Hérnia abdominal: doença afeta uma em cada quatro pessoas adultas
A dor e uma protuberância, semelhante a caroço, são os principais sintomas de uma condição que atrapalha o dia a dia
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de junho de 2025
A dor e uma protuberância, semelhante a caroço, são os principais sintomas de uma condição que atrapalha o dia a dia
Jéssica Sabbadini 

Com dores que chegam a ser incapacitantes, a hérnia da parede abdominal é uma doença que afeta o dia a dia das pessoas. Atividades que antes eram vistas como costumeiras passam a ficar mais difíceis e dolorosas. O que antes era habitual, como ir para a academia, precisa ser interrompido em prol de uma recuperação mais tranquila e segura.
Esse é o caso do garçom Luis Fernando Terra, de Londrina, que enfrentou dois tipos de hérnia: a inguinal e a umbilical. O principal sinal da doença foi uma leve ardência na virilha, seguido de uma saliência na região, que já levantou a desconfiança de que poderia ser uma hérnia. “O local ficou com a pele estufada e eu sentia bastante desconforto ao levantar”, explica, caracterizando como uma sensação de ‘pressão’.
Presidente da SBH ( Sociedade Brasileira de Hérnia da Parede Abdominal) e especialista em cirurgia geral e do aparelho digestivo, Gustavo Soares explica que há uma predisposição genética que contribui para o surgimento de uma hérnia. Ao todo, cerca de 28 milhões de brasileiros enfrentam ou vão enfrentar a doença em algum momento da vida, índice que representa 25% da população adulta. Ou seja, uma em cada quatro pessoas é acometida pela doença.
Na família de Terra, um tio também já tinha passado pela mesma condição. Após o diagnóstico, o tratamento cirúrgico foi o indicado. O procedimento foi feito em março através de uma videolaparoscopia, que é minimamente invasiva. Ele conta que sentiu dores apenas nos dois dias seguintes à cirurgia. Com uma recuperação que considerou como tranquila, precisou ficar afastado do trabalho por algumas semanas para poder se recuperar bem.
Apesar de já ter voltado ao trabalho, precisou deixar de lado a academia por conta do receio de fazer um esforço mais intenso. “Mas a minha cirurgia e recuperação foram muito boas”, comemora.
Sintomas prevalentes
Gustavo Soares explica que a hérnia surge a partir de um defeito na parede abdominal, em que uma parte de algum órgão, geralmente o intestino, atravessa essa abertura. Esse movimento causa os dois sintomas mais característicos e prevalentes das hérnias: a dor e o aparecimento de um abaulamento no local, o que, à primeira vista, pode se assemelhar a um caroço.
Cirurgião do aparelho digestivo, Reinaldo Hideto explica que este abaulamento é mais comum de ser sentido quando o paciente está em pé ou quando faz algum tipo de esforço abdominal. Durante o repouso, a protuberância tende a sumir.
Hoje aposentado, Daijiro Teshima foi produtor rural por muitas décadas em Arapongas (Região Metropolitana de Londrina) e, há alguns meses, recebeu o diagnóstico de uma hérnia inguinal. A condição só foi descoberta após uma tomografia, que identificou que a doença já estava em desenvolvimento.
Após o diagnóstico, ele passou a perceber uma elevação justamente ao se deitar e se levantar. A decisão em conjunto com o médico foi se submeter a uma cirurgia. O método escolhido também foi a videolaparoscopia, sendo que o resultado foi tão bom que, 30 dias depois, a sensação é de que o aposentado nunca tinha passado por procedimento algum.
Aliviado por “se livrar” do problema, ele ressaltou a importância da avaliação de um profissional capacitado para o retorno às atividades cotidianas, incluindo a de torrar e moer os grãos de cafés artesanais, hábito que tem como hobby.

De acordo com a localização
O especialista Gustavo Soares explica que os tipos de hérnias são classificadas de acordo com a sua localização, sendo que os mais comuns são: inguinal, na virilha; a umbilical, no entorno do umbigo; e hérnia femoral, que surge na parte superior da coxa. A exceção vale para a hérnia incisional, que pode aparecer após algum procedimento cirúrgico na região, já que a cicatriz pode ajudar a enfraquecer a parede abdominal.
Apesar dos diferentes tipos de hérnias,as inguinais representam 75% de todos os casos, segundo a SBH, e são muito mais frequentes em homens por conta das diferenças na anatomia da região da virilha. O especialista detalha que o testículo é formado dentro do abdômen e, durante o desenvolvimento do feto, migra para o saco escrotal, formando um canal chamado de funículo espermático. “Essa estrutura predispõe o aparecimento da hérnia inguinal”, explica, complementando que os demais tipos têm incidência semelhante entre homens e mulheres.
O comerciante Sandro Luiz Fernandes conta que a dor costumava vir depois de fazer alguma atividade física ou de pegar algo pesado. Ele lembra que enfrentou dois tipos de hérnia: a inguinal e a umbilical. Para o caso dele, o tratamento indicado também foi a cirurgia, o que assustou o comerciante, já que nunca tinha passado por um procedimento de alta complexidade.
Apesar do receio, a cirurgia feita por videolaparoscopia foi um sucesso e, pouco mais de um mês depois, ele garante que a recuperação foi boa. “Dói bastante os primeiros dias. Cirurgia é coisa delicada para homem”, admite.
Evoluir para casos mais graves
Os sintomas mais característicos da doença, a dor e uma protuberância na região afetada, podem aparecer juntos ou separados. Em alguns casos, os sintomas podem ser sutis, explica Soares, sendo que é possível detectar a doença de maneira precoce apenas com exames físicos e de imagem.
Entretanto, as hérnias sintomáticas, em que a protuberância e a dor são mais intensas, podem evoluir para casos graves e com risco de morte. Isso porque, de acordo com o presidente da SBH, à medida em que o quadro da doença evolui, partes do intestino podem passar por esse defeito na parede abdominal, ficando presas nesse ponto defeituoso.
Com o “encarceramento” de parte do órgão, a doença pode evoluir para o ‘estrangulamento’ do intestino, impedindo a circulação sanguínea e podendo levar a casos de necrose. “Esse fenômeno pode fazer com que a hérnia se transforme em uma catástrofe e com risco de vida ao paciente”, alerta, complementando que, nesses casos, o tratamento envolve uma cirurgia de emergência.
“Esse fenômeno pode fazer com que a hérnia se transforme em uma catástrofe e com risco de vida ao paciente”
Gustavo Soares, Presidente da SBH -
Uma doença incapacitante
De acordo com dados do Ministério da Previdência Social, as hérnias da parede abdominal aparecem no rol das doenças que mais afastam temporariamente os brasileiros de seus postos de trabalho. No ano passado, o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) concedeu 56.106 benefícios de incapacidade temporária para pessoas que enfrentaram a hérnia inguinal, quase o dobro do registrado em 2023, quando 29.749 benefícios foram aprovados para esse tipo de doença.
Além das hérnias inguinais, as umbilicais também afastaram mais pessoas dos seus trabalhos no ano passado do que em 2023. Isso porque 27.497 tiveram o benefício temporário concedido em 2024, enquanto que no ano anterior foram 17.225.
Gustavo Soares garante que esse cenário reflete o alto número de acometidos pela doença, assim como o fato de a hérnia impedir a realização de atividades que exigem força, por exemplo, conforme o quadro vai evoluindo. “Muitas vezes a pessoa fica incapacitada de exercer as suas funções”, aponta.
Atividade física e alimentação
Por ser uma doença ligada a fatores genéticos, algumas medidas podem ajudar a reduzir o risco de desenvolver algum dos tipos de hérnia de parede abdominal, como a prática de exercícios físicos, uma alimentação balanceada e o controle do peso. Além disso, é preciso evitar levantar cargas muito pesadas e seguir à risca as recomendações médicas após alguma cirurgia na região abdominal, por exemplo.
Tecnologia
A cirurgia, na maioria das vezes, é vista como a única opção, e a tecnologia pôde caminhar ao lado da medicina para garantir cada vez mais procedimentos menos invasivos e com um pós-operatório mais tranquilo.
Gustavo Soares explica que a cirurgia aberta era o único tratamento para a hérnia até o século passado, o que foi evoluindo para o procedimento videolaparoscópico. Minimamente invasiva, nesse tipo de cirurgia o médico opera através de pequenas incisões, por onde são inseridas câmeras e instrumentos.
Mais moderna, a cirurgia robótica é uma alternativa no tratamento das hérnias de parede abdominal, aponta o cirurgião geral Vinícius de Almeida Pelloso, especialista em cirurgias minimamente invasivas. Com a tecnologia, o médico controla um robô a partir de uma plataforma com visão em três dimensões, em alta definição e com auxílio de instrumentos articulados com precisão milimétrica.

Assim como na videolaparoscópica, são feitas pequenas incisões por onde os braços robóticos são inseridos e controlados a distância. “O cirurgião realiza a correção da hérnia com visão ampliada e movimentos estáveis”, explica.
Ele ressalta que a cirurgia aberta é um técnica eficaz no tratamento da hérnia, mas que pode causar mais dor, maior tempo de recuperação e uma cicatriz visível.
Por outro lado, além de uma visão ampliada e uma maior precisão no controle dos movimentos, a cirurgia robótica causa menos trauma nos tecidos, menos sangramentos e menos dor no pós-operatório. A recuperação e o retorno às atividades, segundo Pelloso, também são mais rápidos, sendo que a alta médica geralmente acontece no mesmo dia.
“A cirurgia robótica é uma tecnologia que agrega segurança, precisão e conforto ao paciente, especialmente em hérnias complexas ou recidivadas. É uma tendência crescente nos centros cirúrgicos modernos, com potencial de se tornar padrão em muitas cirurgias abdominais”, ressalta.
Na visão de Gustavo Soares, presidente da SBH, “a cirurgia robótica é uma evolução que veio para ficar”. Segundo ele, os procedimentos de parede abdominal são os mais realizados na modalidade robótica nos Estados Unidos. No Brasil, o número de cirurgias robóticas para o tratamento de hérnias ainda é muito baixo, já que não é um procedimento coberto pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
Ainda sem previsão de quando a cirurgia robótica vai ser incorporada no sistema público de saúde, o especialista garante que isso é uma questão de tempo. “Como toda tecnologia, ela leva um pouco mais de tempo para ser incorporada”, explica.
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FIQUE ATENTO
Hérnia da parede abdominal
O QUE É : um defeito na parede abdominal em que uma parte de algum órgão, normalmente alças do intestino delgado, se desloca através de um orifício (chamado de anel herniário) na parede abdominal, causando alteração da forma do abdome.
TIPOS: a inguinal é a mais comum, seguido da umbilical, incisional e femoral, entre outros
SINAIS: dor e abaulamento na região afetada
CAUSAS: a genética é a principal delas, mas a obesidade, cirurgias na região do abdômen e atividades que exigem muito esforço também podem contribuir
TRATAMENTO: cirúrgico na grande maioria dos casos, o procedimento pode ser aberto ou por videolaparoscopia e cirurgia robótica
REDUÇÃO DE RISCOS: manter uma rotina com exercícios físicos, alimentação balanceada e peso saudável ajudam a reduzir os riscos de desenvolver a doença
Fontes: SBH e médicos Gustavo Soares, Reinaldo Hideto e Vinícius de Almeida Pelloso

