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Estimulação magnética para alívio da dor crônica

Pesquisadores da Universidade do Quebec vieram a Londrina compartilhar experiências com médicos e fisioterapeutas sobre essa técnica não invasiva

Micaela Orikasa - Grupo Folha
Micaela Orikasa - Grupo Folha

No Canadá, um grupo de pesquisadores vem se debruçando em estudos sobre a EMT (Estimulação Magnética Transcraniana) para melhorar a qualidade de vida de quem sofre com dor crônica. Estatísticas da Iasp (Associação Internacional para o Estudo da Dor) apontam que uma em cada cinco pessoas sofre de dor crônica moderada a grave em todo o mundo.  


Ao sentirmos dor, nosso raciocínio se distrai, nosso foco de atenção muda para avaliar a origem do que nos causou a dor
Ao sentirmos dor, nosso raciocínio se distrai, nosso foco de atenção muda para avaliar a origem do que nos causou a dor | iStock
 


A técnica, que consiste em estimular o cérebro através de ondas magnéticas, modulando os neurotransmissores, vem ganhando a atenção de profissionais da saúde e pacientes por dois grandes motivos: não é invasiva e vem sendo estudada para diversas finalidades.  




Parte desses pesquisadores esteve em Londrina recentemente conversando com médicos, enfermeiros e fisioterapeutas. O encontro é resultado de um intercâmbio que a Iscal (Irmandade Santa Casa de Londrina) firmou com a UQAC (Université du Québec à Chicoutimi) para trocar experiências em pesquisas e demais atividades acadêmicas. A médica Suzi Ngomo, pós-doutora  em Neurociências, apresentou parte de seus trabalhos direcionados a pacientes com fibromialgia. 


TÉCNICA RECENTE

Os primeiros modelos para avaliar a neurofisiologia do sistema nervoso central foram desenvolvidos há 15 anos, mas um modelo mais completo da bobina (espécie de capacete) que compõe o tratamento e a avaliação foi desenvolvido em Montreal, no Canadá, há cerca de dois anos, ao custo aproximado de US$ 300 mil.  


O aparelho é colocado sobre a cabeça e através de um botão é emitido um choque elétrico, que acaba “criando” um campo magnético no cérebro para poder facilitar a atividade cerebral, modular o neurônio e , com isso, otimizar a atividade do sistema nervoso central.  “O importante é ter a área do cérebro bem delineada. Dependendo da aplicação, nós vemos a pessoa mexer partes do corpo involuntariamente, sinal de que ela está recebendo estímulos. Não basta ter o equipamento de alta tecnologia. É preciso ter expertise na área”, afirma. 


INDICAÇÕES 

A tecnologia é muito apurada e ainda não está voltada para prevenção. “Ela tem indicação para dores refratárias, ou seja, quando o paciente não melhorou com os tratamentos convencionais, e pode ser aplicada em casos de dor crônica, amputados, esquizofrenia, lombalgia, complicações pós-AVC, depressão, alguns casos de Alzheimer e fibromialgia”. 


 Suzi Ngomo, médica: “Ela tem indicação para dores refratárias, ou seja, quando o paciente não melhorou com os tratamentos convencionais"
Suzi Ngomo, médica: “Ela tem indicação para dores refratárias, ou seja, quando o paciente não melhorou com os tratamentos convencionais" | Iscal - Divulgação
 




FIBROMIALGIA 

A fibromialgia (síndrome clínica que se manifesta com dor em todo o corpo) tem sido o objeto de estudo principal de Ngomo. Recentemente, ela conduziu um estudo com pacientes envolvendo exames fisiológicos integrados a questionários clínicos e tarefas funcionais, de desempenho. 


 A médica buscou avaliar a quantidade de vezes que os pacientes eram capazes de colocar uma toalha no varal, pois normalmente a síndrome provoca dores acima do ombro. Para isso, ela utilizou a EMT e os resultados foram percebidos dez dias depois da aplicação. 


“Tivemos vários resultados de até 60% de melhora na dor e 50% de melhora na questão física, ou seja, eles foram capazes de colocar mais toalhas no varal”, destacou Ngomo. 


ENTENDENDO A DOR

O ponto de partida do tratamento com EMT, segundo a neurocientista, é buscar entender a dor do paciente através de modelos conceituais teóricos. “A ideia é entender quais são as prioridades. Se a dor é mais de percepção, neurofisiológica ou se é mais emocional”, diz.  


Ngomo ressalta que a dor é personalizada e que, portanto, cada paciente demanda um tratamento. Além disso, cada pessoa tem um limiar de ativação. “Para um indivíduo, às vezes, basta um choque elétrico de pequena intensidade para termos uma resposta, mas em outro é preciso aumentar essa intensidade”.  


Ngomo veio acompanhada do diretor da clínica de fisioterapia da UQAC, o brasileiro Rubens Alexandre da Silva Junior, e a enfermeira Marie-Héléne Hudon. Esse foi o contato inicial de médicos e fisioterapeutas com o procedimento. Ainda não há uma previsão de quando e se a técnica estará disponível para os pacientes. O novo modelo para EMT já está disponível em países como Japão e França, mas ainda não chegou ao Brasil.       


A técnica é reconhecida pelo Conselho Federal de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional como técnica fisioterapêutica. Já o Conselho Federal de Medicina reconhece a prática para tratamento de depressões uni e bipolar, alucinações auditivas nas esquizofrenias e planejamento de neurocirurgia. Para outras indicações, os procedimentos são tidos como experimentais. 

Estimulação magnética para alívio da dor crônica
Folha Arte
 



'PASSEI POR TODOS OS ESPECIALISTAS'


A EMT (Estimulação Magnética Transcraniana) pode um dia, atender casos como o de Cleusa Maria da Silva Queiroz,  52, que sofre com dor crônica. “Já passei por todos os especialistas para saber a causa da dor, mas não há certeza de nada e minha dor aumenta dia após dia. Começou pela perna, agora está no braço e vai até o pescoço”, lamenta. 


As dores começaram após uma cirurgia para retirada de hérnia, em 2011. Ela comenta que tem fibromialgia e que controla os sintomas com medicamentos. No entanto, diz que as dores persistem e têm piorado.  


“Os remédios amenizam e , quando faço sessões de fisioterapia e hidroterapia, a dor na lombar e na região dos ombros melhora, mas a questão é que a dor é diária e eu dependo muito dos encaminhamentos dos médicos para as terapias no SUS (Sistema Único de Saúde)”, diz.   


Por causa da dor, Queiroz conta que perdeu bastante o convívio social e parou de trabalhar. “Para fazer as tarefas de casa eu preciso estar medicada. É uma dor agoniante, que me causa muito estresse.” 


A SBED  (Sociedade Brasileira no Estudo da Dor) descreve a dor como “a interpretação de uma informação que pode colocar em risco a integridade do nosso corpo. Ao sentirmos dor, nosso raciocínio se distrai, nosso foco de atenção muda para avaliar a origem do que nos causou a dor, nosso comportamento age em busca de estratégias de proteção para garantir nossa segurança física e emocional”. Sobre a dor crônica, entende-se que é aquela que persiste mesmo sem haver um motivo que a justifique. 


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