Consumo exagerado de açúcar
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de janeiro de 2018
Simoni Saris<br>Reportagem Local 
O Brasil é o quarto maior consumidor de açúcar no mundo. Entre 2013 e 2014, os brasileiros consumiram 12 milhões de toneladas do produto, segundo dados da Sucden, multinacional do setor sucraleiro. Enquanto a OMS (Organização Mundial de Saúde) preconiza que 10% dos alimentos consumidos diariamente venham do açúcar, o consumo da população nacional chega a 16,3%. O produto é responsável por fornecer glicose ao organismo, substância que tem papel fundamental no funcionamento de vários órgãos, como cérebro e rins. Mas a ingestão em quantidades elevadas pode levar ao vício, da mesma forma como os entorpecentes, e causar diversos males que vão além da obesidade e das doenças decorrentes do excesso de peso.
A nutricionista clínica Sumaya Brandão, de Londrina, afirma que só uma avaliação individual é capaz de definir a quantidade de açúcar que cada pessoa pode ingerir, mas de modo geral a medida são duas porções semanais de um doce pequeno, como uma fatia de bolo, uma fatia de pudim, um chocolate ou um bombom. "Isso é o que a pirâmide alimentar preconiza. É uma estimativa", explicou.

Brandão ressalta que quando se fala em açúcar, não há uma margem de segurança adequada para se consumir o produto, que não traz benefício algum à saúde. "A não ser que se esteja em um momento de hipoglicemia (queda do nível de glicose no sangue), o organismo não precisa de açúcar porque ele forma açúcar e carboidrato de outros alimentos, como batata, mandioca, arroz e massas, por exemplo", destaca Brandão.
O mais indicado, afirma a nutricionista, é consumir algum açúcar como complemento de uma refeição composta por saladas, frutas e proteínas, o que garante uma menor absorção do produto ou uma absorção mais lenta e, portanto, um prejuízo menor ao organismo. E é importante evitar o açúcar adicionado aos alimentos e bebidas, como doces, café, sucos e refrigerantes.
Além de estar ligado a fatores como excesso de peso e diabetes, o consumo exagerado de açúcar ainda pode levar ao vício porque provoca alterações hormonais. A insulina, hormônio produzido pelo pâncreas e que tem como função metabolizar a glicose para produção de energia, é responsável por levar o açúcar que está no sangue para dentro das células. Mas cada célula tem a sua capacidade de receber essa glicose e quando os níveis de açúcar estão muito altos, o organismo acaba armazenando o excedente no tecido adiposo. "Quanto mais reserva o organismo quer fazer, mais células de gordura ele cria e mais cheias elas querem estar. É por isso que a gente vicia", explicou a nutricionista, acrescentando que o vício pode ser físico, emocional e neurológico.
O açúcar tem o poder de alterar a liberação de alguns neurotransmissores, como a dopamina e a serotonina, proporcionando uma sensação de prazer momentâneo. "É óbvio que a cocaína age de uma forma muito mais invasiva, porque aumenta a dopamina muito mais e causa uma dependência muito maior, mas a insulina em pequenas doses vai fazendo o papel como se fosse viciar mesmo, como uma dose pequena de cocaína." E assim como acontece com as drogas, a interrupção da ingestão também pode causar crises de abstinência.
'O efeito é cumulativo'
O médico endocrinologista Guilherme Marquezine, de Londrina, frisa que há vários tipos de açúcares e que nem todos são iguais. A frutose, por exemplo, presente no açúcar de mesa e que tem origem na cana-de-açúcar, deve ser consumida com muita moderação. Por ser metabolizada exclusivamente pelo fígado, a frutose não consegue ser estocada no músculo, não é utilizada pelo cérebro e se transforma apenas em triglicerídeos, que nada mais são do que gordura. Uma grande parte fica retida no sangue e outra fica como resíduo no fígado, causando a esteatose hepática, que é o acúmulo de gordura no órgão. "Esse talvez seja o principal e o pior que acontece na disfunção metabólica. Sem isso você praticamente não consegue ficar diabético, não tem dislipidemia (níveis elevados de gordura no sangue) e tem muito menos chance de ter hipertensão", ressaltou o médico.
Com o consumo de amido, isso não acontece, explicou o médico. "Quando você faz uma refeição de batata, essa refeição vai ser estocada no fígado e no músculo em forma de glicogênio, que tem acesso fácil. Você faz atividade física ou faz jejum e queima isso fácil."
A resistência à insulina, que ocorre quando o nível do hormônio é elevado, mas as células do corpo não respondem a ele de forma natural, é o que define uma gama enorme das doenças modernas e uma boa parte desse processo é causada pelo consumo excessivo de açúcar, aponta Marquezine. Entre as "doenças modernas" estão o diabetes tipo 2, obesidade, hipertensão e dislipidemia, que constituem os principais fatores de risco para infarto, derrame e doenças cardiovasculares, que podem levar à morte.
"Quando você consome muito açúcar você nem precisa ficar gordo. As complicações vêm antes da obesidade até. Você já começa a ter esteatose hepática, resistência à insulina, muito antes de a balança acusar. As pessoas são mal orientadas em relação ao açúcar, mas o efeito é cumulativo", alertou o endocrinologista.
Menos doces, mais saúde
A secretária Fernanda Moreira Busignani, 39, já foi dependente de doces. O consumo era diário e não se limitava a uma única porção. "Após o almoço, que sempre incluía altas doses de carboidratos, eu sempre precisava de uma sobremesa, principalmente chocolate. Comia doce todos os dias e mais de uma vez ao dia", conta. O principal efeito desse hábito era o ganho de peso. Os doces a faziam engordar rapidamente e o índice de glicose no sangue sempre estava no limite. "Comecei a sentir dores nos joelhos, indisposição logo ao acordar pela manhã, dificuldade para subir escadas", relembra.
Assustada com o ponteiro da balança, Busignani percebeu que era hora de mudar e reverter o processo de ganho contínuo de peso. Ela recorreu à orientação com a nutricionista Sumaya Brandão e iniciou um trabalho de reeducação alimentar, um caminho de grande aprendizado e persistência. "Com o acompanhamento da nutricionista, vi que cada detalhe faz a diferença. Você pode comer bem, sim, de forma saudável, mas este processo exige esforço. Por meio do acompanhamento profissional recebi orientações e incentivo", afirma. "Na reeducação alimentar você precisa ser diferente nos hábitos, até mesmo dentro da sua família ou grupo de amigos. Quando vai a uma festa ou confraternização, precisa se adaptar ao novo estilo de alimentação, resistindo a alguns alimentos", ensina.
O esforço valeu a pena. Além dos 32 quilos a menos no peso corporal, a secretária diz que ganhou mais disposição e um reforço na autoestima. Nas refeições, itens que não faziam parte do cardápio do dia a dia, como folhas, legumes e frutas, foram incorporados em forma de saladas ou sucos e os efeitos foram além da redução do peso. Todo o organismo passou a funcionar melhor, diz Busignani. O açúcar foi substituído pelo adoçante e o paladar foi se alterando gradativamente.
A prática de atividades físicas foi incorporada à rotina diária e ela nota que o corpo já se habituou aos exercícios. "Quando o corpo acostuma, essa prática passa a fazer falta", garante.
Busignani não deixou de comer doces, mas mudou a fonte de açúcar, que hoje vem de bolachas integrais, frutas secas, geleias de frutas de baixa caloria e chocolate 70% cacau, que ela adora. "Outra opção são as receitas fit, com bolos e tortas sem açúcar e farinha branca, feitos com aveia e frutas."
Os doces não foram completamente abolidos da sua dieta, mas hoje o consumo fica restrito às ocasiões especiais, como aniversários e outros eventos.
'A gente não parou de surtar com a gordura ainda'
Nas décadas de 1970 e 1980 o padrão alimentar dos brasileiros era diferente de hoje. Ainda não havia sido disseminado o medo da manteiga, das frituras e as gorduras eram consumidas com muito mais naturalidade. As coisas começaram a mudar a partir de uma recomendação americana para que as pessoas com níveis de colesterol elevados restringissem o consumo de gordura para evitar a obstrução das artérias e baixar o risco de infarto.
Desde então, as gorduras foram relegadas ao grupo dos alimentos proibidos e temidos, sendo banidas gradualmente da dieta. "A gente começou enxugando a gordura, depois parou de fritar e agora estamos no airfryer (técnica de cozimento que utiliza ar quente). A gente não parou de surtar com a gordura ainda", disse o médico endocrinologista Guilherme Marquezine, de Londrina.
As gorduras são um dos três macronutrientes fundamentais para o organismo, ao lado das proteínas e dos carboidratos. O problema, explica o médico, é que quando se reduz drasticamente a ingestão de gordura ou o indivíduo passa a comer muito menos ou compensa a falta de um nutriente com a maior ingestão de outro.
Foi o que aconteceu com a maioria da população. A falta de gordura foi substituída pelos carboidratos e açúcares. "Em grande parte isso aconteceu porque a indústria facilitou para a gente comer bolachinha, pão de queijo, pão fit, coisas que a gente não comia no passado", observa Marquezine. "Você pega a população brasileira na década de 1970 e compara com a de hoje, a gente não emagreceu, com certeza. Então, esse monte de carboidrato, por mais integral que ele seja, por mais que seja fruta, que seja um carboidrato 'do bem', não funciona", acrescenta o médico.
Mesmo o consumo de frutas, em excesso, não é recomendado. Elas têm uma densidade de açúcar relativamente baixa, são ricas em fibras e têm muita água, mas não são zero açúcar. "O problema maior é quando você recebe a recomendação de comer uma, duas frutas por dia e esquece isso, fala que fruta é bom e começa a comer dez. E o pior é que a gente mudou o padrão de consumo de frutas. As crianças, por exemplo, não estão consumindo tanta fruta, mas estão engolindo litros e litros de suco. Em um copo de suco de uva ou de laranja in natura, por exemplo, você consegue ter mais açúcar do que no mesmo copo de Coca-Cola."
Marquezine reconhece que o padrão de alimentação defendido por ele não é consenso entre a classe médica, mas incentiva as pessoas a olharem para trás e resgatarem o antigo formato. "A gente tem que voltar a comer manteiga. A gente tem que reequilibrar. A gordura foi tão demonizada que seu consumo está em 10% e ela costumava ser 30%, 40%. As pessoas comem, em média, de 15% a 25% das calorias do dia em proteínas e esse percentual se manteve. Quando a gente diminuiu a gordura, automaticamente começou a comer farinha, que é carboidrato, e isso não dá certo. Agora, tem um porém. Se você vai lá e bota manteiga na sua vida e não tira a farinha, aí é o pior dos mundos", observa.

