Quando várias pessoas da mesma família apresentam determinada doença é interessante fazer o aconselhamento genético oncológico (rastreamento hereditário) para identificar a possibilidade de outros membros também desenvolverem o mesmo problema. O médico oncologista e gerente técnico da Santa Casa de Londrina, Júlio Batista, explica que esta é uma recomendação feita especialmente quando a doença em questão é um câncer. ''A pessoa pode ter vários casos de câncer na família que não têm relação entre si. Por outro lado, dois casos semelhantes em um parentesco de primeiro grau é considerado preocupante'', destaca.

Pesquisas apontam que menos de 10% dos tumores têm uma relação familiar efetivamente comprovada. O oncologista acrescenta que o aconselhamento genético permite chegar a um índice de probabilidade que a pessoa tem de desenvolver determinado tumor. A incidência de tumores em mama, ovário e intestino pode ser analisada pelos aconselhamentos genéticos.

Diante de um índice alto de probabilidade de se desenvolver um tumor, algumas medidas podem ser tomadas, no entanto é preciso ter cautela. ''Se o exame apontar que uma mulher tem 80% de chance de desenvolver um tumor de mama, não quer dizer que ela vai desenvolvê-lo'', alerta Batista.

O presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Anderson Silvestrini, explica que a partir da constatação de que uma pessoa apresenta chances aumentadas de desenvolver determinado tumor, há três recomendações possíveis de serem feitas. ''Podemos orientar que o paciente faça um acompanhamento médico mais próximo para identificar possíveis lesões, em fase inicial. A segunda possibilidade seria a cirurgia profilática, ou seja, a retirada do órgão saudável para evitar o aparecimento do tumor. Outra opção seria iniciar um tratamento com quimioprofilaxia, que são medicamentos que inibem algumas células e reduzem as chances delas desenvolverem tumores'', salienta.

Mastectomia
A cirurgia profilática, que é realizada apenas em casos específicos, é polêmica e passou a ser discutida pela mídia depois que a atriz Angelina Jolie extraiu as mamas saudáveis devido ao histórico familiar e o risco de 87% de ter um câncer de mama. ''A decisão de retirada das mamas deve ser feita em família. A atitude é preventiva e só é válida se tiver resultado positivo para aquela mulher'', enfatiza Batista. As pesquisas mostram que 20% das mulheres podem desenvolver tumor de mama. Se o aconselhamento genético indicar que as chances da paciente desenvolver a doença é maior do que a média, a cirurgia já é recomendada.

Na maioria dos casos, o implante de silicone que possibilita a reconstrução da mama é realizado na mesma cirurgia em que é feita a mastectomia. Batista acrescenta que os resultados estéticos precisam ser levados em conta, bem como o desejo futuro de amamentar. ''A mulher precisa saber que a retirada da mama não leva a zero a chance de ela ter um tumor'', complementa. Ele reforça que além do procedimento não eliminar 100% o risco de desenvolvimento da doença, ele traz implicações psíquicas, emocionais e familiares.

No caso do câncer de mama, quando a mulher apresenta um ou os dois genes (BRCA1 e BRCA2) aumentados, ela tem 80% de chance a mais de desenvolver câncer de mama e 50% a mais de câncer de ovário. O médico ressalta que as mulheres que têm este gene alterado já apresentam histórico familiar de várias parentes com a doença. Silvestrini acrescenta que pode ser recomendada ainda a retirada dos ovários, o que reduz a incidência de tumores (inclusive os de mama) mas traz sérias consequências ao organismo. ''Redução da libido, aparecimento da osteoporose e de problemas cardiovasculares estão associados à menopausa, que é desencadeada após a retirada dos ovários'', explica. Por este motivo, ele salienta que esta decisão deve ser tomada a partir da avaliação de prós e contras que a cirurgia representa para cada paciente.

Entidades científicas internacionais recomendam a mastectomia profilática somente em casos específicos e segundo critérios bem definidos.

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