Contracepção de emergência sem mitos
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de março de 2015
Micaela Orikasa<br> Reportagem Local 
"Não usei camisinha e fiquei com muito medo de engravidar. Busquei informações na internet e tomei a pílula do dia seguinte. Mas depois que comecei a namorar, passei a tomar anticoncepcional todos os dias e agora não fico mais preocupada", revela Carolina (nome fictício), de 17 anos, ao lembrar da primeira relação sexual, aos 16.
O relato da jovem é apenas um entre inúmeros que retratam a realidade no Brasil, quando o assunto é o método de contracepção de emergência conhecido como pílula do dia seguinte. Apesar da disseminação, o tema ainda é permeado de dúvidas e inclusive mitos.
Nas últimas semanas, fatos ocorridos em um programa de reality show da televisão brasileira, se espalhou pela mídia e escancarou ainda mais a necessidade de esclarecer o assunto. Uma participante teve relações sexuais sem preservativo e afirmou não fazer uso de anticoncepcional.
Com medo de engravidar, solicitou à emissora, a pílula do dia seguinte por mais de uma vez. Com a polêmica instalada, a moça recebeu nesta semana, a visita de uma ginecologista que a orientou sobre os riscos de ter relações sem proteção, inclusive pelas Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), e prescreveu um anticoncepcional.
O ginecologista e obstetra em Londrina, Gustavo Eduardo Vitorino, comenta que o registro do primeiro uso da pílula de contracepção de emergência, nos anos 1970, trouxe mudanças significativas para as relações sexuais.
Isso porque o comprimido (que pode ser ingerido em dose única ou fracionado em duas doses) atua no processo de ovulação, ajudando a evitar uma gravidez indesejada. Em termos de segurança, ele explica que o método é muito mais falho que um comprimido tradicional.
"A mulher que usa corretamente a pílula anticoncepcional tem um risco de falha aproximado de 1%, já a do dia seguinte, mesmo que ingerida no período ideal, ou seja, logo após a relação, a falência pode ser de 5% a 8%", afirma.
Isso significa que as chances de falha é cinco vezes maior que o método tradicional e é aumentada com o passar das horas, já que o comprimido pode ser ingerido até o terceiro dia após a relação desprotegida. "Se a mulher toma essa pílula após 24 horas, esse número sobe para 20% e se considerarmos entre 48 e 72 horas, a chance de falha pode chegar a 45%", alerta.
É evidente então, que o "tempo" deve ser considerado no uso dessa pílula, assim como a frequência. O especialista afirma que a cada vez que se toma o comprimido, a eficácia vai diminuindo. "Tem muitas mulheres que fizeram uso constante e, em determinado momento, ele falhou e engravidaram", comenta.
Além disso, Vitorino ressalta que a indicação do método de emergência em mulheres que têm o ciclo menstrual bem regulado, seria somente em caso de ter relações no período fértil. "Aquelas que têm o ciclo certinho, o risco de gravidez está restrito a cinco dias em um mês. Os outros 25 dias, mesmo tendo relação, a chance de engravidar é muito baixa", explica.
Apesar da pílula ser considerada uma evolução, o conceito de contracepção de emergência já é muito antigo. Segundo o especialista, antigamente os ginecologistas usavam diversos anticoncepcionais para preparar uma composição. "Isso levava ao efeito de contracepção de emergência já que não contavam com um único medicamento", revela.
Ao ser ingerida, a pílula do dia seguinte vai liberar no organismo, uma grande carga hormonal que alterará o processo de ovulação, funcionando como um bloqueio. Porém, vale lembrar que ela não é abortiva.
O ginecologista explica que se a mulher estiver grávida, mesmo tomando a pílula, ela vai seguir com a gestação. Outro ponto relevante é que o bom uso do comprimido, ou seja, apenas em uma situação de emergência, não vai trazer malefícios a longo prazo, mesmo em mulheres mais jovens.
"O problema está relacionado ao uso inadequado. Se for usada inadvertidamente, como um, dois, cinco meses seguidos, o ritmo menstrual será desregulado, além de poder desencadear outros problemas de saúde", aponta.
Devido à alta dosagem de hormônio, muitas mulheres sentem um mal-estar, náuseas, dor de cabeça, efeitos gástricos e retenção de líquidos. "Se esses problemas persistirem, é preciso buscar uma orientação profissional", ressalta.

