IA já ajuda a escolher embriões em fertilização
Pesquisa internacional mostra que pequenas alterações nas imagens podem mudar a avaliação feita por sistemas de inteligência artificial
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de março de 2026
Pesquisa internacional mostra que pequenas alterações nas imagens podem mudar a avaliação feita por sistemas de inteligência artificial

A inteligência artificial começa a ganhar espaço nos laboratórios de fertilização in vitro como uma ferramenta para auxiliar na escolha de embriões com maior potencial de implantação. Mas um estudo internacional recente sugere que a tecnologia ainda enfrenta desafios importantes de confiabilidade.
A pesquisa, conduzida por cientistas vinculados à Harvard University, Weill Cornell Medicine e Massachusetts General Hospital, analisou a estabilidade de modelos de inteligência artificial utilizados para classificar embriões a partir de imagens microscópicas. O trabalho foi publicado na revista científica Fertility and Sterility.
O objetivo foi responder a uma pergunta para a aplicação clínica da tecnologia: os algoritmos mantêm a mesma decisão quando pequenas variações ocorrem nas imagens dos embriões?
Para investigar essa questão, os pesquisadores utilizaram modelos de deep learning já treinados para classificação embrionária e aplicaram alterações artificiais nas imagens analisadas. Entre as modificações estavam mudanças de brilho, rotação, variações de contraste, ruído visual e pequenas distorções — situações que podem ocorrer naturalmente no laboratório durante a captura das imagens.
Pequenas mudanças, decisões diferentes
Os resultados mostraram que pequenas alterações visuais foram suficientes para modificar a classificação de embriões feita pelos algoritmos. Em alguns casos observados no estudo, um embrião inicialmente classificado como de boa qualidade passou a receber avaliação intermediária ou inferior após mudanças discretas na imagem analisada.
Além disso, a probabilidade de implantação estimada pelos sistemas também apresentou variações relevantes quando as imagens eram levemente modificadas.
Segundo os autores, esse comportamento sugere que os modelos podem ser sensíveis a ruídos visuais ou a características específicas das imagens utilizadas durante o treinamento.
Desafio da generalização
Outro ponto destacado pelo estudo é a dificuldade de generalização dos algoritmos. Muitos modelos são treinados a partir de bancos de dados gerados em um único laboratório. Quando aplicados em ambientes diferentes, com microscópios, incubadoras ou protocolos distintos, o desempenho pode variar.
Diferenças aparentemente pequenas, como iluminação, posição do embrião ou tipo de incubadora utilizada, podem influenciar a forma como o sistema interpreta as imagens.
Para o médico especialista em reprodução assistida Dr. João Guilherme Grassi, esse tipo de análise é importante para colocar a tecnologia em perspectiva. “Existe um entusiasmo compreensível em torno da inteligência artificial na medicina, mas quando analisamos a literatura científica com cuidado percebemos que essas ferramentas ainda têm limitações importantes”, afirma.
Segundo ele, a fertilização in vitro envolve uma série de fatores biológicos e clínicos que não podem ser reduzidos apenas à análise de imagens.
“A fertilidade humana é extremamente complexa. A escolha do embrião não depende apenas da imagem observada no microscópio. Fatores como idade da paciente, qualidade do endométrio, protocolo de estimulação e condições laboratoriais também influenciam o resultado do tratamento”, explica.
Tecnologia promissora, mas ainda em evolução
Os próprios autores da pesquisa destacam que o estudo não avaliou desfechos clínicos, como taxas de gravidez ou nascimento. O foco da pesquisa foi exclusivamente a robustez matemática dos algoritmos.
Ainda assim, os resultados levantam uma discussão importante sobre o grau de confiabilidade desses sistemas quando utilizados como apoio à decisão clínica. “O risco está em imaginar que um algoritmo possa simplificar excessivamente um processo biológico complexo”, afirma Grassi.
Segundo ele, a inteligência artificial pode ser uma ferramenta útil para organizar informações e reduzir variações na avaliação embrionária, mas ainda deve ser vista como um recurso complementar.
“A inteligência artificial pode ajudar a padronizar análises e apoiar decisões. Mas, pelo menos por enquanto, ela ainda está longe de substituir o julgamento clínico e a experiência do embriologista”, diz.
Para os pesquisadores, o avanço da tecnologia dependerá de validações independentes em diferentes centros e de estudos clínicos capazes de demonstrar benefícios concretos nos resultados da fertilização in vitro.



