Leucemia: novos métodos menos invasivos são alternativa no tratamento


Guilherme Marconi - Grupo Folha
Guilherme Marconi - Grupo Folha

Leucemia: novos métodos menos invasivos são alternativa no tratamento
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São Paulo - Foi notícia em todo o país a história de um homem de 64 anos com um câncer terminal que terá alta após terapia genética pioneira com um método 100% nacional por meio de terapia celular. O tratamento foi desenvolvido pelo Hemocentro ligado ao Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (SP). Os médicos apontam que o paciente está "virtualmente" livre da doença, mas não falam em cura porque os exames indicam remissão do câncer até o período de acompanhamento da doença por cinco anos. 


A pesquisa trouxe uma oportunidade de vida para Vamberto Castro que era tratado apenas com métodos paliativos e morfina para dor.  Apesar da gravidade da doença, os avanços da ciência apontam que a esperança de uma melhora não depende apenas de milagres. 




Casos públicos revelam que a medicina caminha para tratamentos mais específicos, menos invasivos e alternativos à quimioterapia. Castro tinha um linfoma, que está entre os três principais tipos de câncer no sangue - outros são a leucemia e o mieloma. A imunoterapia (tratamento biológico que tem o objetivo de potencializar o sistema imunológico) e a terapia alvo (medicamentos específicos com substâncias que atacam o crescimento e disseminação das células cancerígenas ) são considerados o futuro do tratamento do câncer no sangue. É o que afirma o médico Otávio Baiocchi, chefe do Departamento de Oncologia Clínica da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). "Esses dois métodos terão um peso maior no tratamento de vários tipos de câncer. Isso porque são mais específicos e causam menos efeitos colaterais, quando comparado à quimioterapia." 


Um dos tratamentos apontados pelo professor com terapia alvo é uma nova droga chamada Venetoclax, específica para tratamento de leucemia e desenvolvida por pesquisadores da biofarmacêutica Abbvie. Segundo Baiocchi, o medicamento tem objetivo de restaurar a linha da morte celular; ou seja, ele retira o bloqueio da célula cancerígena.  "É uma droga que 'solta as rédeas' para matar a célula cancerígena."


A leucemia é um câncer, isto é, uma proliferação de células no sangue. Trata-se de uma doença maligna dos glóbulos brancos. A principal característica é o acúmulo de células doentes na medula óssea que substituem as células sanguíneas normais.  Por ser mais específico, o medicamento age de forma diferente da quimioterapia, que é de alta toxicidade. O medicamento via oral tem o objetivo de reativar o processo natural da morte celular ao inibir uma proteína chamada BCL-2. 


A nova abordagem terapêutica com duração fixa é principalmente indicada para pessoas acima de 60 anos quando o tratamentos quimioterápicos podem não ser tolerados. As duas leucemias mais frequentes em adultos são a LMA (Leucemia Mieloide Aguda) e a LLC (Leucemia Mileide Crônica). Juntas,  representam 66% dos 12 tipos existentes e ambas são prevalentes em idosos. A leucemia pode ser aguda ou crônica, tudo depende da progressão: a aguda é de mais rápido crescimento e a crônica de crescimento mais lento. 


LIBERAÇÃO 

A nova droga foi aprovada para comercialização pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para tratamento para LMA em fevereiro deste ano em combinação com outros agentes, para pacientes que não tem indicação para quimioterapia. Já em março, foi aprovada para LLC em combinações com outras terapias para pacientes não elegíveis para quimioterapia. Neste caso o tratamento com o medicamento oral tem duração fixa de 24 meses. "Eu acredito que em no máximo cinco anos esse medicamento será utilizado como primeira opção no tratamento da LLC", afirma Baiocchi. 


A desvantagem é que apesar de liberado pela Anvisa e estar sendo usado para pacientes da saúde suplementar, o Venetoclax ainda não está no rol de tratamento da rede pública pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Para Baiocchi é apenas uma questão de tempo. "Ainda tem campo para negociação e estes medicamentos tendem a abaixar. Diminuir o custo e aumentar o acesso."


O médico defende que esses métodos  podem minimizar os efeitos da quimioterapia, ou servir até de segunda opção para quem não respondeu ao tratamento protocolar. "Eu costumo contar aos meus alunos que a quimioterapia é um trator usado para limpar a terra para o plantio de soja". Ou seja, mata células boas e ruins. Entretanto, a quimio faz o seu papel de limpar a medula óssea e trazer células boas e já ajudou muita gente até hoje apesar dos efeitos colaterais conhecidos como queda de cabelo e infecções maiores." 


 Por outro lado, a nova droga pode ter efeitos colaterais amenos como enjoos, fadiga e diarreia. "Os estudos mostram que poucos pacientes precisaram parar o tratamento por conta disso. E são situações mais fáceis de manusear pelo médico. " explicou. 


EM LONDRINA 

No Hospital do Câncer de Londrina, por exemplo, a nova droga já está sendo usada para pacientes de planos de saúde. Como manda o protocolo, o Venetoclax é usado para aqueles que falharam na quimioterapia. Entretanto, a liberação só tem sido feita após o paciente entrar com medida judicial, segundo informou a médica hematologista, Suelen Stallbaum do Centro de Oncologia e Radioterapia de Londrina. "A resposta é muito boa. Ele contém um mecanismo mais elaborado ao estimular o sistema imune e com menos efeitos colateral. explica a médica, que atende também no hospital. 


Em Londrina, o medicamento começou a ser testado no tipo de leucemia mais grave, a LMA. Entretanto, nos casos do LLC os resultados começam a aparecer mais rapidamente. "Hoje a LLC não existe cura, nós falamos em controle da doença. Mas nos congressos dá área e a ciência apontam que existe uma perspectiva de a LLC ter cura num futuro próximo. Isto é, com uso de medicamento combinado com imunoterapias", revela Stallbaum.


Dados do Inca (Instituto Nacional do Câncer), mostram que a chance de cura da LMA é de 30% a 40% para pessoas com menos de 60 anos e de  menos de 15% para idosos. Já a LLC ainda não há cura, e o protocolo indica a remissão do paciente de câncer, quando não há mais perigo iminente. 




Fique atento aos sinais

O alto investimento em pesquisa para tratamento de leucemia não substitui a busca por informação e os cuidados pessoais. É preciso sempre ficar atento aos sinais. Febre, suor noturno, nódulos inchados, infecções frequentes, pele seca e perda de peso estão entre as principais alterações podem ser observadas pelo próprio paciente ou familiar.


Entretanto, o diagnóstico só pode ser confirmado em análises sanguíneas. "40% a 50% desses pacientes não apresentam sinais e são diagnosticados em exame de rotina", diz o médico Otávio Baiocchi, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).  Segundo ele, pelo exame de sangue um médico clínico geral ou um ginecologista, por exemplo, percebe alterações no número de glóbulos brancos e encaminha o paciente para análise mais aprofundada de um hematologista.  "Os exames de rotina, como um check-up anual são primordiais", acrescenta.


Leucemia: novos métodos menos invasivos são alternativa no tratamento
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Segundo o professor da Unifesp, alguns fatores têm aumentado o número de casos de leucemia em adultos. O envelhecimento geral da população e a  grande parcela de pessoas imunodeprimidas (transplantados e portadores do HIV positivo não tratados, por exemplo), que são mais suscetíveis à doença. Além disso, investimento em tecnologia com surgimento de novos exames tem ajudado no diagnóstico precoce.   




O jornalista viajou a convite da Abbvie





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