A felicidade se tornou um produto de consumo e as redes sociais estão aí para provar. No universo virtual, as imagens estão dando um recado de que todo mundo é feliz, a todo momento. Mas quem é que consegue ser feliz o tempo todo?

A assistente social Ignez Vidotti se dedica ao acolhimento de famílias há quatro décadas:  "Ninguém pode ser feliz isoladamente"
A assistente social Ignez Vidotti se dedica ao acolhimento de famílias há quatro décadas: "Ninguém pode ser feliz isoladamente" | Foto: Micaela Orikasa -Grupo FOLHA

Partindo dessa questão a filósofa Maria Cristina Müller, docente da UEL (Universidade Estadual de Londrina), mergulha em uma análise sobre a felicidade e o motivo pelo qual ganhou tanta importância em ser exposta.

“Vivemos em um momento em que o superficial é o que de fato aparece e, por isso, quero mostrar que estou feliz. E esse estar feliz ganha o sentido de consumir. Então eu consumo viagens e lugares e também um modelo de ser humano. Quem eu devo ser? Eu devo ser feliz. Dessa forma, muitas pessoas estão pagando um preço muito alto, como, por exemplo, fazendo uso de medicamentos para ser feliz. O bem-estar hoje vem sendo construído artificialmente”, afirma.

A grande questão, segundo Müller, é que a felicidade privada é frágil e diz respeito apenas ao indivíduo e sua família, amigos e colegas de trabalho. “Em geral, no mundo contemporâneo atribuímos a felicidade sempre a algo privado. É claro que todos buscam alegria, satisfação, prazer, mas estamos falando de duas dimensões de felicidade: a privada e a pública”, pontua.

PRIVADA X PÚBLICA

Müller, que concentra pesquisas em Filosofia Política e Ética, sustenta que a sociedade tem sido levada a atuações equivocadas e a compreensões enganosas ao confundir a felicidade privada e pública. “O que é bom para mim é bom para você? Às vezes não, e às vezes, coincide”, completa.

Enquanto a felicidade privada está relacionada à ideia de bem-estar, a segunda é ao bem comum, que é aquilo que cada sociedade dentro das suas características, define e escolhe como o bem comum. E o bem comum, reflete Müller, pode ser pensado na dimensão da administração pública, como políticas públicas para uma educação acessível e de qualidade, ou mesmo, na assistência em saúde.

Fora desse patamar, a filósofa sustenta que a felicidade pública também é a possibilidade de todos participarem dos espaços públicos, podendo ser ouvidos e opinarem com liberdade e respeito. “O âmbito público tem que agregar todas as comunidades com todas as concepções que as formam, pois é um espaço onde a pluralidade precisa prevalecer”.

PODER HORIZONTAL

Um ponto analisado pela filósofa é que a concepção de hierarquia no modelo atual de sociedade leva as pessoas a não se incluírem, a não contribuírem e participarem daquilo que diz respeito ao comum. “A felicidade pública não é simplesmente conviver em comum.”

A experiência de estar à frente do OGPL (Observatório de Gestão Pública de Londrina), leva Roger Striker Trigueiros a afirmar que a participação da sociedade em espaços de debates e conferências a respeito de políticas públicas é praticamente “zero”.

“Tem toda uma análise histórica. Viemos de uma época de ditadura e isso contribui nessa falta de interesse. Os espaços de debate também vêm sendo cada vez mais ‘fechados’, o que leva as pessoas a não se sentirem motivadas a participar. Outra situação é que as pessoas precisam saber que há um tempo para as resoluções porque isso causa uma desilusão de que mudanças de fato podem acontecer”, analisa.

O OGPL é uma instituição independente que surgiu há 10 anos para exercer o controle social dos gastos públicos. Em 2018, foram analisadas 41 licitações elaboradas pela administração pública municipal direta e indireta e pela UEL.

“Fizemos campanha para que as pessoas participassem das reuniões ou despendessem de um tempo para fazer um trabalho em casa ou acompanhando os serviços públicos que têm sido prestados. Nosso objetivo é que a população tenha essa capacidade, mas a verdade é que as pessoas acabam descartando para os outros, e isso compromete a felicidade pública até porque a visão dela (felicidade) acaba sendo deturpada”, pontua.

RELAÇÃO COM O DIFERENTE

Para a filósofa Maria Cristina Müller a sociedade moderna está deixando para trás a relação com o diferente, o que resulta em uma proliferação de movimentos de ódio, seja no campo de futebol ou naquele que tem um partido político distinto.

Maria Cristina Müller, filósofa:  “A felicidade pública não é simplesmente conviver em comum”
Maria Cristina Müller, filósofa: “A felicidade pública não é simplesmente conviver em comum” | Foto: Ricardo Chicarelli /14-11-2019

“A empatia é fundamental, mas o essencial é estar consciente de que cada ser humano é único e que o mundo existe justamente porque há pluralidade. Temos que entender que a vida humana não é um conto de fadas perfeito. É uma vida de todos os dias perguntar, estar disposto a vivê-la e esse viver é uma relação com o diferente. Essa é uma tarefa difícil e que não está pronta. Ela é constantemente construída”, pontua.

A assistente social Ignez Vidotti, 74, que há mais de quatro décadas se dedica ao acolhimento de famílias, especialmente crianças e adolescentes em áreas periféricas de Londrina, tem vivência suficiente para afirmar que “ninguém pode ser feliz isoladamente, sem se preocupar com o outro. Uma sociedade é feita de indivíduos e, quando eles vão se isolando, todos adoecem”.

MUDANÇA DE CONSCIÊNCIA

Aposentada, Vidotti continua lutando para transformar a realidade de 60 crianças na zona leste, promovendo oficinas no contraturno escolar, alimentação e especialmente carinho, no CCIJ (Centro de Convivência Infantojuvenil Prof. Ivan Dutra).

O trabalho surgiu de uma demanda revelada pelo Clube das Mães Unidas (projeto que surgiu há cerca de 40 anos e oferta cursos profissionalizantes para jovens e adultos) e sempre contou com a parceira do Centro Espírita Irmã Scheilla. Neste ano, o CCIJ firmou um convênio com a prefeitura.

Vidotti lembra que quando chegou em Londrina encontrou um público infantil castigado pela desnutrição e verminoses. Hoje, ela diz que as crianças apresentam problemas emocionais, de muita carência afetiva.

“É preciso ter uma mudança de consciência, onde as pessoas percebam o outro. O povo brasileiro pensa que o fato de pagar imposto os exclui de interagir enquanto sociedade. A participação de fundamental. A felicidade pública é uma construção da própria sociedade”, diz.

O tema felicidade pública norteou o X Ciclo Hannah Arendt, no mês de novembro, na UEL. O evento foi realizado pelo Departamento de Filosofia.

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