Mais atenção ao coração feminino
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domingo, 02 de março de 2014
Michelle Aligleri<br>Reportagem Local 
As visitas das mulheres ao médico muitas vezes se resumem ao ginecologista. O que muitas desconhecem, no entanto, é que os problemas do coração são o grande vilão da saúde feminina. Pesquisas estimam que a mulher morra de quatro a seis vezes mais de causa cardíaca do que de câncer de colo de útero. Negligenciadas, as doenças cardiovasculares são responsáveis por 1/3 das mortes de mulheres no Brasil e no mundo, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).
A questão hormonal relacionada à menopausa e a utilização de pílulas anticoncepcionais coloca a mulher mais perto dos problemas cardiovasculares. Aliado a estes fatores está o fato das mulheres estarem mais expostas ao tabagismo
e ao estresse nas últimas décadas por conta da mudança do papel delas na sociedade.
O médico cardiologista Carlos Costa Magalhães, diretor de Promoção em Saúde Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) explica que há ainda uma característica anatômica que prejudica as mulheres. "Pelas características típicas de altura e peso, geralmente o calibre das artérias coronárias da mulher é menor se comparado às artérias dos homens. Com estruturas mais estreitas, a deposição de placas de gordura no interior das artérias apresenta maior risco de entupimento e consequentemente de infarto", explica.
As mulheres em idade fértil, porém, têm a seu favor o estrógeno (hormônio feminino), que protege a parede arterial, fazendo com que os índices de doença aterosclerótica entre elas sejam reduzidos. "A situação se inverte quando a mulher entra na menopausa. Nesta fase ela deixa de produzir o hormônio e se torna tão vulnerável aos problemas cardiovasculares quanto os homens", complementa Magalhães.
Sintomas diferenciados
Uma peculiaridade das mulheres é o fato delas muitas vezes valorizarem os aspectos de saúde do companheiro e dos filhos e não reconhecerem os sinais emitidos pelo próprio corpo. "Dores no peito irradiadas para o pescoço, mandíbula, ombros ou braço esquerdo podem ser sinais de problemas cardiológicos. No entanto, estes sintomas clássicos de infarto são mais frequentes entre os homens do que entre as mulheres", salienta Magalhães.
Pesquisas divulgadas pela Associação Médica Americana apontam que mulheres com 45 anos tem 30% mais risco do que os homens da mesma idade de terem um infarto sem dores no peito. Por conta disso, a mortalidade nas mulheres com idade entre 45 e 55 anos por infarto é duas vezes maior do que entre os homens. Conforme o diretor da SBC, para elas os sintomas mais comuns são dores no estômago, na barriga e falta de ar. Essas características diferentes fazem com que o infarto nas mulheres seja comumente confundido com problemas relacionados à digestão, menopausa ou ao estresse.
Consultas periódicas
O risco de doenças cardiovasculares pode ser controlado com alimentação balanceada, manutenção do peso e uma vida fisicamente ativa e longe do tabagismo. O médico ressalta que apenas dois fatores de risco não podem ser controlados: a idade e a história genética de cada família. Por este motivo, os indivíduos com predisposição aos problemas do coração devem fazer acompanhamento médico periódico.
A partir dos 35 anos recomenda-se que todos os homens e mulheres que não apresentam fatores de risco para doenças cardiológicas façam uma consulta com o cardiologista anualmente - as pessoas que possuem fatores de risco não devem esperar esta idade. No entanto, Magalhães reconhece que nem todas as pessoas têm acesso ao cardiologista. "No caso das mulheres, o próprio ginecologista na consulta de rotina pode medir a pressão arterial, solicitar a dosagem do colesterol no exame de sangue e avaliar o risco de doenças cardiovasculares com base no histórico familiar. Aquelas pacientes que apresentarem alterações devem ser encaminhadas ao cardiologista para uma investigação do quadro", salienta.

