Giovana e a mãe Lucineia da Silva tomam cuidados para evitar a proliferação do Aedes: "Eu sei como é ter dengue. É muito tenso; você pensa que vai morrer"
Giovana e a mãe Lucineia da Silva tomam cuidados para evitar a proliferação do Aedes: "Eu sei como é ter dengue. É muito tenso; você pensa que vai morrer" | Foto: Gustavo Carneiro



São Paulo - No final do século 19, os primeiros relatos de dengue surgiram em Curitiba; e no início do século 20 em Niterói (RJ). Duas localidades que hoje estão novamente atraindo olhares de todo o País por causa dos avanços em pesquisa para combater a doença e a imunização da população.

No Rio de Janeiro, o Projeto Eliminar a Dengue: Desafio Brasil, conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), acaba de anunciar o início das liberações de Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia, da fase de expansão em Niterói. Metade da área desse município receberá periodicamente os mosquitos e será monitorada para diagnóstico de percentual de presença da bactéria na população de mosquitos local.

O projeto é uma iniciativa científica internacional pioneira que estuda o uso da Wolbachia como uma alternativa natural (não transgênica), segura e autossustentável para o controle da doença. No Brasil, o projeto chegou em 2012.

Cientistas da Fiocruz afirmam que o método é seguro e não oferece risco para a população, animais e meio ambiente. Em síntese, quando a bactéria está presente no mosquito sua capacidade de transmitir os vírus da dengue, Zika e Chikungunya é reduzida.

Imagem ilustrativa da imagem COMBATE E PREVENÇÃO - Wolbachia e vacina: novas armas contra a dengue?



"Na fase inicial da pesquisa, a bactéria Wolbachia proveniente da mosca da fruta foi introduzida nos ovos do Aedes aegypti para que ela pudesse permanecer de forma intracelular no mosquito. Posteriormente, percebeu-se que a presença da bactéria nas células do mosquito bloqueia a transmissão destes vírus pelos Aedes", detalha a coordenadora de comunicação do projeto, Renata Pomposelli.

A Wolbachia está presente em cerca de 60% dos insetos no mundo, incluindo diversas espécies de mosquitos, como o pernilongo. Ela não infecta seres humanos e animais quando picados e só é transmitida no processo de reprodução dos mosquitos.

A meta então, é de substituir aos poucos a população de Aedes aegypti pelos mosquitos com Wolbachia. Isso se dá pelo cruzamento do Aedes aegypti que passam a bactéria naturalmente da fêmea para os filhotes. Segundo o projeto, esse processo garante a autossustentabilidade do método.

De acordo com a Fiocruz, a expansão deverá chegar ao Rio de Janeiro ainda em 2017, abrangendo cerca de 2,5 milhões de habitantes por um período aproximado de dois anos de duração.

De acordo com a assessora, existe uma conversa com o governo federal, apoiadores e financiadores para uma possível futura expansão do projeto em outros estados. "Mas não é nada concreto, apenas uma vontade. O intuito é dar continuidade, isto é, prosseguir com o método para demais localidades, mas ainda precisa de planejamento e dos resultados desse projeto-piloto", ressalta.

IMPACTO
Em evento da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), realizada em São Paulo, a pesquisadora clínica do Instituto Evandro Chagas, Consuelo Silva de Oliveira, falou sobre o impacto da dengue e as experiências em ações de combate e prevenção que os estados estão implementando. "Os estudos com a Wolbachia avançaram muito e até nos encontros internacionais a experiência da Fiocruz vem nos trazendo divisas em termos de expertise", comenta.

Com 390 milhões de infecções no mundo, a dengue é hoje um problema de saúde pública em mais de 100 países. No Brasil, o cenário epidemiológico recuou desde o início do ano, mas a doença continua hospitalizando e levando muitas pessoas a óbito, especialmente no Paraná.

O coordenador do Programa de Imunização da Secretaria de Saúde (Sesa), João Luis Crivellaro, afirma que no ciclo 2015/2016 foram 63 óbitos no Paraná, com incidências em três ou mais períodos epidêmicos. "Chegamos a atingir em alguns municípios mais de 500 casos por 100 mil habitantes. Assaí (Região Metropolitana de Londrina) chegou a registrar 8 mil casos e Paranaguá (Litoral), acima de 10 mil", contabiliza. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera uma epidemia quando a localidade registra ao menos 300 casos a cada 100 mil habitantes.

IMUNIZAÇÃO
O Paraná é o primeiro das Américas a fazer uma campanha pública contra a dengue. A imunização aliada aos esforços para conter a proliferação dos mosquito é a aposta do Estado para diminuir a circulação viral. Para isso, foram adquiridas 500 mil doses da vacina em um investimento de R$ 75 milhões. "Tendo pessoas imunizadas, sabemos que elas não terão a doença e não infectarão o mosquito", comenta a chefe da Vigilância Ambiental da Sesa, Ivana Belmonte.

Em todo o Estado, a segunda etapa da vacinação para a população de 15 a 27 anos foi prorrogada até 7 de abril. "Esse público representa o maior número de pessoas que adoeceram com a doença e que foram a óbito", justifica Crivellaro. A campanha acontece em 30 municípios. Em Assaí e Paranaguá o público a ser imunizado é entre 9 e 44 anos.

Giovanna Beatriz dos Santos, de 15 anos, contraiu dengue e por isso logo no primeiro dia de vacinação em Londrina foi se imunizar. "Porque eu sei como é ter dengue. É muito tenso. Você pensa que vai morrer. Foram duas semanas doente", conta ela, que teve febre e, três dias depois, tontura, sonolência, diarreia, manchas vermelhas e coceira pelo corpo.

Giovanna lembra que na rua onde mora muitas pessoas também tiveram a doença, inclusive sua mãe Lucineia Aparecida da Silva, que tinha náusea ao tomar água ou ingerir qualquer alimento. "Eu desidratei, mal conseguia chegar ao posto porque a sensação era de que eu ia desmaiar a qualquer momento. Tudo o que passei me ajudou a ter outra percepção da doença. Agora eu entendo o motivo de desespero e preocupação das pessoas. Deus me livre pegar dengue de novo", desabafa Lucineia.

Esse sofrimento também conscientizou Giovanna. "Estou falando para meus amigos tomarem a vacina porque eu sei como é sofrido, mas eles acham que é difícil pegar dengue. Eu também achava", revela a jovem, que não descuida da limpeza do quintal e dos recipientes de água dos cachorros. "Estamos fazendo nossa parte."

A jornalista viajou a convite da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm)

mockup