Família deve ter atitudes de afeto e estímulos
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segunda-feira, 05 de agosto de 2019
Micaela Orikasa - Grupo Folha 

A pesquisadora Clara Mockdece Neves, da UFJF, que se dedica ao estudo de comportamentos relacionados ao corpo na infância, explica que a imagem corporal é aquilo que a gente tem em mente sobre as próprias dimensões corporais e, por isso, cada pessoa tem sua representação mental. “Ela faz parte do cotidiano e é um construto emocional. Mas apesar de ser algo individual, está sujeita a influências da sociedade que vivemos”, comenta.
De acordo com ela, essa “construção” começa a partir do momento em que a criança começa a se identificar, isto é, quando ela se olha no espelho e já se reconhece. É a partir deste momento que a família, sendo a primeira das fontes de influência, deve ter atitudes de afeto e estímulos.
“O conselho que a gente poderia dar aos pais é tentar trazer esses cuidados com o corpo não voltado para a estética, mas para a saúde física e mental. É abraçar a criança e incentivá-la a aceitar o corpo da forma como ele é. Isso trará consequências positivas na imagem corporal da criança”, diz.
O psicanalista Sylvio Schreiner, de Londrina, salienta ainda que os pais estão deixando de lado valores humanos. “Em primeiro lugar, deve haver o verdadeiro desejo de serem pais, pois isso já faz com que a pessoa se coloque disponível para aquela relação. Sobre os desejos para os filhos, devem se lembrar que para tudo há um certo limite ao mesmo tempo que também é preciso dar liberdade para que se desenvolvam”.
EQUILÍBRIO
É esse equilibrar que a farmacêutica e acupunturista Renata Bortolini Penteado Leite, 44, pondera quando a filha Sophia, 12, traz demandas abordadas por influenciadores digitais ou mesmo, de colegas da escola. “Procuro conversar muito quando ela vem com um papo muito iludido. Reforço que cada um tem seu jeito porque eu não quero que ela fique preocupada em seguir padrões, mas procuro ressaltar algumas questões sob o ponto de vista da saúde, como por exemplo, a prática de atividade física”, afirma.
Para ela, a internet, especialmente a figura dos “influencers” representam um desafio para a educação dos filhos. “É algo que a gente não consegue controlar totalmente e mexe muito com a cabecinha delas. Temos que estar sempre cuidando porque na internet as coisas são colocadas, muitas vezes, de uma forma irreal. É tudo perfeito, mas a vida não é assim. Com a Sophia, o papo é aberto. Digo que é preciso ter vaidade, se cuidar, ter autoestima, mas sem que isso nos tire da vida real”, comenta.
Leite volta ao tempo e se recorda da própria infância. “Lembro da minha mãe e avó fazendo regimes, reforçando a ideia de que é importante estar sempre arrumada. Aos sete anos, por exemplo, minha avó me levou até o salão para fazer permanente porque o legal naquela época era ter o cabelo enrolado”, lembra.
Já com a Sophia, ela diz que busca fazer diferente. “Criança é criança. Às vezes, a gente não consegue porque é uma geração diferente, que muda muito rápido, mas sempre os estimulei a brincar muito e a viver cada etapa da vida, sem pular fases”, pontua.
Para Giovana Souza, que é pediatra e hebiatra, as mídias sociais "aproximaram" muito as pessoas, ao contrário de antigamente quando o contato com padrões de beleza eram limitados às revistas, televisão e cinema. “As blogueiras, youtubers, às vezes, são até pessoas do convívio. E essa relação de proximidade leva cada vez mais meninos e meninas quererem se parecer com esses 'ícones'. O problema é que os adolescentes começam então a fazer coisas diversas para poder chegar a este objetivo, muitas vezes, fora do real, do que é saudável”.
CARÊNCIA DE AFETO
A grande discussão sobre a idealização do corpo na infância são os efeitos ao longo da vida. O psicanalista reforça que se os padrões de beleza passam a ser hipervalorizados, é isso que as pessoas irão buscar como referência de felicidade e sucesso.
“E os outros elementos acabam perdendo valor, como por exemplo a inteligência, aquilo que inspira a pessoa de fato. Essas outras facetas ficam limitadas. O corpo cresce e pode até se tornar bonito, mas a pessoa nunca irá se sentir realizada na vida. Ela pode até ter uma boa imagem, sucesso e milhares de seguidores nas redes sociais, mas estará sempre faltando algo integrado dentro dela”, explica.
Além disso, o psicanalista diz que essa busca também se refletirá no outro, ou seja, o corpo ideal também será projetado no outro. “O problema é que as pessoas então, irão só em busca disso e não delas mesmas. É como fechar um leque de possibilidades, no que diz respeito ao desenvolvimento de potencialidades, de encontrar sentidos”.
E enquanto sociedade, esse comportamento só reforçará algo que já se vive hoje: a carência de afeto. Schreiner diz que a idealização está muito ligada ao querer ser amado, admirado, perfeito. “O ser humano tem medo da diferença porque não existe uma única maneira de ser. E assim dá muito mais trabalho encontrar seu verdadeiro sentido. Por isso, as reações começam a ser medidas pela superficialidade e pelo vazio. A maior parte das pessoas está vivendo uma miséria de afetos íntimos e verdadeiros e os aplicativos de relacionamento estão aí, revelando essa carência”, aponta.

