Londrina é boêmia, mulher divertida e linda que nunca dispensou a companhia dos artistas desde os bailes do tempo do café. Essa tendência em abrigar os que se expressam com música, teatro, poesia gerou na cidade um eixo de criatividade transformado-a num território original e, decisivamente, inserido no mapa da cultura. Longe da capital, mas antenada com a modernidade, desde os anos 60 cumpre sua movimentada vocação artística, por isso, aos olhos do Brasil, Londrina tem a cara dos seus festivais. Os movimentos culturais, engendrados no meio universitário, ganharam importância nacional dando à cidade um status de vanguarda. Ancorada em iniciativas como o Festival Internacional de Teatro - com a grandeza e a maioridade dos seus quase 40 anos - Londrina respira cultura, marca registrada da sua ousadia.
Se nos anos 50 os cafezais brotavam com exuberância, ao longo das décadas
seguintes as idéias também se reproduziram como sementes, dando origem a um perfil cultural que chama a atenção do País. No burburinho de um bar, nos anos 80, o poeta Paulo Leminski - que observava atento o modo como os londrinenses se comportavam e se vestiam -elegeu Londrina como a ''cidade mais louca e criativa do Estado'', aquela que não teve medo de ostentar o novo. Mais recentemente, o escritor Ziraldo ficou impressionado com a quantidade de livros produzidos aqui e levou na bagagem poesia, literatura, memória, porque também temos boa safra de autores e, não à toa, Domingos Pellegrini - que carrega na sua obra a energia da terra vermelha - concorre este mês a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Se a população de Londrina não é ostensiva como os gaúchos e baianos, que fazem da sua intelectualidade um estandarte da ''supremacia'' regional, ainda assim vai torcer discreta para que a cidade ganhe espaço entre os imortais, estendendo a ponte entre o ''mundo novo'' e o antigo.
Voltando os olhos para o entalhe urbano de Londrina descobrimos que aqui não há comportamentos nem edifícios vetustos. Se a cidade não tem o peso de uma tradição de 400 anos, equilibra a jovialidade dos 69 completados agora com prédios públicos que ''voam'' como a imaginação do arquiteto Villanova Artigas que projetou obras como o atual Museu de Arte - antiga estação rodoviária - com seus arcos livres pontuando beleza e modernidade.
Dito o que já se sabe - porque afinal é preciso tecer a história para refrescar a memória - é necessário ajustar o foco para a Londrina contemporânea, analisar onde se insere a ação cultural no momento atual da cidade. Hoje, a gestão da Secretaria Municipal de Cultura organiza sistematicamente um modelo que contempla centro e bairros, sem distinção. Antecipando-se a algumas diretrizes do Ministério da Cultura - tomado pela criatividade e a visão cosmopolita de Gilberto Gil - o secretário municipal Bernardo Pellegrini transformou a cultura de Londrina em política pública, o que significa ampliar sua função como instrumento de transformação social. Quem tem olhos para ver que veja: 19 horas, às terças e quintas-feiras, numa sala do Centro Comunitário do Conjunto Maria Cecília, Zona Norte da cidade, um bando de crianças e jovens sente a vida ganhar outra dimensão através da arte. Pick up ligada e microfone na mão são as ''armas'' que podem dar novo poder à juventude que não pode ficar sem âncoras na periferia. Na oficina de hip hop - uma das centenas de projetos municipais da chamada Rede da Cidadania - a cultura é o ''gancho'' da inserção social. Em vez de tráfico de drogas, tráfego de informação, porque a criatividade ainda pode ser boa resposta à criminalidade, nem que seja num processo lento, construído nas bases pantanosas de uma cidade que sofreu o inchaço urbano provocado pelo êxodo rural nos anos 70. Trinta anos depois, reconstruir a auto-estima da população empobrecida com mecanismos de cultura e arte é tarefa corajosa de cidadania.
Além dos grandes eventos - que dão brilho à Londrina dos festivais de música, teatro e, mais recentemente, dança e circo - há uma cidade que projeta um salto para o futuro, equilibrando oportunidades que daqui a alguns anos também serão melhor compreendidas como mais um processo de ousadia cultural. Na cidade que Leminski considerou como a de vocação ''mais louca e criativa do Estado'', idéias se reproduzem como plantas, à revelia das pragas e das geadas.

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