O comportamento diferente de João (nome fictício) e as dificuldades que ele apresentava na escola levaram sua mãe a investigar o que o menino realmente tinha. Dificuldades na leitura e na escrita, troca de letras e memória curta eram as características que mais preocupavam a família. Depois de passar por psicólogos, fonoaudiólogos, psicopedagogas e neurologistas, a criança foi diagnosticada com déficit de atenção e dislexia.
Como João, há várias crianças no Brasil com dislexia e com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). O problema acomete, em graus variados, a capacidade de extração de conteúdo pela leitura e a síntese da ideia pela escrita. Segundo a Associação Brasileira de Dislexia, o transtorno atinge, em algum grau, até 17% da população mundial, pode manifestar-se em pessoas com inteligência normal ou mesmo superior e persistir na vida adulta.
Da mesma maneira que a dislexia, o TDAH também é considerado uma desfunção neurobiológica. ''Neste caso há uma falha na transmissão dos impulsos nervosos. A dislexia e o TDAH são situações próximas. O paciente com TDAH pode ser desatento, hiperativo ou impulsivo'', explica a neuropsicóloga Sylvia Maria Ciasca, que esteve em Londrina participando do Fórum TDAH e Dislexia promovido pelo núcleo da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquatria Infantil e Profissões Afins - (Abnep Núcleo Londrina).
A pesquisadora explica que o diagnóstico das duas situações deve ser feito por uma equipe multidisciplinar. ''Muitas vezes a criança já chega ao consultório dizendo que tem dislexia. Também é comum os professores identificarem os alunos com comportamento difícil como TDAH'', declara Sylvia. lembrando que estes diagnósticos são clínicos, sérios e difíceis de fazer.
De modo geral é a família que percebe que há alguma coisa errada com a criança, mas Sylvia defende que os professores sejam preparados para identificar as diferenças entre o desenvolvimento dos alunos de uma turma. ''Não é função do professor fazer diagnóstico, mas ele pode perceber sinais. Também devemos levar em conta que existem sistemas de ensino ruins, é mais fácil eu falar que o problema está na criança do que no meu método de ensino'', afirma.
O médico neurologista Leandro Teles acrescenta que a inteligência é um produto cognitivo complexo que engloba muitos outros domínios. ''De modo geral o disléxico tem inteligência normal e alguns até acima da média. São crianças criativas, emocionalmente adequadas, com raciocínio rápido e cheias de estratégias para driblar as dificuldades da dislexia'', esclarece. Ele destaca que nem toda criança com dificuldade para ler e escrever é disléxica, mas que todo disléxico tem alguma dificuldade na leitura e na escrita.
Conforme a neuropsicóloga as crianças com TDAH e dislexia precisam ser estimuladas de maneiras diferentes para aprender. O médico acrescenta que é fundamental que não haja estigmatização da criança e nem superproteção. ''A criança deve ser encorajada a superar suas dificuldades e deve receber o mesmo tratamento afetivo e social de qualquer outra criança sem dislexia'', orienta.
Para ele, a dislexia deve ser tratada com intervenções psicopedagógicas e fonoaudiológicas. ''A meta não é a cura, uma vez que a dislexia é um distúrbio crônico e persiste, em algum grau, até a idade adulta''.®MDNM Quanto antes for instituída a terapêutica, melhor será o resultado final em termos escolares e profissionais.
Apesar das dificuldades na infância, crianças com dislexia se tornam adultos normais porque aprendem a usar recursos que diminuem suas dificuldades. ''Com o próprio desenvolvimento e amadurecimento a pessoa aprende a conviver e fazer mudanças que melhoram sua vida'', salienta Sylvia. A neuropsicóloga afirma que crianças com TDAH têm chances altas de desenvolverem problemas de ordem comportamental mesmo na idade adulta. ''Quando adolescentes registramos quadros de ordem neuropsiquiátrica, problemas com drogadição e delinquência juvenil'', destaca.
Pacientes com TDAH precisam fazer tratamento com medicação e terapia. Para os que possuem dislexia não há remédio, mas é preciso que se faça acompanhamento profissional. ''Esta criança tem condições de aprender na escola normal, mas ela precisa ser motivada para isso'', esclarece.
www.abda.org.br - Associação Brasileira de Déficit de Atenção
www.dislexia.org.br - Associação Brasileira de Dislexia

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