No dia 28 de janeiro, a morte de três pessoas em um hospital em Campinas, no interior de São Paulo, intrigou médicos, enfermeiros e chocou o Brasil. Os três pacientes, dois homens e uma mulher, com idades entre 25 e 39 anos, tinham acabado de fazer exames relativamente simples: ressonâncias magnéticas contrastadas. Eles tiveram paradas cardíacas entre 30 minutos e uma hora após o exame, e não resistiram.
A suspeita inicial da causa da morte se deu pela utilização do contraste e sobre a segurança deste produto, mas as equipes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que estão investigando a questão, ampliaram as áreas de pesquisa, visto que a ocorrência de acidentes com a utilização do contraste é muito rara.
O incidente resultou na suspensão de alguns lotes de contrastes e outros produtos aplicados nos pacientes no dia do exame. Vários laboratórios suspenderam a realização de exames e alguns pacientes optaram por cancelar o procedimento por conta própria. O contraste não é usado apenas em exames de ressonância magnética, eles também são úteis em tomografias e raios x. O produto é usado para melhorar a qualidade das imagens captadas pelo equipamento, já que ele aumenta a visibilidade de certos tecidos do corpo.

Tipos de contrastes


De acordo com o médico radiologista Jefferson Luiz Padilha, são três os tipos de contrastes que podem ser usados em exames de imagem. O primeiro é a base de bário, usado em exames que tem como finalidade investigar o aparelho digestivo. Ele possui uma baixa taxa de reação alérgica e, geralmente, é introduzido no organismo via oral ou retal. O segundo tipo é a base de iodo, usado em tomografias e raios x. A última opção é usada exclusivamente nos exames de ressonância magnética e a base é uma substância chamada gadolínio. Os dois últimos tipos são injetáveis.

Alergia

O médico explica que os contrastes injetáveis - em especial os produzidos à base de iodo - apresentam maior risco de desencadear intolerância ou alergia no organismo do paciente. ‘’Os contrastes iodados possuem mais chance de provocar uma reação alérgica, os sintomas vão desde náusea, vômito e cefaléia até choque anafilático que pode evoluir para o óbito. A chance de uma complicação fatal é baixa, sabemos que cerca de 5% dos pacientes apresentam reação alérgica leve a este produto e que a possibilidade de óbito é mínima’’, destaca. Padilha acrescenta que os contrastes a base de gadolínio são ainda mais seguros. ‘’A chance de uma pessoa morrer por conta da aplicação de um produto como esse é de uma em um milhão. Uma ocorrência assim é muito rara’’, salienta.
Os contrastes iodados normalmente desencadeiam alergia em pessoas que são alérgicas a determinados alimentos como frutos do mar. O médico radiologista Décio Prando Moura afirma que para evitar este tipo de situação, os pacientes respondem a um questionário. ‘’Antes de tomografias e ressonâncias, faz parte do protocolo o paciente responder várias perguntas’’, destaca. Conforme ele, este procedimento é importante para que possíveis riscos sejam identificados antes da aplicação de qualquer um dos produtos.
Para definir alguns diagnósticos, a utilização de contrastes nos exames é fundamental. O produto realça a vascularização de vasos e tecidos. ‘’O uso do contraste dá mais informação na hora de fazer o exame, ele mostra a vascularização, o tamanho e a localização da lesão. Alguns diagnósticos só podem ser feitos com a realização do exame contrastado, principalmente nos casos de tumores e processos inflamatórios’’, afirma o médico radiologista Guilherme Marcolin.

Restrições

As contraindicações para os exames variam. Pacientes que apresentam problemas renais devem ser acompanhados mais de perto pelos médicos, já que o produto é excretado pelos rins e isso pode comprometer o funcionamento do sistema urinário. ‘’O médico precisa avaliar quais são os benefícios da realização do exame, de acordo com a situação em que se encontra cada paciente’’, explica o médico radiologista Adriano de Oliveira Pinto. Conforme ele, o exame também pode ser contraindicado para mulheres no primeiro trimestre de gestação, por isso é importante que cada caso seja avaliado individualmente.
Na maioria das clínicas que realizam este tipo de procedimento, os contrastes são utilizados em mais da metade dos exames de imagem. A solicitação de realização do exame geralmente parte do médico que está acompanhando o paciente, mas o pedido é analisado por um médico radiologista que avalia a necessidade de utilizar ou não o contraste e acompanha todo o procedimento de dentro da sala de comando do aparelho. ‘’Esta é uma determinação legal que deve ser seguida por todas as clínicas que prestam este serviço’’, destaca Marcolin. Para os médicos entrevistados, é muito pouco provável que o contraste tenha sido responsável pelo óbito dos pacientes em Campinas.

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