Epilepsia atinge 50 milhões de pessoas no mundo
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domingo, 06 de outubro de 2013
Michelle Aligleri<br> Reportagem Local 
Você sabe o que Machado de Assis, Van Gogh, Agatha Christie e o imperador Júlio César tinham em comum? Todos eram epiléticos. A doença não afetou a genialidade deles. Considerada o distúrbio neurológico crônico grave mais comum, a epilepsia atinge cerca de 50 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, não há estudos a respeito da incidência da doença, mas a OMS estima que, em países em desenvolvimento, a cada 100 mil habitantes, entre 122 e 190 pessoas têm a doença. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 5% da população terá, ao menos, uma crise epilética na vida.
Os profissionais de saúde consideram a doença de fácil controle. As estatísticas apontam que 70% dos pacientes apresentam uma boa resposta aos tratamentos. O percentual restante, de acordo com o coordenador do Departamento Científico de Epilepsia da Sociedade Brasileira de Neurologia, Luciano de Paola, tem alguma dificuldade no controle da doença e precisa se submeter a intervenções cirúrgicas.
Antônio (nome fictício), de 43 anos, é um dos pacientes que se encaixa no grupo minoritário. Apesar de tomar a dose máxima da medicação indicada pelo médico, ele tem crises epiléticas várias vezes por semana, a qualquer hora do dia e em diferentes intensidades. A doença foi diagnosticada há mais de 20 anos e a qualidade de vida de Antônio foi ficando pelo caminho. Hoje, ele está afastado do trabalho, deixou de dirigir, e fica a maior parte do dia em casa por conta da ocorrência das crises (leia mais nesta página).
Os problemas relacionados à epilepsia não se limitam às convulsões. "As idas frequentes ao hospital, a possibilidade de morte, a convivência com diferentes medicamentos, alterações de humor, problemas de ordem social, dificuldades de emprego e relacionamento, impossibilidade de praticar alguns esportes são algumas das várias situações que envolvem a epilepsia. Mas o maior problema desta doença é o estigma, o preconceito que envolve este diagnóstico", salienta o médico neurocirurgião Paulo Porto de Melo.
Segundo o neurologista, os pacientes também enfrentam muitas dúvidas sobre a capacidade de fazer ou não atividades comuns. "As mulheres precisam saber que, apesar da epilepsia, a maior parte delas pode levar uma gravidez com segurança", garante.
Melo explica que a crise epilética ocorre quando durante alguns segundos ou minutos uma parte do cérebro emite sinais incorretos, que podem ficar restritos a esse local ou espalhar-se. "Se ficarem restritos, a crise será chamada parcial e se envolverem os dois hemisférios cerebrais ela será generalizada". Conforme ele, muitas vezes, a causa é desconhecida, mas pode ter origem em ferimentos sofridos na cabeça, recentemente ou não. "Traumas na hora do parto, abusos de álcool e drogas, tumores e outras doenças neurológicas também facilitam o aparecimento da epilepsia", complementa.
As crises de epilepsia têm intensidades variadas, como explica o médico neurologista Luis Sidonio Teixeira Silva. "Existem situações em que o paciente tem uma convulsão clássica, que resulta na queda, perda de consciência e movimentos involuntários, e há crises de ausência que são como se o paciente desligasse por alguns segundos, são crises parciais e mais rápidas", detalha. O médico esclarece que as características da crise determinam o medicamento que será utilizado pelo paciente.
O diagnóstico da doença é feito com auxílio de exames de imagem como a tomografia computadorizada e a ressonância magnética. O problema deve ser identificado o quanto antes porque o tratamento apresenta melhores resultados. "Às vezes os pais acham que o filho é distraído e não percebem que ele tem crises de ausência ainda na infância", acrescenta.
Os medicamentos para tratar a epilepsia são fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas a repetição das crises complexas pode resultar num prejuízo intelectual e de comportamento muito grande. "É uma doença progressiva, e é preciso detê-la o mais rápido possível", destaca Sidonio. De acordo com ele, nos casos em que a medicação não possibilita o controle, o tratamento pode ser cirúrgico. "Fazemos exames para identificar em que parte do cérebro as crises estão se originando e quando a região é identificada encaminhamos para a cirurgia", aponta. A epilepsia têm dois picos de incidência, o primeiro na infância por conta das doenças degenerativas, e o segundo após os 60 anos, relacionado aos derrames e tumores cerebrais.
Apesar de algumas limitações impostas pela doença, o médico orienta que os pacientes busquem uma vida mais próxima do normal. "Um epilético não pode tomar banho de banheira, nadar ou praticar esportes radicais sozinho. Toda vez que for fazer alguma coisa ele deve pensar que uma crise pode acontecer naquele momento, mas ele precisa ser uma pessoa integrada à sociedade", ressalta o neurologista.

