Cobertura vacinal cai e surtos voltam a ameaçar população
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018
Simoni Saris<br>Reportagem Local 

São Paulo - A eficácia do PNI (Programa Nacional de Imunização) e a efetividade da cobertura vacinal fizeram com que o Brasil conseguisse erradicar doenças como varíola, síndrome da rubéola congênita, tétano neonatal, febre amarela urbana e paralisia infantil. A poliomielite deixou de existir nas Américas há quase 30 anos. Mas as vacinas, hoje, são vítimas do próprio sucesso. Ao tornar raras ou ausentes doenças que eram muito frequentes e que matavam muitas pessoas décadas atrás, a imunização sofre agora uma queda em seus índices de cobertura e deixa em alerta órgãos e profissionais de saúde que veem crescer a ameaça de reintrodução de algumas doenças no País.
Um caso recente que deixa claro os riscos de se baixar a guarda em relação à vacinação é o surto de sarampo enfrentado neste ano no Brasil. A doença havia sido erradicada no País em 2016, mas em 2018 foram contabilizados 9.898 casos da doença que entrou no País via Venezuela e chegou a oito estados. O maior número de vítimas foi no Amazonas, onde há registros de 9.447 pessoas infectadas. A maioria, crianças abaixo de um ano de idade, faixa etária sem indicação da vacina. Treze mortes por sarampo foram confirmadas. "Essas crianças pegaram sarampo de pessoas que não eram vacinadas e adoeceram", observou a médica infectologista e membro da Sociedade Latino-Americana de Infectologia Pediátrica, Mônica Levi.
Desde o ano 2000, não há mais circulação autóctone do vírus causador do sarampo em território nacional, mas sem uma cobertura vacinal adequada, o ambiente se torna propício para a deflagração de surtos. "O que a gente tem vivido todo esse tempo são surtos decorrentes da importação do vírus, pessoas que chegam infectadas ou viajantes não vacinados que vão para outros países", destacou Levi.
IMPORTAÇÃO
Segundo a médica, é um engano acreditar que apenas países considerados pobres são a fonte da doença. Países europeus, principalmente, têm tido a maior taxa de importação do vírus do sarampo desencadeando os surtos verificados no Brasil.
A infectologista lista uma série de fatores que podem explicar a queda na taxa de cobertura vacinal no Brasil, mas aponta como principal o receio das reações adversas. Convicções filosóficas e religiosas, antroposofia, opções médicas de naturopatia e movimentos antivacinistas não estão entre as principais causas da não vacinação. "A maioria das pessoas que não se vacinam são as que a gente chama de hesitantes. Pessoas que relatam insegurança, medo de vacinas e dos efeitos adversos fortemente agravados pelas fake news e por uma mídia sensacionalista", disse Levi. Para esses casos, afirmou, campanhas educativas e conversas conseguem reverter a situação.
O diretor da Divisão de Ensaios Clínicos e Farmacológicos do Instituto Butantan, Alexander Precioso, destaca que antes que a vacina obtenha o registro sanitário e seja disponibilizada para a população, ela passa por três fases. "Para a vacina chegar à população, ela já passou por inúmeros controles de qualidade, de segurança e de aprovações porque não basta um produtor querer produzir uma vacina. Temos um caminho que é extremamente regulamentado."
PROTEÇÃO
Levi critica também a postura de médicos e enfermeiros que não recomendam vacinas de doenças que não estão acontecendo no momento. "As doenças não estão acontecendo porque a população está vacinada. Se você não vacina, elas voltam a acontecer. Esse é um erro grave", comentou a infectologista, que também destacou a falta de percepção da população sobre o risco das doenças infecciosas. "Há uma falta de noção de que se precisa vacinar para se estar protegido."
Ainda que temporários, ressalta Levi, o desabastecimento dos estoques de vacina tanto no setor público quanto no setor privado também pode ser acrescentado à lista de motivos para a não vacinação. "Esse desabastecimento (ocorrido neste ano) conturbou bastante o calendário das crianças pequenas, abaixo de um ano. Estamos também com um problema no sistema de registro que está sendo implantado no Brasil."
"A falta episódica de algum imunizante - isso infelizmente acontece, nosso país é grande - e a inadequação de horários de atendimento em locais de vacinação são fatores que estão fazendo a gente ter a queda na cobertura vacinal", avaliou Rosana Richtmann, médica infectologista membro do Comitê Técnico Assessor em Imunização do PNI e integrante da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo.
Todos esses fatores, afirmam as infectologistas, contribuem para uma baixa taxa de cobertura vacinal, mas ainda não há um estudo que mostre qual o percentual de influência de cada um deles na queda da imunização, o que poderia auxiliar na elaboração de estratégias para melhorar essa situação. "A nossa impressão é de que as pessoas não têm mais a percepção da importância das vacinas, uma falta de conscientização, principalmente dessa geração de pais jovens que não estão vendo acontecer doenças que antigamente eram um horror, como a paralisia infantil, e que mataram milhares de pessoas", disse Levi.
*A repórter viajou a São Paulo a convite do Instituto Butantan e da MSD


