"Não usei camisinha e fiquei com muito medo de engravidar. Busquei informações na internet e tomei a pílula do dia seguinte. Mas depois que comecei a namorar, passei a tomar anticoncepcional todos os dias e agora não fico mais preocupada", revela Carolina (nome fictício), de 17 anos, ao lembrar da primeira relação sexual, aos 16.
O relato da jovem é apenas um entre inúmeros que retratam a realidade no Brasil, quando o assunto é o método de contracepção de emergência conhecido como pílula do dia seguinte. Apesar da disseminação, o tema ainda é permeado de dúvidas e inclusive mitos.
Nas últimas semanas, fatos ocorridos em um programa de reality show da televisão brasileira, se espalhou pela mídia e escancarou ainda mais a necessidade de esclarecer o assunto. Uma participante teve relações sexuais sem preservativo e afirmou não fazer uso de anticoncepcional.
Com medo de engravidar, solicitou à emissora, a pílula do dia seguinte por mais de uma vez. Com a polêmica instalada, a moça recebeu nesta semana, a visita de uma ginecologista que a orientou sobre os riscos de ter relações sem proteção, inclusive pelas Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), e prescreveu um anticoncepcional.
O ginecologista e obstetra em Londrina, Gustavo Eduardo Vitorino, comenta que o registro do primeiro uso da pílula de contracepção de emergência, nos anos 1970, trouxe mudanças significativas para as relações sexuais.
Isso porque o comprimido (que pode ser ingerido em dose única ou fracionado em duas doses) atua no processo de ovulação, ajudando a evitar uma gravidez indesejada. Em termos de segurança, ele explica que o método é muito mais falho que um comprimido tradicional.
"A mulher que usa corretamente a pílula anticoncepcional tem um risco de falha aproximado de 1%, já a do ‘dia seguinte’, mesmo que ingerida no período ideal, ou seja, logo após a relação, a falência pode ser de 5% a 8%", afirma.
Isso significa que as chances de falha é cinco vezes maior que o método tradicional e é aumentada com o passar das horas, já que o comprimido pode ser ingerido até o terceiro dia após a relação desprotegida. "Se a mulher toma essa pílula após 24 horas, esse número sobe para 20% e se considerarmos entre 48 e 72 horas, a chance de falha pode chegar a 45%", alerta.
É evidente então, que o "tempo" deve ser considerado no uso dessa pílula, assim como a frequência. O especialista afirma que a cada vez que se toma o comprimido, a eficácia vai diminuindo. "Tem muitas mulheres que fizeram uso constante e, em determinado momento, ele falhou e engravidaram", comenta.
Além disso, Vitorino ressalta que a indicação do método de emergência em mulheres que têm o ciclo menstrual bem regulado, seria somente em caso de ter relações no período fértil. "Aquelas que têm o ciclo certinho, o risco de gravidez está restrito a cinco dias em um mês. Os outros 25 dias, mesmo tendo relação, a chance de engravidar é muito baixa", explica.
Apesar da pílula ser considerada uma evolução, o conceito de contracepção de emergência já é muito antigo. Segundo o especialista, antigamente os ginecologistas usavam diversos anticoncepcionais para preparar uma composição. "Isso levava ao efeito de contracepção de emergência já que não contavam com um único medicamento", revela.

CARGA EXTRA


Ao ser ingerida, a pílula do dia seguinte vai liberar no organismo, uma grande carga hormonal que alterará o processo de ovulação, funcionando como um bloqueio. Porém, vale lembrar que ela não é abortiva.
O ginecologista explica que se a mulher estiver grávida, mesmo tomando a pílula, ela vai seguir com a gestação. Outro ponto relevante é que o bom uso do comprimido, ou seja, apenas em uma situação de emergência, não vai trazer malefícios a longo prazo, mesmo em mulheres mais jovens.
"O problema está relacionado ao uso inadequado. Se for usada inadvertidamente, como um, dois, cinco meses seguidos, o ritmo menstrual será desregulado, além de poder desencadear outros problemas de saúde", aponta.
Devido à alta dosagem de hormônio, muitas mulheres sentem um mal-estar, náuseas, dor de cabeça, efeitos gástricos e retenção de líquidos. "Se esses problemas persistirem, é preciso buscar uma orientação profissional", ressalta.

mockup