Amanhece. Olhar no teto. Rosto sem forma no consciente, no inconsciente. Se espreguiça. O rosto disforme continua a perturbá-lo. Certamente imagem produzida em sono. (É... certamente, certamente... não é).
Como ele acordou, como raramente se lembra do conteúdo dos sonhos, como o que se lembra é um vulto remoto ... Ele suspeita que sim, depois suspeita que não. ''Mas se não for sonho é o quê?''
Um semblante, rapaz. Mas como diabos ele é, hein!? Tem olhos, tem sombrancelhas, tem nariz, tem bochecha, tem boca, tem testa, tem... ''A partir daí, começa a complicar'', pensa ele. Avalia, insiste na reflexão, dispara contra si: ''Grande coisa! Estaca zero. Estou na estaca zero''. Uma força inercial o arranca da cama. Pés no chão para garantir seu sustento. Três passos, a janela. O vento fresco no rosto, o 18º andar. Novamente Londrina se esparrama e se comprime entre os prédios. Paisagem-clichê que normalmente resulta em sossego.
É, mas este não é um dia como os outros. Sua fixação é contínua como a água que sai da torneira da pia. Dentes escovados, a imagem sem definição dá sinais de que não vai se apagar assim tão fácil.
Até esquece de adoçar o café. Não sente o amargo, não ouve o programa policial no rádio, não consegue calcular o quanto restou da aposentadoria na conta bancária.
No espelho, vê expressão contraída. Sua própria fisionomia atrapalha a solução do enigma. Grisalhos, rugas, inimigos que impregnaram em seu corpo. Inconformismo, desconcentração. ''Um rosto, uma cara, uma maldita fuça'', irrita-se.
Nem feminino, nem masculino, nem feio, nem bonito, nem louro, nem moreno, nem glabro, nem barbudo, nem macio, nem rude, nem novo, nem velho. Começa a desconfiar: talvez seja um mix, um grande apanhado de fisionomias que o marcou em seus 69 anos de vida.
É seu aniversário. Descobre quando assina o primeiro cheque do dia, um pré-datado a perder de vista. Lhe parece uma pista. A primeira, enfim. Talvez não seja propriamente um rosto e talvez não seja nem mesmo uma imagem. Talvez seja uma idéia que seu subconsciente personificou.
Quando lê o jornal, à espera do barbeiro, outra pista, quem sabe a definitiva. A cidade que escolheu para viver há meio século está soprando velinhas, aliás a mesma infinidade de velinhas. (''Tão distraído com datas! Que cabeça é essa! Faz desaparecer apreço por ele, apreço pela cidade!). A conexão entre sua fixação e o fato estampado na primeira página faz sentido. Será?
Ele senta-se na praça. Não quer jogar damas. Objetivo único: mergulhar no plano mais profundo de seu pensamento, resgatar esta imagem, aplacar esta angústia, entender o turbilhão mental que o assolou.
O esforço surte efeito. O velho rosto sorri. Começa um doce transe. Qual um projetor, sua mente amplia fotogramas. Na tela imaginária, retratos. Retratos em close, na verdade. Rostos que ele viu um dia, de alguma maneira marcantes, porém, apenas rostos, sem nome ou personalidade conhecidos. Rostos que passaram em sua vida e que hoje ele milagrosamente recuperou. O álbum de expressões é identificado como um banco visual, a história inconsciente de seu habitat.
O milagre vai se materializando no sol da manhã. A praça vai se enchendo de corpos inteiros e frenéticos enquanto os fotogramas com os retratos em close aceleram à sua frente. Bebê com catapora, vendedora do shopping, senhor com chapéu panamá, garoto com as faces sujas de terra vermelha, adolescente com aparelho, idosa lacrimejando apenas no olho esquerdo, sorriso embriagado da meretriz. Passa mais e mais gente em sua praça particular e ele vai se lembrando o que cada um significa.
A pós-adolescente marota apeando do ônibus de Jacarezinho enquanto ele embarcava para Curitiba. ''A rodoviária fervia e eu a perdi de vista. Meu coração apertou'', pensa em seu monólogo sem som.
Menininha loura que saiu chorando do colo do Papai Noel do shopping e procura o pai e a mãe. Desespero de minutos. Quando ele pensa em ajudar, comovido com a cena, aparece o irmão mais velho. ''Aquele olhar triste, de desencanto, me remeteu a tudo que deveria ter feito pelos outros e não fiz. Devia ter dado um sorriso para acalmá-la, mas me resignei e depois me arrependi''.
Caminhonete atolada na Rua Mato Grosso dos tempos românticos. Um homem com aspecto de nordestino, sai do bar, enfrenta a chuva sem galocha para ajudá-lo a instalar a corrente. Ninguém mais tem coragem. Cai tanta água que fica difícil de conversar, mas a linguagem da solidariedade triunfa. A caminhonete desatola depois de enlamear completamente o voluntário. ''Ele voltou correndo para o bar. Também estava com muita pressa. Seria o muito obrigado mais justo da minha vida''.
Briga feia de namorados na Santos Dumont. O carrão onde está o casal pára. Irado, o rapaz abre o porta-malas e joga os dois grandes volumes para fora. Xinga como se tivesse muitos motivos para fazê-lo. Ela sai, tenta argumentar. Em vão. O carro acelera sob no canteiro e toma o sentido do centro. Ela desaba em choro e revolta. ''Desta vez, entro na hora certa na história. Ofereço meus braços para levar a bagagem. Para o aeroporto, mais uns 250 metros''. A moça ruiva e sardenta diz que nunca mais volta para Londrina. ''Ela dizia que gostava demais daqui, mas que a cidade só lhe reservava desgosto''. Ela aceita a ajuda mas não dá bola para nada ao seu redor nem para alguém capaz de tão comovente préstimo. ''Parecia uma filhinha de papel. Dizia que ia para São Paulo. De São Paulo para Paris. Mas não respondia minhas perguntas. Pelo menos fiz minha parte''.
Avenida Leste-Oeste. Desfile de carnaval. ''Fui convidado como se fosse da velha guarda do samba. Na platéia, um universitário branco, boné de Odontologia da UEL, camisa do Che Guevara tinha uma latinha na mão e um berro por segundo na garganta. Tentava chamar a atenção de uma tal Januária, a mulata mais vistosa da escola''. O ânimo foi dando lugar à irritação, a medida em que a tal Januária não se manifestava. ''Na paradinha da bateria, o grito dela''. O mais sonoro ''Vai pro inferno!'' que ele já ouviu.
Os rostos seguem e ele percebe que cada canto da cidade pode comovê-lo. É só resgatar na memória. É só o milagre ir além de um transe de uma manhã de dezembro. Mas ele aproveita, o milagre continua em andamento. Quem passa na Rocha Pombo estranha a figura imóvel. Ele permanece cego no presente, atento no passado.
Calçadão, final de ano gordo. Ele esbarra fortemente em um homem de traços orientais cheio de sacolas. A colisão gera um desastre. Tombos patéticos. Pacotes por todos os lados. ''Passei a ajudá-lo. Ele resmungando. Continuei agachado apanhando os volumes. O japonês reclamando. Quando já me preparava para pedir desculpas, a surpresa''. O homem amolece com a gentileza e solta uma frase de pura amargura. ''A maioria destes pacotes vai para quem só me faz sofrer. Este acidente faz parte da maldição''. O japonês oferece um dos pacotes a do ''irmão traidor'' como forma de retribuição. ''Recusei mesmo diante de muita insistência. Segui meus passos rápidos pensando quem mereceria de fato os presentes que iria comprar''.
Estádio do Café superlotado. Tubarão grande como nunca mais. O time dos forasteiros na frente. Ele do lado de um ''chapéu atolado''. Os olhos do cidadão brilhavam, apesar do aperto, de ter que assistir o duelo na ponta dos pés. O ''chapéu atolado'' vidrado com o outro time. Mania de dedilhar o bigode. Um sorriso quando o ataque do Tubarão perde mais um gol. ''Pensei: é a primeira vez dele em um estádio''. Quando o time dos forasteiros começa a passar cada vez mais apuros, o senhor tira o chapéu e coça a cabeça. ''Passei a provocá-lo dizendo que o gol estava para sair''. Batata! Bola centrada, cabeceio certeiro. O concreto vibra com a catarse coletiva. Festa colorida e barulhenta. Emoção de uma cidade inteira. O ''chapéu atolado'' não tem coragem de lamentar. Sorri com os olhos marejados. ''Esta alegria é nossa mas é do senhor também ''. Depois do recado, deixo o lugar. Vou comprar cerveja.

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