O Paraná foi escolhido pelo Ministério da Saúde para integrar um projeto-piloto de migração da insulina humana (NPH), no âmbito da Atenção Primária do SUS (Sistema Único de Saúde), para a insulina análoga de ação prolongada, a glargina. O Estado recebeu 16.828 unidades de canetas reutilizáveis do segundo tipo, distribuídas proporcionalmente entre as 22 regionais de Saúde. Londrina foi contemplada com 920 unidades, retiradas pela Secretaria Municipal de Saúde na quinta-feira (26) passada. O abastecimento nas UBSs (Unidades Básicas de Saúde) começa nesta semana.

A glargina é um análogo de aplicação única no dia, desenvolvido para fornecer níveis mais constantes de insulina ao longo de aproximadamente 24 horas, sem picos significativos. Isso contribui para maior segurança e menor risco de hipoglicemia quando comparada à insulina NPH, facilitando a manutenção dos níveis de glicose.

Ampliação do acesso

Para portadores de diabetes tipo 1, a glargina já está disponível via CEAF (Componente Especializado da Assistência Farmacêutica) do Ministério da Saúde, estratégia que facilita o acesso de usuários do SUS, em nível ambulatorial, a medicamentos. Agora, o Paraná está implementando um projeto-piloto para a inclusão da oferta no CBAF (Componente Básico da Assistência Farmacêutica), sendo que as pessoas em transição devem ser acompanhadas no âmbito da Atenção Primária à Saúde.

A substituição gradual amplia as opções terapêuticas para o tratamento, na rede pública de saúde, de pacientes que vivem com diabetes mellitus, também contemplando novos diagnósticos conforme indicação e prescrição médica. O público atendido nesta fase inclui idosos com 80 anos ou mais (diabetes tipo 1 e 2) e crianças e adolescentes entre dois e 17 anos (diabetes tipo 1). A priorização fundamenta-se na maior vulnerabilidade clínica destes grupos.

No projeto-piloto, a aplicação da insulina glargina será feita por meio de canetas reutilizáveis, promovendo menor impacto ambiental
No projeto-piloto, a aplicação da insulina glargina será feita por meio de canetas reutilizáveis, promovendo menor impacto ambiental | Foto: SESA

Seleção para a 1ª fase

Paranaenses que se encaixam nos critérios, acompanhados de portadores do Amapá, Distrito Federal e Paraíba, vão participar da etapa de avaliação, totalizando mais de 50 mil pessoas. Nos próximos meses, serão atestadas dificuldades logísticas e operacionais para a futura ampliação da estratégia nos demais estados.

A seleção dos territórios estimou a capacidade de implementação e critérios de representatividade regional, permitindo a avaliação de diferentes realidades nacionais. Especificamente sobre o Paraná, Priscilla Marys Limberger, coordenadora-geral do CEAF, salientou que a escolha se deu pela sua organização e experiência prévia com tecnologias semelhantes, visto que “o Paraná é um local estruturado que nos permite observar os principais desafios que serão enfrentados no restante do Brasil”.

Beto Preto, secretário de Estado da Saúde, garantiu que a pasta trabalha para que a “nova tecnologia chegue na ponta e transforme o cotidiano de quem mais precisa”, pontuando que o Paraná se consolidou “como referência nacional em gestão e assistência mais uma vez”.

Em Londrina

Das 16.828 canetas reutilizáveis de insulina glargina recebidas pelo Estado, a 17ª Regional de Saúde de Londrina, que abrange 21 municípios, foi contemplada com 1.421 unidades. A distribuição entre as regionais foi proporcional.

A insulina glargina garante maior controle glicêmico e qualidade de vida aos diabéticos usuários do medicamento
A insulina glargina garante maior controle glicêmico e qualidade de vida aos diabéticos usuários do medicamento | Foto: SESA

A Secretaria Municipal de Saúde de Londrina retirou as 920 canetas destinadas a ela na quinta (26), sendo que o abastecimento a todas as UBSs do município irá começar já nesta semana.

A pasta ressaltou que o insumo é um medicamento de alto custo e vai ser entregue nominalmente, sem estoques nas unidades em um primeiro momento. Salientou ainda que a transição terapêutica dos portadores que se encaixam nos critérios de elegibilidade será gradual. “A migração dos pacientes depende da prescrição médica atualizada, ou seja, se o paciente usa a insulina normal, para ter acesso à insulina glargina, será preciso uma atualização da receita”.

Produção 100% nacional para abastecer o SUS

A expansão do uso da insulina glargina no SUS é uma resposta ao cenário de escassez na produção dos tipos NPH e regular, observado globalmente desde 2023. Assinado em outubro do ano passado, um acordo envolvendo a empresa brasileira de biotecnologia Biomm, a chinesa Gan & Lee e o laboratório público Bio-Manguinhos, da Fiocruz, estabeleceu a transferência da tecnologia da farmacêutica internacional ao Brasil. Desta forma, o produto passará a ser 100% nacional gradualmente, reduzindo a dependência externa e custos logísticos.

Em 2025, por meio desta parceria, foram entregues mais de 6 milhões de unidades da insulina glargina, com investimento de R$ 131 milhões. A previsão é chegar ao final deste ano com capacidade de produção de até 36 milhões de tubetes para o abastecimento do SUS. Já ao final do projeto, em até dez anos, a manufatura poderá atingir 70 milhões de unidades anuais.

Andre Vianna, endocrinologista e vice-presidente da SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes), explicou que a carência mundial das insulinas humanas tradicionais é causada por múltiplos fatores. Citou as mudanças na cadeia de produção global, redução do interesse comercial na fabricação - devido à migração para análogos mais modernos -, a concentração da produção em poucos fabricantes mundiais e impactos logísticos decorrentes da pandemia de Covid-19 e de tensões econômicas internacionais.

Além disso, “houve aumento da demanda em alguns países de baixa e média renda, o que contribuiu para desequilíbrios de oferta. Esse cenário reforça a importância de políticas de produção nacional e diversificação de fornecedores para garantir segurança no abastecimento”.

O que muda em cada insulina

Entre as insulinas humanas, estão a NPH e regular. A primeira possui ação intermediária, com início do efeito em algumas horas e pico pronunciado, o que aumenta o risco de hipoglicemia. Já a regular age rapidamente, sendo utilizada, principalmente, antes das refeições. Ela tem início mais lento quando comparada aos análogos rápidos modernos.

Vianna pontuou que a glargina tende a ser mais benéfica para pessoas que apresentam episódios frequentes de hipoglicemia, especialmente durante a noite, e idosos e pacientes com maior vulnerabilidade clínica. Também é melhor aproveitada pelo público-alvo do projeto-piloto em que o Paraná está inserido, sendo crianças e adolescentes com diabetes tipo 1, além de portadores do tipo 2 que não conseguem atingir metas de controle com a insulina NPH. As vantagens ocorrem porque “a glargina tem uma ação mais estável ao longo do dia, sem picos pronunciados, o que reduz oscilações glicêmicas e o risco de quedas perigosas da glicose”, relatou o endocrinologista.

Na prática, a principal mudança aos diabéticos que fizerem a migração do insumo é uma maior estabilidade do controle glicêmico e mais comodidade, visto que a glargina permite uma aplicação diária, enquanto a NPH exige duas por dia, frequentemente.

Vianna informou que a SBD enxerga o projeto nacional de forma positiva, almejando que “a incorporação ocorra de maneira organizada, com critérios clínicos bem definidos, garantia de fornecimento contínuo e adequada capacitação das equipes de saúde". Também considerou fundamental que os pacientes recebam as devidas orientações para o uso correto da nova insulina.

A entidade disponibiliza um guia para o uso das canetas reutilizáveis empregadas na aplicação do medicamento, que oferecem menor impacto ambiental e maior precisão na dosagem, com validade de três anos após o primeiro uso.

(Com AEN)

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