoje são resultado de uma evolução da medicina. Idealizado no final de década de 1950 para corrigir determinadas doenças do coração que reduzem a frequência dos batimentos cardíacos e produzem sintomas incapacitantes, o dispositivo segue passando por inúmeras transformações tecnológicas.
Se naquela época, ele tinha apenas a função de gerar um estímulo elétrico para o coração, com o passar do tempo precisou se transformar em um dispositivo inteligente. "O marca-passo tinha que perceber os momentos em que o coração voltava a funcionar normalmente porque é frequente ter uma oscilação. A ideia era perceber o batimento do coração e desligar automaticamente. Foi então que surgiu a necessidade de se criar um segundo circuito para sensibilidade", explica Fuganti.
Com o advento do circuito eletrônico, funções como mudar a frequência, por exemplo, foram possíveis de ser reguladas por telemetria, ou seja, através de um aparelho em consultório que "consegue" conversar com o dispositivo.
Agora, as novidades prometem dar ainda mais segurança aos pacientes, pois os fabricantes têm adotado um sistema que possibilita monitorar o marca-passo à distância. "Um celular que é comprado à parte pelo paciente se comunica por satélite com a empresa fabricante e todas as funções do aparelho são verificadas. Se houver alguma alteração, um aviso é emitido para o médico", afirma o cardiologista.
Ainda de acordo com Fuganti, existem aparelhos que são programáveis e dão sinais quando o funcionamento do coração está comprometido. "Ele capta até uma semana antes dos sintomas de piora. Isso abre um leque de funções no aparelho que não existiam antigamente. Evoluímos de um aparelho que só dava choques para estimular o coração, para um multirregular que pode monitorar o paciente à distância", ressalta.

mockup