Dia de Combate ao Glaucoma é celebrado nesta segunda
Doença pode levar à cegueira total se não houver intervenção médica; conheça histórias de pacientes que lidam com a condição
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de maio de 2025
Doença pode levar à cegueira total se não houver intervenção médica; conheça histórias de pacientes que lidam com a condição
Heloísa Gonçalves 

O Dia Nacional de Combate ao Glaucoma é comemorado nesta segunda-feira (26), visando conscientizar a população sobre a importância do diagnóstico precoce e tratamento adequado da doença. É a primeira causa de cegueira irreversível no Brasil e no mundo, ocorrendo quando a pressão dentro do olho aumenta e lesiona o nervo óptico, responsável por levar as informações visuais até o cérebro.
Conforme o Ministério da Saúde, o glaucoma pode ser classificado como primário de ângulo aberto, primário de ângulo fechado, de pressão normal, congênito ou secundário. A evolução é lenta e, frequentemente, assintomática nos estágios iniciais. Um olho compensa os danos do outro, com os portadores notando a condição somente após terem perdas significativas no campo visual, levando a diagnósticos tardios.
Os valores normais da pressão intraocular variam de 10 a 21 mmHg. O oftalmologista Rui Barroso Schimiti, chefe do Setor de Glaucoma do Hoftalon - Hospital de Olhos, de Londrina, explicou que “tudo que acontece no olho, trauma, inflamação, algumas alterações de estrutura, podem desencadear glaucoma. Aumenta a pressão e mata o nervo óptico”.
Além disso, os olhos fabricam um líquido chamado de humor aquoso, que mantém a pressão adequada. Se fica acumulado na porção anterior do órgão e não é drenado corretamente, leva ao aumento da pressão e danos ao nervo.
Quando a doença não é tratada, a perda de visão é progressiva, afetando o campo visual periférico e central “até fechar tudo, a pessoa enxerga 100% só por um tubo”, informou o médico. Ele recomenda exercícios físicos e meditação para pacientes com glaucoma crônico, visto que o estresse pode piorar a condição.

Faixa etária com maior risco
Reforçou ainda que grupos específicos têm mais chance de desenvolver a doença, que afeta cerca de duas milhões de pessoas no Brasil e 78 milhões no mundo, conforme a Sociedade Brasileira de Glaucoma. A faixa etária com maior risco é a acima de 40 anos, com aumento da prevalência proporcional ao avanço da idade, principalmente em latinos e negros.
Ter histórico familiar de glaucoma, condições médicas como pressão arterial alta, diabetes melito tipo 2 e miopia elevada, além de fazer uso prolongado de corticoides, também geram predisposição à doença.
‘Não desejo para ninguém’
Dirceu Vicente, 72, foi diagnosticado com glaucoma há 10 anos, quando ainda era servidor na Prefeitura de São Paulo. Da noite para o dia, perdeu a visão total do olho esquerdo após sofrer uma dor de cabeça repentina. “Subiu a pressão ocular, deve ter passado de 21 (mmHg). A minha mãe fala que ele teve uma dor muito grande, de colocar bolsa de gel na cabeça e sair na chuva para tentar aliviar, de desespero”, contou o filho de Dirceu, José Eduardo Vicente, educador físico e fisioterapeuta.
Ele iniciou o tratamento em um hospital, mas, segundo ele, como “só pingavam o colírio e mandavam embora, já estava quase perdendo a vista do direito também”. Ao saber de uma testagem gratuita para a doença, que seria realizado pelo Hoftalon, seus pais vieram para Londrina para que Dirceu fosse avaliado.
Com a confirmação da doença e de catarata, Vicente passou a fazer o controle da pressão ocular no hospital, por meio de aplicação de colírio, até ser submetido a uma cirurgia cerca de quatro meses depois. “A cirurgia foi delicada porque ele perdeu o músculo que faz a contração, essa troca de escuro, que dilata a pupila. Qualquer lugar que ele sai, que há essa mudança de luz, ele fica muito mal porque a pupila dele não dilata. O médico falou que a cirurgia não dava garantia, de tão ruim que estava”, relembrou o filho.
Avô de duas crianças, Dirceu contou que seu grau de visão atual é de 25%, e que se tivesse permanecido em São Paulo, “provavelmente não estaria enxergando mais”. “Eu tenho dois filhos, a Manuela, de 12, e o Miguel, de 9. E meu pai falava que só queria conseguir ver a neta dele. Já estou no segundo neto e ele consegue”, celebrou José Eduardo.
Dirceu segue em tratamento contínuo no Hoftalon, com consultas a cada trimestre para aferir a pressão ocular e realizar novos testes, e se disse grato pela ajuda que recebe. Explicou ainda que a perda da visão afetou completamente a sua vida ativa, contando que “às vezes a tristeza toma conta". Mas reforçou que “não reclama”, visto que a instituição “acendeu uma luz para ele”.
“Trabalhei mais de 30 anos à noite, na Prefeitura, e eu enxergava do outro lado do morro, minha visão era boa”. Dirceu dirigia, foi jogador de futebol, e ainda fazia serviços extras de pintura e parte elétrica, contando que, por “ironia do destino”, trabalhou por décadas no turno da noite e agora não pode mais sair de casa após o pôr do sol.
“Às vezes a esposa precisa de ajuda e não dá para fazer, e eu não quero fazer para ficar mal feito. Não é fácil, não desejo para ninguém, porque só quem está com problema sabe”, considerou o homem. Quando José Eduardo pontuou que, por vezes, seu pai quebra copos ao lavar a louça, Dirceu brincou que “a gente compra meia dúzia, só quebra dois”.
'Procurem cuidar da acuidade visual'
Conforme o médico, não é possível evitar o aparecimento do glaucoma, considerando o fator genético como um dos principais causadores. Assim, “nós temos que prevenir descobrindo a doença o mais precoce possível, para evitar que ela vá progredindo”.
Foi o caso de Alexandre Maruishi, 49, que descobriu ser glaucomatoso em uma visita de rotina ao oftalmologista em 2015. Na época, era motorista de ônibus de uma empresa de transporte metropolitano, e foi encaminhado ao Hoftalon para iniciar o tratamento, antes que sofresse qualquer perda na visão.
Maruishi fez uso de medicação via oral e colírios ao longo dos anos, afirmando que, sem o suporte médico, poderia estar cego hoje em dia. As ações acabaram perdendo a eficácia em controlar a pressão ocular, e ele teve que ser submetido a uma cirurgia urgente no olho direito há onze meses. A cirurgia para o olho esquerdo foi realizada na última quarta-feira (21). "A expectativa é que nivele o problema da pressão, e agora vamos acompanhar até estabilizar”, explicou.
O paciente segue como motorista de ônibus e com uma visão normal, e reforçou a importância de ter buscado ajuda logo quando o primeiro médico suspeitou de sua condição. “Quanto mais rápido você diagnosticar uma possível doença que afeta os olhos, mais rápido é o tratamento. Procurem cuidar da acuidade visual, porque são diagnósticos que podem ser feitos com poucos minutos no exame, e já vai identificar se tem um problema ou não, onde você pode salvar a sua vista”.

Testes e acompanhamento
O Hoftalon realiza o diagnóstico e tratamento do glaucoma em duas de suas unidades, na Rua Cambará e Rua João Cândido, ambas na área central de Londrina. O atendimento é destinado a pacientes encaminhados pelo SUS (Sistema Único de Saúde) de toda a Macrorregião Norte do Paraná, sendo custeado pelo Sistema. Nos últimos três anos, o hospital atendeu 17.858 pacientes com a doença atestada.
Na avaliação oftalmológica, a pressão intraocular e fibras da retina são medidas, é feito o exame de fundo de olho, além da perimetria computadorizada para documentar o andamento da perda de campo visual. Para tratar o dano glaucomatoso, é necessário fazer uso de colírios para diminuir a produção do humor aquoso ou aumentar seu escorrimento. Segundo Schimiti, o custo-benefício do tratamento a laser é maior, dizendo que “já está sendo movimentando para que isso seja incorporado no SUS”.
O controle da neuropatia óptica é dado quando se caracteriza ausência de progressão, e quando as perdas seguem aumentando, ou a pressão dos olhos permanece descontrolada, procedimentos cirúrgicos são imprescindíveis. A operação varia conforme a gravidade do caso, podendo ser minimamente invasiva, mais abrangente, ou ainda, ser repetida.
As intervenções ajudam a impedir o avanço do glaucoma, porém, “tudo que é perdido do nervo óptico, não se recupera mais”, pontuou o médico.

