Injeção de microbolhas é eficaz contra infarto, diz pesquisa
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domingo, 05 de junho de 2016
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Imagine este cenário: um paciente chega ao hospital com fortes dores no peito e os exames preliminares confirmam um infarto agudo do miocárdio. Rapidamente, os médicos lhe aplicam uma injeção no braço que ajudará a desobstruir o coágulo na artéria, dando mais tempo para que ele se prepare para o tratamento específico, como em muitos casos, a angioplastia.
Apesar de ser uma visão de futuro, médicos do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), estão apostando justamente nesta técnica.
Ainda no campo da pesquisa, segundo o cardiologista e diretor da Unidade de Ecocardiografia do Incor, Wilson Mathias Júnior, a terapia é inédita e se baseia em uma injeção de microbolhas formadas de uma cápsula lipídica e gás de alto peso molecular.
Menores que uma hemácia, as microbolhas, quando aplicadas, "passeiam" pelo sangue por cinco minutos até atingir o coração e o local do coágulo. Em seguida, elas serão "agitadas" por um aparelho de ultrassom, colocado no peito do paciente.
"As bolinhas fazem o mesmo caminho das células vermelhas no sangue. E, quando são expostas a um pulso de ultrassom, vibram e colapsam. O efeito é a abertura de pequenos buracos no coágulo. O restante das microbolhas invade os orifícios e, dez segundos depois, aplicamos novamente a onda sonora para que expludam. Funciona como uma dinamite que vai liberando a passagem", explica Mathias Júnior. Ele, que é coordenador-chefe da pesquisa, comenta que a experiência tem demonstrado que, entre 5 e 15 minutos, a terapia foi capaz de abrir 60% das artérias dos pacientes participantes, sendo que, no grupo, de cada dez pacientes, somente um chegou na hemodinâmica com a artéria já aberta espontaneamente. "Uma vez aberta a coronária, a angioplastia poderá ser feita dias depois", completa.
O estudo, que é feito em parceria com a Universidade de Nebraska (EUA), já avaliou 42 pacientes que deram entrada no Incor, mas a publicação deverá chegar a cem atendimentos. Cada paciente, que busca atendimento no hospital, é convidado a participar, ao mesmo tempo em que familiares assinam um termo de consentimento. "Nós não podemos atrasar o procedimento de eleição padrão que é a angioplastia. Então, estamos trabalhando com uma janela muito curta de tempo para fazer essa terapia, a fim de adiantar a abertura da coronária e provar o conceito de que a técnica funciona", justifica.
O estudo foi publicado na semana passada no Journal of the American College of Cardiology, uma importante revista científica da área.
BENEFÍCIOS
O cardiologista intervencionista Ederlon Nogueira, que atua no Hospital do Coração de Londrina, avalia a terapia como interessante, preliminarmente. "Pois é um produto inócuo, com material já conhecido e que é absorvido pelo organismo. Se esta técnica se estabelecer com protocolos bem definidos e com segurança comprovada em um grupo maior de pacientes, é completamente viável", sustenta.
Mathias Júnior ainda reforça que a injeção de microbolhas não tem apresentado efeitos colaterais como a terapia semelhante utilizada fibrinólise - que dissolve o coágulo com eficácia, mas apresenta alto risco de eventos hemorrágicos. "Com a injeção de microbolhas, o máximo que vi até hoje foi uma alergia cutânea, mesmo assim, rara", diz.
Além disso, ele cita que as terapias atuais para o infarto têm o alvo de tratar o coágulo que está na placa de gordura, obstruindo a coronária principal. "Mas, distalmente, em toda a árvore coronariana o sangue vai se coagulando e, nesta técnica, como as bolhas vão penetrando e atingindo todo o miocárdio, elas têm a capacidade de tratar a microcirculação que também está nessa condição de infarto", afirma.


