"Foram seis anos de dor. O comprimido já não fazia mais efeito e as dores eram muito fortes, duravam alguns minutos e depois sumiam. Quando a crise surgia, eu ficava quieto esperando passar; se eu estivesse almoçando, só conseguia voltar a comer depois de meia hora". O relato do lavrador João Amado Moris, de 77 anos, mostra um pouco do sofrimento vivido por ele durante os anos em que precisou conviver com a neuralgia do trigêmeo. A doença é uma desfunção do nervo responsável pela sensibilidade da face.
O médico neurologista Marcos Antônio Dias explica que o nervo trigêmeo nasce no tronco cerebral e se divide em três partes que alcançam as regiões da testa, olhos, nariz, bochechas, e mandíbula. E as alterações deste nervo causam uma dor extremamente forte e de curta duração. "A dor pode aparecer várias vezes ao dia, uma vez por semana ou até com um espaçamento de tempo maior; cada paciente apresenta uma característica", detalha.
Segundo o médico, o problema pode ser causado por trauma, tumor, infecção e inflamação, mas apesar da realização de vários exames há casos de pacientes que não apresentam causa definida.
As crises de dor podem ser desencadeadas pelo frio, calor, estresse e todos os outros fatores que ativam a sensibilidade.
O problema é mais comum em homens com mais de 60 anos, mas não há pesquisas que mostram o cenário da neuralgia do trigêmeo no Brasil. "A doença traz um sofrimento muito grande, acaba levando o paciente à dor crônica e a um quadro depressivo que interfere no relacionamento profissional, pessoal e familiar deste indivíduo", aponta.
A maior parte dos pacientes consegue controlar a doença com tratamento medicamentoso, que visa diminuir a função do nervo e assim reduzir a intensidade da dor na face. "Em alguns casos chega até a causar anestesia no rosto, mas os pacientes preferem a ausência de sensibilidade do que a dor", complementa o neurologista. Quando os medicamentos não fazem o efeito esperado, o paciente pode ser submetido a uma delicada cirurgia. "O objetivo do procedimento é trocar a dor pela hipofunção do nervo. A cirurgia é a última opção e só é feita quando todas as outras opções de tratamento já estão esgotadas", ressalta.

Cirurgia que alivia


A primeira vez que o lavrador João Amado Moris sentiu a forte dor na face ele estava em uma festa com a família. A intensidade era tanta que os familiares o levaram ao pronto-socorro. "Foi muito forte, não é na pele, é por dentro, como se fosse um choque que não para", descreve. Ele explica que enquanto a dor não passa não é possível fazer nada. "Não dá para comer, fazer a barba, escovar o dente e nem falar direito", ressalta.
Depois de diagnosticado e medicado, João conta que passou a conviver melhor com o problema. "Como a dor é muito forte, se ela aparecesse num momento que eu estivesse sem o remédio, eu acabava passando o dia inteiro sem conseguir comer", afirma. Depois de alguns anos usando o medicamento, João afirma que a droga começou a ter o efeito reduzido, e a única saída era fazer a cirurgia. O procedimento foi realizado há três anos, e desde então ele não teve mais crises. "Eu fiquei com uma parte do rosto adormecida, mas eu prefiro assim do que a dor", garante. O lavrador também comemora a redução pela metade dos medicamentos, após a cirurgia.

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