DOR: não ignore este sinal
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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
Micaela Orikasa<br> Reportagem Local 

Após ser submetida a uma cirurgia, a artista plástica londrinense Georgia de Alvarenga Sampaio, de 43 anos foi avaliada em relação à dor. Em uma escala de 0 a 10, ela procurou identificar o nível e o tipo de sofrimento. "É a primeira vez que sou atendida neste sentido", comenta.
Com uma dor considerada moderada (nível 4), Georgia foi medicada imediatamente. "A gente se sente melhor com esse atendimento que é humanizado. Acho que o lado psicológico é muito importante e ajuda a encarar todo o processo de forma mais tranquila, mais segura", diz.
A situação vivida por Georgia é um ponto defendido por alguns anestesiologistas, especialistas em dor, enfermeiros e farmacêuticos, interessados em mudar uma realidade do País. O que se espera é que cada vez mais, equipes estejam capacitadas nos hospitais para interpretar melhor os sinais da dor e assim, possam conduzir o melhor tratamento.
"Em nosso país, a dor é subdiagnosticada e com isso é subtratada, pois a própria classe médica e a população acham que a dor é consequência natural da doença, que é preciso suportar esse sofrimento, mas não é bem assim", argumenta o anestesiologista Mario Luiz Giublin, fundador da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor e responsável pela Clínica de Dor do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Segundo ele, os avanços na área nos últimos anos possibilitou o tratamento da dor em qualquer fase (inicial ou intermediária) evitando que ela se torne crônica. "No Brasil, até a década de 90 tínhamos poucos recursos para o tratamento da dor, mas isso mudou e agora é importante fazer o tratamento e o diagnóstico no início do quadro clínico", completa.
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que o Brasil é o segundo país da América Latina em que os portadores de câncer mais sentem dor, e que 70% dos pacientes que procuram os consultórios médicos por outras razões relatam dor.
O assunto ganhou mais relevância também após a Sociedade Americana de Dor reconhecê-la como quinto sinal vital, colocando-a no mesmo patamar da temperatura corporal, pressão arterial, pulso e respiração.
Ainda de acordo com Giublin, a dor aguda, aquela que motiva o indivíduo a procurar um médico é um sinal de alerta diferente da crônica, que passa a ser uma doença em si e multifatorial. "Nesse caso é preciso ter uma equipe multidisciplinar para tratar esse tipo de dor, mas isso ainda é muito difícil. A maioria dos médicos tem o conceito de que a dor só deve ser tratada na fase aguda", ressalta.

O atendimento prestado à Georgia Sampaio logo após a cirurgia foi possibilitado pela implantação do Comitê da Dor do Hospital Araucária, em Londrina. A equipe é formada por anestesiologistas, enfermeiras, farmacêuticos e fisioterapeutas, e tem o objetivo de identificar a dor do paciente e monitorá-la de acordo com o grau de intensidade. No mês de novembro, o anestesiologista e especialista em dor, Sanderland Gurgel, de Maringá, ministrou uma palestra para o corpo clínico da instituição.
Segundo a farmacêutica Cleidi Boing Voltolini a necessidade desse atendimento surgiu logo após o setor questionar algumas prescrições de medicamentos. "Percebemos que alguns pacientes com cirurgias grandes e longas eram medicados com analgésicos muito fracos. A partir disso, sentimos a necessidade de trabalhar mais de perto com médicos e pacientes", conta.
O anestesiologista Renato Fernandes ressalta que a dor não cuidada adequadamente traz consequências danosas para o paciente. "Existe um fenômeno chamado modulação da dor. Se no início, a dor for tratada de forma adequada, o estímulo para o indivíduo produzir dor nos próximos dias tem que ser muito maior", explica.
Ele cita também que quando a dor acontece são liberadas substâncias andrógenas que fazem aumentar a frequência cardíaca e a pressão arterial. "Isso não é interessante para o paciente, principalmente se ele tiver alguma doença associada, pois pode ter um dano maior que o esperado", afirma. Além disso, o paciente com dor tem dificuldade para dormir e pode, em alguns casos, ter depressão associada e ansiedade, ou seja, uma série de sintomas que pioram a qualidade de vida.

