Confinados, casais lutam contra dificuldades da hiperconvivência

Aliar trabalho, casamento e cuidado com filhos é um desafio durante isolamento para reduzir risco de contrair coronavírus

Emilio Sant'Anna - Folhapress
Emilio Sant'Anna - Folhapress

São Paulo - Dois meses após se casarem, Amanda Santana Portela, 23, e Ricardo Kaluan de Oliveira, 27, estão, desde 18 de março, 24 horas por dia juntos em casa. Ela é analista de comunicação. Ele, analista de compras. Ambos passaram a fazer home office devido à pandemia causada pelo novo coronavírus.


Confinados, casais lutam contra dificuldades da hiperconvivência
 



Em sua opinião, o casal:

a) Ganhou uma nova lua de mel e a oportunidade de se conhecer ainda melhor

b) Ganhou um grande problema e a oportunidade de descobrir o que um não suporta no outro


Por ora, a reposta do casal parece ser a primeira alternativa. “Estamos ocupando a mesa da sala [para trabalhar] e ‘brigando’ por espaço. Fora isso, estamos bem, por enquanto”, diz Oliveira em tom de brincadeira. “Casamos recentemente e não tínhamos ainda ficado assim, os dias inteiros juntos.”  “Ele deve estar me odiando, mas não sabe ainda. Como é muito recente está ok”, completa Portela. “Mas na segunda e na terça passei o dia inteiro aqui sozinha trabalhando e foi muito mais difícil”, diz ela.




SEM DETALHES

O psicanalista Flávio Carvalho Ferraz, professor do Instituto Sedes Sapientiae, dá uma dica importante para manter a convivência a dois saudável: “Agora é hora de lembrar do que é essencial, de não se preocupar com detalhes, pequenos prazeres e confortos. É hora de dividir tudo”, afirma.


Ferraz tem atendido seus pacientes em sessões pela internet, e os relatos passaram pelas dificuldades de manter a vida do casal e da casa em harmonia. Ao mesmo tempo em que redes de solidariedade se formam, por exemplo, em vizinhanças e condomínios — com pessoas jovens se oferecendo para fazer e levar as compras de idosos —, dentro de casa as coisas podem não ir tão bem, diz o psicanalista.


CLASSE SOCIAL

Segundo Ferraz, problemas de relacionamento e neuroses que já existem tendem a se manifestar na atual situação de quarentena. Os tipos de conflito que podem surgir também se relacionam com a classe social das pessoas. Para algumas, assumir as funções domésticas da empregada dispensada em tempos de pandemia é uma fonte de estresse e origem de brigas.


FALTA DE ESPAÇO

Para outras, porém, o estresse surge de fatores mais inevitáveis. “Dentro de casa há problemas de todos os tipos, como as pessoas que vivem em casas muito pequenas em que não há espaço. Já soube de situações em que o casal está se revezando entre quem fica no apartamento e quem vai para a garagem trabalhar de dentro do carro”, afirma.


A vida dos casais em home office e com filhos tem desafios a mais. No caso de Gabriela Lobianco, 38, e Erin Egan, 32, pais de Cecília, 5, as dificuldades se somam ao fato de estarem em outro país, longe da família. Ela trabalha como gerente de atendimento e ele é engenheiro sênior de empresas de tecnologia, em Cork, na Irlanda. Ambos estão trabalhando de casa desde o dia 9 de março. “A dificuldade maior é associar a agenda de trabalho aos cuidados com a nossa filha”, diz Lobianco. Egan está trabalhando no escritório, e ela tem usado a mesa da sala de estar. “Acabo atendendo as demandas dela, de ajeitar algo para ela comer até trabalhar com ela no colo”, diz.


MEDO

Flávio Ferraz explica que às tensões normais de um período de convivência fora dos padrões, mesmo para casais, se soma um fator completamente novo: o medo. “Os casais estão experimentando um convívio inédito junto com o temor do contágio”, diz o psicanalista.


Excesso de convivência e medo do coronavírus à parte, há quem encare essa situação de forma positiva e veja uma oportunidade para cuidar mais de quem se ama. Em Belo Horizonte, a arquiteta Paula Pedrosa, 34, vinha sentindo a necessidade de desacelerar sua rotina de trabalho e passar mais tempo com a família desde o final de 2019.




Em casa, as responsabilidades de limpeza e arrumação foram divididas ela, o marido e a filha de 11 anos, e todos têm cooperado. Para se manter firme, e ser uma espécie de centro emocional da família, ela evita acompanhar as notícias sobre a pandemia na televisão e internet, mas se mantém bem informada com o auxílio de todos. “Claro que não queria que isso estivesse acontecendo, mas estou tentando focar na família e em coisas boas”, afirma.


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