San Francisco - Houve comoção quando, em 2000, o presidente dos EUA, Bill Clinton, e o primeiro ministro britânico, Tony Blair, anunciaram com cientistas os primeiros resultados do mapeamento do genoma humano. Só quinze anos depois as promessas do genoma começam a ficar palpáveis.
Entre as novidades, estão tratamentos contra o câncer que partem da análise genética dos tumores para que se saiba quais os medicamentos mais adequados.
Por exemplo, pessoas com câncer de pulmão com um rearranjo no gene ALK podem ser tratadas com a droga crizotinib, o que diminui significativamente o crescimento do tumor. No entanto, a droga só funciona com tumores ALK positivos, ou seja, que carregam essa alteração.
De modo mais geral, os pesquisadores estão descobrindo que, para localizar alterações genéticas, o genoma não precisa ser lido "por inteiro". Basta se ater aos pedaços mais informativos.
Trata-se de uma postura cautelosa dos pesquisadores. A expectativa inicial era muito grande, especialmente entre os não cientistas: o mapeamento total do genoma permitiria criar uma relação direta entre genes e doenças.
Não foi bem assim que a coisa se mostrou, no entanto.

BARATEAMENTO
Nesses 15 anos, houve um grande barateamento do sequenciamento.
O projeto genoma humano original, na década de 1990, custou US$ 2,7 bilhões. Hoje, fazer um sequenciamento custa a partir de R$ 10 mil.
Tal mudança permitiu diversificar as pesquisas.
Agora há trabalhos, por exemplo, que tentam identificar a fundo a flora microbiana - é possível inclusive conhecer os hábitos alimentares e a região de origem de uma pessoa assim, e há aplicações do diabetes à obesidade.
Outra aplicação é o que se pode chamar de "peneira genética" para atletas. Olhando alguns marcadores, é possível prever em quais modalidades futuros atletas vão se dar melhor. Esse é um dos projetos ao qual está se dedicando o professor da Unifesp João Bosco Pesquero, por exemplo.
No caso do câncer, o estudo das mutações também facilita o diagnóstico.
Um exemplo foi o de Angelina Jolie, cuja mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 fizeram com que ela decidisse remover as duas mamas preventivamente - era praticamente certo de que ela desenvolveria câncer de mama em algum momento na vida.
Na maior parte das vezes, porém, o que se sabe é que há uma chance poucos pontos percentuais maior do que a média de se ter determinado problema de saúde.
A essa questão a pesquisadora Mayana Zatz se dedicou em seu livro "Genética - Escolha que Nossos Avós Não Faziam" (editora Globo). De que adianta saber que há uma chance grande (ou minúscula) de desenvolver uma doença se não há o que fazer para preveni-la ou curá-la?
Há ainda várias outras áreas com resultados interessantes além da genômica.
Uma delas é a proteômica, ou seja, o estudo das proteínas, que são produto da expressão gênica. Há ainda a transcriptômica, que estuda o RNA, e a conectômica, que tenta decifrar como neurônios se comunicam.
Se tudo der certo, em algumas décadas teremos a chance de ter um arsenal de recursos farmacológicos eficazes e baratos contra boa parte das doenças crônicas, como azlheimer e hipertensão. Mas, como se vê, expectativas às vezes são frustradas.

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