Ele teima que não esquece as coisas
Há três anos, Roberto (nome fictício) começou a apresentar alguns esquecimentos. ''Ele nunca sabia quanto dinheiro tinha no bolso, as contas ficavam sem pagar e o celular sempre estava perdido'', lembra a esposa Márcia (nome fictício). Apesar dos esquecimentos recorrentes, a família não deu importância porque achou que o comportamento estava relacionado a uma situação de estresse. No entanto, diante da permanência dos sintomas, Márcia decidiu procurar ajuda médica. ''Alguns profissionais me falaram que era depressão ou mesmo o estresse. Somente um médico falou que ele tinha Alzheimer, mas nós não acreditamos'', comenta.
A família só passou a aceitar a possibilidade do Alzheimer quando um psiquiatra da família levou o paciente para fazer testes neuropsicológicos que identificaram o problema. ''Diante desta questão, alguns exames específicos de imagem foram realizados e detectaram a doença'', conta.
Atualmente Roberto tem 59 anos e faz tratamento há cerca de dois anos. ''Ele está na primeira fase da doença e o medicamento ajuda a retardar a evolução do Alzheimer'', conta. Apesar da memória, ele ainda é independente na questão da alimentação e da higiene pessoal. ''Roberto tem uma autonomia vigiada. Ele só pensa que toma conta de tudo, mas na verdade somos eu e meus filhos que fazemos'', fala.
Roberto fala que está tudo bem, que não está doente, mas Márcia não sabe se ele realmente não tem consciência da doença ou se está negando o diagnóstico. ''Ele teima que não esquece as coisas e que não faz nada de errado'', conta. Para contornar a situação, ela e os filhos ficam sempre por perto. ''Não permitimos que ele assine nada sem a nossa supervisão, passamos a pagar as contas por ele e controlamos os lugares para onde vai e que horas volta'', explica Márcia.
Um dos desafios de conviver com alguém com Alzheimer é não saber o que a pessoa está pensando. ''Tem dia que ele está aéreo, que quer ficar mais isolado e se irrita quando tem muita gente por perto. O médico falou que nesta doença as características da personalidade da pessoa se acentuam'', explica.
Para Márcia, aceitar o diagnóstico foi muito difícil. ''Eu e meus filhos precisamos tomar a frente dos negócios da família. Antes era ele quem fazia tudo'', lembra. Ela conta que a família não esconde a doença, mas que o momento é difícil. ''Temos que aceitar seguir a vida em frente para dar uma qualidade boa de vida para ele. Não ficamos pensando no amanhã, vamos vivendo um dia de cada vez para não sofrermos por antecipação'', conclui. (M.A.)




