Cirurgia no HU de Londrina traz a esperança do caminhar
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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
Micaela Orikasa<br> Reportagem Local 

Caminhar, pular, sentar, dobrar as pernas, esticá-las. Do ponto de vista mecânico, esses movimentos são extremamente complexos, mas a maioria dos indivíduos não precisa pensar para executá-los. Já as crianças que têm paralisia cerebral sim.
Elas têm dificuldade para controlar essas atividades e precisam ser orientadas e amparadas desde os primeiros anos de vida. Foi assim que Nayara Oliveira Soares, 17, tem evoluído a cada ano. A jovem tem paralisia cerebral causada por falta de oxigenação logo após o parto. A mãe, Marlene Soares, conta que até os dois anos de idade a filha se desenvolvia normalmente quanto à fala, engatinhar e sentar.
Com o passar do tempo, as pernas começaram a perder força e equilíbrio. Nayara passou a ser acompanhada pelo médico e fez duas cirurgias para alongamento dos tendões, além de fisioterapia ininterruptamente.
Hoje, ela já consegue apoiar toda a planta do pé no chão e a musculatura das pernas estão mais relaxadas. Essa grande conquista para Nayara tem sido comemorado por toda a família. "Tudo tem melhorado", diz ela, demonstrando ânimo pela independência e autonomia, além de vaidade. "O dia para ela só começa depois da maquiagem", brinca a mãe.
Nayara agora está focada em cursar a faculdade de Artes, para trabalhar com fotografia. Essa nova perspectiva sobre o futuro é fruto também da cirurgia pela qual ela passou em setembro, no HU (Hospital Universitário). Ela foi a primeira paciente do SUS (Sistema Único de Saúde) no interior do Paraná a passar pela RDS (rizotomia dorsal seletiva), procedimento que consiste no corte de nervos no final da medula, resultando em movimentos mais soltos das pernas, com menos reflexos.
"Ela andava com extrema dificuldade, quase na cadeira de rodas e agora está usando o andador em casa, com condições de ter independência funcional", diz o neurocirugião pediátrico no HU, Alexandre Casagrande Canheu, responsável pelo procedimento.
A técnica não é nova. Ela surgiu no início do século 20 e desde então vem sendo aprimorada. "A grande evolução foi o tamanho do corte, que passou de 16 para seis centímetros, aproximadamente. Isso reduz o risco de complicação e tempo de internamento", comenta o médico.
Para ter a indicação desse tratamento, os pacientes são avaliados pela idade e classificação da função motora grosseira. De maneira geral, os candidatos são crianças e adolescentes que andam e têm paralisia cerebral com diparesia (dois membros fracos) nos membros inferiores e espástica, isto é, que tem o comprometimento dos movimentos devido à rigidez. "As crianças mais propensas à cirurgia têm entre 8 e 12 anos. Não significa que pacientes com mais idade não possam ser operados. Não é uma contraindicação, mas o resultado tende a não ser o mesmo justamente pelo tempo de desenvolvimento corporal", explica.
Segundo Canheu, o ideal é que as crianças comecem a ser acompanhadas desde os primeiros anos de vida, de preferência por um ortopedista pediátrico, pois ele ajudará a criança a andar.
Para isso, há recursos disponíveis como o uso de órtese ou prótese, ou mesmo a combinação de tratamentos, como a toxina botulínica, que age no músculo bloqueando-o; medicamentos via oral e alongamento de tendões. "A cirurgia é o que mais tem nos surpreendido, pois a criança continua melhorando com o passar dos anos, isto é, na vida adulta", ressalta.
No HU, a equipe de ortopedia pediátrica chefiada pelo médico Alessandro Melanda é responsável por avaliar as crianças que podem ser candidatas à operação. Até o momento, duas crianças aguardam pela cirurgia no hospital.
Canheu explica que por se tratar de uma junção de técnicas, o procedimento ainda não conta com um código equivalente na tabela do SUS, o que significa que demanda uma certa burocratização. "A equipe é grande e necessita de uma monitorização eletrofisiológica intraoperatória que nesse caso, gera um custo de R$ 10 mil. Por isso, a liberação não é rápida como desejamos", salienta.

