Disforia de gênero
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domingo, 04 de março de 2018
Simoni Saris<br>Reportagem Local 

A sensação de desconforto com o sexo biológico tem levado cada vez mais homens e mulheres a buscarem auxílio especializado. Levantamento do Ministério da Saúde aponta que, em 2016, o SUS (Sistema Único de Saúde) atendeu 4.467 pessoas interessadas em passar pelo processo transexualizador, um aumento de 32% em relação ao ano anterior. A popularização do tema, já debatido até mesmo em novelas, tem ajudado a contornar o preconceito social e incentivado a procura por ajuda por quem tem disforia de gênero, como é chamado o sofrimento causado pela identidade de gênero divergente do sexo de nascimento. Mas os serviços de saúde disponíveis ainda são escassos e nem todos os profissionais estão preparados para atender esse público.
O acolhimento profissional e o tratamento envolvem atendimento multidisciplinar, com endocrinologista, psiquiatra, psicólogo e clínico geral. Em razão da disseminação do tema, a SBEM-PR (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional Paraná) realizou neste sábado (3), em Londrina, o Simpósio de Atualização em Endocrinologia com o tema "A Conduta na Disforia de Gênero". O evento, direcionado a acadêmicos, residentes e médicos endocrinologistas, discutiu orientações gerais, tratamentos para homens e mulheres transexuais e um estudo de caso com evento adverso.
"O evento tem o objetivo de melhorar a formação do endocrinologista nesta área de identidade de gênero", explicou o diretor da SBEM-PR, Emerson Cestari Marino. "Hoje tem tido uma menor estigmatização da população, uma visibilidade maior da questão e, com isso, muito mais pessoas estão procurando acompanhamento, que pode ou não incluir o tratamento hormonal, mas sempre com o objetivo de ter uma maior qualidade de vida e se aceitar melhor. Antes, as pessoas tentavam disfarçar (a transexualidade) com medo da reação da sociedade", destacou Marino.
Ter profissionais capacitados nos serviços de saúde, públicos ou privados, é fundamental para acolher e reduzir o sofrimento pelo qual passam as pessoas que se sentem desconfortáveis com o sexo biológico. Estatísticas apontam que a taxa de tentativa de suicídio entre a população transexual é altíssima, variando entre 30% e 50%.
Na área de endocrinologia, por exemplo, nem todos os cursos de residência disponíveis no País contam com um ambulatório específico para o atendimento ao público trans. E este especialista é fundamental no processo de transexualização, já que é ele o responsável por prescrever a terapia hormonal para transexuais femininos e masculinos. "A formação do médico é vinculada ao trabalho. Então, depende do local onde o médico faz a residência médica. Se a unidade tem um ambulatório para atendimento a transexuais, irá fornecer essa formação. Caso contrário, o profissional terá que buscar a formação na área", disse o diretor da SBEM-PR.
"Acredito que não só os endocrinologistas, como também os psiquiatras e diversas outras especialidades médicas necessitam de atualização e capacitação para um tratamento de excelência das pessoas transexuais", acrescentou o médico psiquiatra Eduardo Medici, que durante o simpósio falou sobre o que os endocrinologistas precisam saber sobre orientação sexual, identidade de gênero e disforia de gênero.
A chefe do CRE (Centro Regional de Especialidades) Metropolitano, Andressa Vershai de Lima, ressaltou que muitos médicos não conseguem atender os pacientes trans por desconhecimento. "Esse assunto não está em nenhuma grade curricular de nenhum curso em nenhuma graduação. A gente aprendeu na prática. E hoje, como são pouquíssimos ambulatórios no País, muitos profissionais não estão preparados para atender", disse ela. O CRE, em Curitiba, abriga o CPATT (Centro de Pesquisa e Atendimento para Travestis e Transexuais), único ambulatório do Paraná especializado nesse tipo de atendimento.
Número de ambulatórios ainda é reduzido
A assistência em saúde a mulheres e homens transgênero é oferecida gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde), mas ainda são poucos os ambulatórios existentes. Em todo o País, são apenas nove unidades habilitadas pelo Ministério da Saúde. Além do Paraná, os demais ficam nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Pernambuco.
Sem a habilitação do governo federal, há outros 11 ambulatórios que funcionam por iniciativa dos estados, nos municípios de São Paulo (2), João Pessoa (PB), Belém (PA), Lagarto (SE), Campo Grande (MS), Goiânia (GO), Salvador (BA), Vitória (ES), Recife (PE) e Brasília (DF). Essas unidades oferecem atendimento multidisciplinar.
No Paraná, apenas Curitiba tem um ambulatório, inaugurado em fevereiro de 2014. O CPATT (Centro de Pesquisa e Atendimento para Travestis e Transexuais), vinculado à Secretaria Estadual de Saúde, recebe encaminhamentos das unidades básicas de saúde e nos quatro anos de funcionamento, já atendeu 615 pacientes. Atualmente, há cerca de 330 pessoas em acompanhamento.
O CPATT é mantido com recursos repassados pelo MS e oferece hormonoterapia gratuita, mas como recebe encaminhamentos de todo o Paraná, tem uma longa fila de espera e os pacientes chegam a aguardar por até um ano por um atendimento. "Nossa equipe é reduzida. Temos um endocrinologista, três psicólogos, uma enfermeira e uma técnica em enfermagem. Tínhamos uma assistente social, mas ela se aposentou. Só temos capacidade para atender entre seis e dez novos pacientes por mês", disse a chefe do CRE (Centro Regional de Especialidades) Metropolitano, Andressa Vershai de Lima. "Seria necessários ter mais ambulatórios no Estado porque a procura tem aumentado bastante e a tendência é crescer ainda mais."
Em Curitiba não há hospital credenciado para realizar a cirurgia de redesignação sexual. Quem deseja se submeter ao procedimento é encaminhado para a unidade mais próxima, em Porto Alegre (RS). "Alguns estados, como São Paulo, não recebem mais pacientes de fora porque a fila lá é gigantesca, com uma demora de dez a 12 anos", disse Lima.
Os usuários de planos de saúde conseguem consultas com os profissionais de cada área, mas o serviço não cobre a terapia hormonal nem o procedimento cirúrgico.
Tratamento psiquiátrico pode ser necessário
Quando a incongruência de gênero vem acompanhada de sofrimento, podendo ser caracterizado pela disforia de gênero, cabe ao psiquiatra fazer o diagnóstico e indicar o tratamento. Em alguns casos, a disforia vem acompanhada de transtornos psiquiátricos comórbidos, como ansiedade e depressão. "O diagnóstico é realizado pelo psiquiatra, durante a consulta, com base na história relatada pela pessoa. Familiares também podem participar e auxiliar neste processo", explicou o psiquiatra Eduardo Medici. "Familiares e amigos são de fundamental importância.
O fato de eles se mostrarem presentes e darem suporte, seja para uma conversa ou até mesmo no estímulo para a busca de auxílio profissional, é algo muito positivo. Um outro ponto bastante relevante é o familiar ou amigo respeitar a forma como essa pessoa prefere ser chamada."
Quando o paciente opta pelo tratamento hormonal, além do acompanhamento psiquiátrico é necessário também um acompanhamento multidisciplinar, incluindo profissionais de endocrinologia, psiquiatria e psicologia, principalmente nos primeiros anos do processo de transição.
Manual trata transexualidade como transtorno
Profissionais de saúde aguardam o lançamento da CID-11 (Classificação Internacional de Doenças) que irá substituir a CID-10, de 1993, considerada desatualizada - o diagnóstico de transexualismo ainda está no capítulo de Transtornos Mentais e de Comportamento. Com a nova edição, a expectativa é que o diagnóstico mude de nome e seja retirado do capítulo da psiquiatria, passando a ser denominado Incongruência de Gênero.
Nos Estados Unidos, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria, de 2014, traz o diagnóstico "Disforia de Gênero", referindo-se ao sofrimento que pode acompanhar a incongruência entre o gênero experimentado ou expresso e o gênero atribuído ao nascimento, focando-a como problema clínico e não como identidade por si própria. "Nos EUA, muito sobre o assunto é discutido justamente pela necessidade de haver um código que sinalize a condição da transexualidade para que planos de saúde possam arcar com os custos dos tratamentos", disse o psiquiatra Eduardo Medici.
No Brasil, segundo ele, se transexualidade deixar de ser considerada patologia poderá contribuir para a redução do preconceito e da marginalização das pessoas transexuais, assim como aconteceu com a homossexualidade, retirada da CID em 1990.
Estranho no corpo em que habita
O motorista de aplicativo Noah, 33, nasceu Flávia, mas foi aos nove anos de idade que começou a perceber diferenças em relação às outras meninas. Nos momentos de brincadeira, nada de bonecas. O que ele mais gostava era de brincar com bolinha de gude e soltar pipa.
No início da adolescência, aos 13 anos, Noah se apaixonou por uma colega de classe. Ao perceber o sentimento, sofreu muito. Não se aceitava e achava "o fim do mundo", mesmo após o primeiro beijo. Para tentar se livrar da paixão, decidiu namorar um menino. "Queria ver se o que eu sentia por ela iria embora, mas muito me enganei. Sentia uma vontade imensa de estar perto dela."
Sem conseguir aceitar a relação com uma mulher, Noah chegou a engravidar propositalmente aos 15 anos. "Queria ter certeza de que se eu tivesse filho essa vontade de ficar com meninas mudaria." Mais uma vez, estava enganado.
Foi então que ele decidiu ser quem realmente era e assumir de vez a própria identidade. Atitude que deu início a uma série de problemas relacionados à discriminação e ao preconceito em casa. "Minha mãe separou um prato, um copo, talheres e toalhas, dizendo que não era para ninguém usar as coisas que eu usava porque poderiam pegar doença de mim. Ela ficou dois anos sem olhar na minha cara por eu ser lésbica. Quando meu filho nasceu, tirou a guarda dele de mim por eu ser menor de idade e alegando que eu era louca", conta.
As mudanças na aparência vieram logo depois da descoberta de que gostava mais de ser como os meninos do que como as meninas. "Aquele menina que tinha corpinho lindo e cabelos longos decidiu mudar tudo isso. Fui ao cabeleireiro e pedi para que cortassem meu cabelo conforme uma foto de um artista e como já tinha algumas roupas masculinas guardadas, comecei a usá-las. Minha mãe, quando me viu, me expulsou de casa com 15 anos de idade."
Desde então, Noah tem uma vida independente e neste mês completa dez anos de união com sua companheira. Ele não conversa mais com a mãe e das duas irmãs, apenas uma a apoia. Apesar de não ter convivido com o filho, que tem 17 anos, hoje ele frequenta a casa de Noah e aceita o seu modo de vida. "Meus amigos me aceitam super bem e de uma forma que minha própria família jamais vai me tratar."
Mas o processo de autoaceitação não foi tão simples. Durante alguns anos Noah abusou do álcool, indo "até o fundo do poço". "Por várias vezes achava que a morte era melhor, mas nunca tive coragem de fazer alguma coisa com a minha própria vida."
Há quase um ano Noah aguarda na fila do SUS para iniciar um tratamento psicológico no Centro de Atendimento para Travestis e Transexuais, em Curitiba, onde vive. Ele também quer iniciar a hormonoterapia. "É o meu maior sonho. E também quero mudar a minha documentação. Minha última briga foi com a plataforma Uber, para que mudassem meu nome no aplicativo. Consegui depois de assinar inúmeros documentos para fazer a mudança."

