Se o Alzheimer leva o indivíduo a uma perda de memória, a afetividade, por outro lado, é quase que intocada. O geriatra Marcos Cabrera explica que, geralmente, as características afetivas se mantêm por muito tempo.
A mesma afirmação é compartilhada pela assistente social e gerontóloga Liz Clara Campos. Ela reforça que a doença exige uma dose redobrada de carinho da pessoa que cuida.
"É desgastante e, por isso, a pessoa tem que saber que, em determinados momentos, sentir-se cansado faz parte do processo e que ela não precisa se sentir culpada com aquilo. É por isso que é necessário criar uma rede social para que esses cuidadores também possam ser ajudados", aponta.
Um belo exemplo é vivenciado por José Batista, de 69 anos. É ele quem acompanha a esposa Irene, de 70, nos encontros do Projeto de Memória e Comunicação. Irene apagou muitas memórias, mas nunca se esquece do nome e dos cuidados do marido. No encontro, ele senta ao lado dela e faz um esforço para não responder às perguntas da assistente social, direcionadas a ela.
"Você não quer que eu responda, não é? Então, faz um esforcinho", disse baixinho, apoiado ao ombro de Irene. Em alguns momentos, o "empurrãozinho" é inevitável. "Fico triste porque sempre vivemos juntos e hoje não posso deixá-la nenhum momento sozinha. Me sinto responsável. Eu cuido dela, sabe?", desabafa Batista, caminhoneiro aposentado.
Participar do grupo também tem dado forças à Miriam do Valle Mendonça, de 59 anos. Há quatro anos, a mãe Dulvira, de 82, foi diagnosticada com Alzheimer, o que pegou toda a família de surpresa.
"Nunca pensei que isso ia acontecer. Já tinha ouvido falar, mas não sabia nada sobre a doença", lembra Miriam. As confusões de Dulvira começaram com as chaves e cadeados da casa e se transformaram em muitas desconfianças e medos. "É muito triste porque a pessoa está presente, mas ao mesmo tempo parece estar longe. A sensação é de que a estamos perdendo aos poucos", lamenta.
O geriatra Cabrera acrescenta que, em todo o processo do Alzheimer, o cuidador também merece atenção, pois é o indivíduo que mais sofre. "É ele que poderá manter o mínimo de autonomia para o paciente e, por isso, o cuidador é o ponto mais vulnerável dessa história", diz. (M.O.)

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