Doença sem controle gera impactos humano e econômico
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domingo, 09 de setembro de 2018
Simoni Saris<br> Reportagem Local 
O diabetes atinge 417 milhões de pessoas em todo o mundo e, entre os brasileiros, calcula-se em mais de 14 milhões o número de diabéticos embora 50% deles convivam com a doença sem saber e uma fatia considerável não faz o controle adequado da glicose no sangue. A cada seis segundos, uma pessoa no mundo morre de causas relacionadas ao diabetes. No Brasil, são 15 mortes por hora de complicações decorrentes da doença. Quanto mais pobre o país, mais a doença se manifesta. Dados da IDF (sigla em inglês para denominar a Federação Internacional de Diabetes) apontam que 75% dos diabéticos vivem em países de média e baixa renda. Além do impacto humano, os índices elevados de glicemia representam também um forte impacto econômico.
Todos os anos, são gastos R$ 66 bilhões com o tratamento de diabetes no País. As diferenças culturais e regionais e a desigualdade na distribuição de renda são os maiores desafios para os órgãos e profissionais de saúde. Quando se analisa o diabetes tipo 2, observa-se que os gastos e o controle da doença são discrepantes entre as regiões brasileiras. Norte e Nordeste têm o pior controle e são as regiões onde o risco de complicações relacionadas com a doença é maior. "A Região Sul tem mais dinheiro e os gastos com o diabetes são menores. Na Região Norte, os recursos são mais escassos, mas os gastos são mais elevados", destacou a médica endocrinologista Denise Franco, diretora da ADJ Diabetes Brasil e coordenadora dos Departamentos da SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes).
Franco ressalta ainda que há outras questões a serem consideradas no controle do diabetes que vão além das condições financeiras. "É comum o profissional não consultar direito o paciente que hoje tem, no Brasil, 15 minutos de contato com o médico. Mas esse problema não é só aqui. Na Índia, o tempo médio da consulta é de cinco a dez minutos. Como você tem tempo de falar com uma pessoa que acabou de receber o diagnóstico em um tempo tão curto?", questionou.
Uma das principais consequências de um contato tão rápido com o profissional, diz a médica, é a baixa adesão ao tratamento. Atualmente, o remédio mais prescrito para o controle do diabetes é a metformina, mas a maior parte dos pacientes interrompe a medicação após um mês de uso. "Vinte e sete por cento param no primeiro mês, após terminar a primeira caixa. Ninguém avisou que era para tomar o medicamento a vida toda", destacou Franco. "A restrição alimentar é a maior dificuldade. É uma das coisas que mais incomodam os pacientes", acrescentou a médica endocrinologista Jellin Chuang Zambon.
Sem informação, o número de pacientes aumenta, assim como a quantidade de diabéticos que sofrem as complicações da doença. De 2017 a 2045, a população de diabéticos na América Latina deve aumentar 62% e, no Brasil, a alta deve superar os 64% no período.
Além da retinopatia, que é o comprometimento da retina provocado pelo excesso de glicose no sangue, o diabetes desencadeia doenças renais, cardiovasculares e nos nervos. O diabetes aumenta em até 80% a probabilidade de morte por problemas cardiovasculares e eleva também o índice de mortalidade por todas as causas nos pacientes com insuficiência cardíaca estabelecida.
DESAFIOS
Mas ainda há outros danos à saúde relacionados à patologia. A maioria das amputações não traumáticas de membros é causada em decorrência da doença. "A cada minuto, três pessoas no mundo sofrem uma amputação decorrente do diabetes", destacou a médica endocrinologista Hermelinda Cordeiro Pedrosa, presidente da SBD.
As complicações são resultantes de um controle glicêmico inadequado e Denise Franco aponta alguns desafios para contornar as dificuldades que se apresentam aos pacientes e que interferem no tratamento. A primeira delas é o acesso à medicação, lembrou a médica. "Nem sempre o medicamento que eu prescrevo está disponível na rede pública de saúde e a dificuldade de acesso aos profissionais também prejudica o controle da doença. Se não tem acesso a médico, não tem acesso à prescrição e se não tem prescrição, não tem medicamento", resumiu.
Franco defende também um ajuste na padronização terapêutica, considerada inadequada na grande maioria dos casos, e a educação em diabetes, com a formação de equipes específicas para lidar com os pacientes. "Às vezes, a linguagem que o médico fala não chega ao paciente. Os médicos não aprendem na faculdade como falar com os pacientes e isso influencia na baixa adesão ao tratamento."

