Licença-paternidade maior reduz uso de remédios por mães
Pesquisa com mulheres da Suécia mostra os efeitos benéficos da política que permite aos pais tirar até 30 dias alternados para estar com suas companheiras
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de julho de 2019
Pesquisa com mulheres da Suécia mostra os efeitos benéficos da política que permite aos pais tirar até 30 dias alternados para estar com suas companheiras
João Perassolo - Folhapress 

Flexibilidade na lei deu ao casal a chance de escolher em quais momentos o pai deve ficar em casa
São Paulo - A Suécia oferece 16 meses pagos de licença-maternidade, mas os Estados Unidos não permitem um dia sequer. O país nórdico também possibilita que pais tirem até 30 dias não consecutivos longe do trabalho para ficarem com a mãe na recuperação após o parto. Já a segunda economia do mundo assiste a um aumento gradual na taxa de mortalidade materna.
As duas nações ricas exemplificam algumas das melhores e das piores políticas de governo em relação à licença parental, contraste que vem à tona com um novo estudo de duas pesquisadoras da Universidade Stanford (EUA). "Quando os Pais Podem Ficar em Casa" mostra os efeitos benéficos para a saúde de uma mulher que acaba de dar à luz da política sueca que permite aos pais tirar até 30 dias alternados para estarem com suas companheiras no primeiro ano de um filho.
A pesquisa constatou que, depois que a medida entrou em vigor, em janeiro de 2012, a probabilidade de ansiolíticos serem receitados nos seis meses após o parto caiu 26%, e a de antibióticos, 11%. Além disso, houve queda de 14% em internações hospitalares ou visitas a especialistas para tratar de complicações relacionadas ao nascimento. O estudo se baseou em registros de nascimento e dados de licença-maternidade e de saúde do governo.
Antes da emenda na lei que permitiu os "dias duplos", como é conhecida a legislação no país, os pais tinham direito a apenas dez dias corridos com a mãe nos primeiros três meses de vida do bebê. A flexibilidade introduzida deu ao casal a chance de escolher em quais momentos o pai deve ficar em casa. "Na média, os pais não estão tirando os 30 dias permitidos, mas ao que parece esses dias são os que mais importam", diz a pesquisadora Maya Rossin-Slater.
A pesquisa também chama a atenção para o caso dos Estados Unidos, único país rico do mundo onde a mortalidade materna está aumentando nas últimas décadas. Segundo estudo da Universidade de Washington, em 1990 morriam 17 mulheres por problemas decorrentes da gestação a cada 100 mil grávidas. Em 2015, o número pulou para 26 - mais de seis vezes a taxa da Suécia, que é de quatro. A maioria dos óbitos, contudo, não se dá na hora do parto, e sim nas semanas anteriores ou posteriores.
Os números alarmantes são resultados de uma legislação restritiva quanto à licença parental, por um lado, e da falta de suporte às mães no pós-parto, por outro. Nos EUA, a licença-maternidade paga não está prevista pela Constituição, e mães podem se ausentar do trabalho por só 12 semanas. E ainda há um (grande) porém: o benefício só vale para mulheres que trabalhem há pelo menos um ano em empresas com mais de 50 funcionários. Pais não têm direito à licença. Há exceções em oito estados americanos, como Nova York, Washington e Califórnia, onde é possível tirar licenças pagas, mas sem ultrapassar as 12 semanas.
Já na Espanha, até 2021 as licenças maternidade e paternidade serão equiparadas para 16 semanas. Em 2007, a licença-paternidade já havia aumentado para duas semanas. O efeito são pais mais atuantes e envolvidos na rotina familiar mesmo após o retorno ao trabalho, segundo estudo publicado na Revista de Economia Pública.
Neel Shah, estudioso de segurança na gravidez da Universidade de Harvard, escreveu em seu blog que a recuperação da gravidez e o ajuste à maternidade são transições que marcam um dos testes fisiológicos mais difíceis da vida de uma mulher. Mãe e filho são deixados sozinhos por várias semanas após saírem do hospital, diz. Nesse período, a mãe sente preocupação profunda com o filho, passa por privação extrema de sono, ganha novas responsabilidades e sente pressão social e financeira para voltar ao trabalho. O cenário pode dificultar que mulheres reconheçam problemas que podem ser sérios, como "sangramentos anormais e desesperança com o futuro", afirma Shah.
Rossin-Slater concorda sobre a necessidade de apoio às mães no período pós-parto: "Um componente-chave é ter a flexibilidade para que o pai possa dar suporte à mãe e a criança."

