São Paulo - Pesquisadores inauguraram na semana passada uma nova era da ciência e da bioética aplicada à reprodução humana, com a comprovação de que é possível corrigir falhas no DNA de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro e, dessa forma, impedir a transmissão de doenças genéticas hereditárias.

A notícia foi confirmada com a publicação de um trabalho na revista Nature. O estudo, realizado nos Estados Unidos, utilizou uma técnica conhecida como Crispr-Cas9 (ou simplesmente Crisper) para editar o DNA de embriões humanos e corrigir uma mutação associada ao risco de falência cardíaca e morte súbita.

Os embriões foram gerados por fertilização in vitro, para fins de pesquisa, utilizando células de doadores. Foram destruídos após três dias e não chegaram a ser implantados - até porque não há autorização legal para isso. Não há razão técnica, porém, pela qual eles não poderiam desenvolver-se normalmente caso fossem transferidos para um útero, provocando uma série de questionamentos éticos sobre um possível uso eugênico da tecnologia, para a produção de bebês com características específicas, não relacionadas à cura de doenças.

"Provamos que esse método de correção genética em embriões é seguro e pode ser potencialmente usado para prevenir a transmissão de doenças genéticas para futuras gerações", disse a pesquisadora Paula Amato, da Universidade de Saúde e Ciências do Oregon, em uma coletiva internacional de imprensa. Ela enfatizou, porém, que "mais pesquisas e discussões éticas são necessárias antes de proceder para testes clínicos" da tecnologia. "Ainda há um longo caminho pela frente", disse Sanjiv Kaul, outro coautor do trabalho.

Imagem ilustrativa da imagem É possível corrigir DNA de embriões humanos
| Foto: Shutterstock



TECNOLOGIA
Inventada há apenas cinco anos, a Crisper se tornou uma tecnologia revolucionária quase que instantaneamente. Ela permite fazer modificações genéticas de forma muito precisa, por meio da combinação de uma "sequência guia" de material genético associada a uma enzima especial (a Cas9), que corta o DNA em pontos específicos do genoma.

Com isso é possível desligar genes ou, como foi feito de forma pioneira neste estudo, "desfazer" uma mutação, induzindo o genoma a se reconstruir da forma correta após o corte.

O gene corrigido neste caso foi o MYBPC3, responsável pela síntese de uma proteína envolvida no controle do músculo cardíaco. Quando mutado, ele causa cardiomiopatia hipertrófica, uma doença hereditária que pode causar morte súbita, presente no DNA de 1 em cada 500 pessoas no mundo.

Os pesquisadores usaram espermatozoides de um portador da mutação para fertilizar óvulos e utilizaram a Crisper para corrigir o defeito genético desde o início do desenvolvimento embrionário. A ideia é que isso possa ser usado para aumentar o número de embriões saudáveis disponíveis para casais portadores de doenças genéticas, em combinação com a técnica de diagnóstico genético pré-implantacional, que permite identificar se um embrião gerado por fertilização in vitro tem a mutação ou não.

Segundo Kaul, caberá às agências reguladoras determinar os limites éticos do uso da tecnologia, definindo o que pode ou não ser mexido no DNA dos embriões. São conhecidas mais de 10 mil doenças monogênicas, causadas por mutações em um único gene, e a técnica, teoricamente, poderia ser usada em qualquer uma delas.

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