Cirurgia bariátrica é 'salvação em beco sem saída’

Conheça histórias de pacientes que ganharam novas perspectivas de vida com o procedimento; alcance foi ampliado após resolução médica do Conselho Federal de Medicina

Publicado domingo, 14 de setembro de 2025 | Autor: Heloísa Gonçalves às 07:53 h

Conforme a SBCBM (Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica), o procedimento que nomeia a instituição é o único tratamento com eficácia comprovada contra a obesidade grave. O presidente, Juliano Canavarros, considera o procedimento “a ferramenta mais eficaz, duradoura e custo-efetiva no controle da obesidade e de suas complicações metabólicas”.

Entre 2020 e 2024, foram realizadas 291 mil cirurgias no Brasil. Em Londrina, a cirurgia foi um divisor de águas para a autoestima de Cauê Dellalibera, jovem de 18 anos que sofria com ansiedade e depressão por conta de seu peso, mas que hoje esbanja confiança e saúde com 57 quilos a menos. Já para Eliani Angelosi, foi o que impediu uma morte precoce aos 52 anos de idade, que poderia ter sido precedida de insuficiência renal, cegueira e amputação de uma das pernas.

Acesso a quem precisa

Uma resolução publicada e divulgada em maio pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) ampliou o alcance ao procedimento a quem convive com a doença e não teve acesso ao tratamento completo. Passaram a figurar na lista de elegíveis adolescentes a partir de 14 anos com obesidade mórbida e complicações clínicas, além de adultos com o tipo leve e doenças associadas à obesidade.

Anteriormente, só poderiam ser submetidos a intervenção pacientes com o IMC (Índice de Massa Corporal) acima de 35 e quadro de saúde relacionado, ou acima de 40 tendo ou não comorbidades. Para adolescentes de 16 a 18 anos, os requisitos passaram a ser os mesmos estabelecidos para adultos. O IMC é a divisão do peso em quilos pela altura em metros ao quadrado.

Conforme a Resolução CFM nº 2.429/25, a obesidade na infância e adolescência tende a continuar na vida adulta em cerca de 60% dos indivíduos, trazendo consigo doenças agressivas e de tratamento difícil. A cirurgia produz perda de peso durável, melhora as comorbidades e não atrapalha no crescimento dos jovens, classificada como uma “necessidade médica”.

Grande avanço

Mariano Menezes, cirurgião do Serviço de Cirurgia Bariátrica da Santa Casa de Londrina e membro titular da SBCBM, explicou que os critérios para o diagnóstico não têm focado mais somente no peso do paciente. “Hoje a gente faz uma busca na presença de doenças. São 260 associadas à obesidade, como diabetes, pressão alta, colesterol, esteatose hepática, doença do refluxo, apneia do sono, artropatia. Então, quanto mais doente a pessoa, mais obesidade ela tem e mais grave é a doença dela”.

O especialista reforçou ainda que o grande avanço da portaria do CFM é justamente tirar “a responsabilidade do peso e passar a ter o protagonismo da doença. Isso é maravilhoso, porque hoje conseguimos ofertar o melhor tratamento para o paciente obeso, independente do peso que ele tem”.

Mariano Menezes, cirurgião do aparelho digestivo
Mariano Menezes, cirurgião do aparelho digestivo | Foto: Heloísa Gonçalves

Quem deve ser tratado

Outra mudança recente é quem deve ser tratado, pontuou o médico. “São as pessoas que têm obesidade e as doenças associadas. Esse tratamento, inicialmente, sempre é clínico, com orientação nutricional, prática desportiva regular e medicação. Você fez o tratamento por três, seis meses, se não está respondendo, talvez seja um bom candidato para a cirurgia”.

Conforme o cirurgião, a resolução deve ser incorporada no SUS (Sistema Único de Saúde) e na Agência Nacional de Saúde Suplementar “nos próximos meses ou anos, aí eu acredito que vamos começar a ter a liberação e realmente fazer a cirurgia”. Disse ainda que a procura por informações em seu consultório particular aumentou após a publicação do Conselho.

Doença crônica

A obesidade é uma doença crônica e progressiva sem cura, mas tratável, caracterizada pelo excesso de gordura no corpo, que pode causar impactos negativos na saúde. O principal indicativo é um IMC igual ou maior que 30.

Para confirmar o diagnóstico, também é levado em consideração a circunferência abdominal (risco quando maior que 88 na mulher e que 94 no homem) e o Índice de Adiposidade Corporal, que estima a porcentagem de gordura.

A doença é dividida em três tipos conforme a gravidade, sendo leve e de grau 1 quando o IMC está entre 30 e 34,9, moderada e de grau 2 quando se encontra entre 35 e 39,9 e mórbida e de grau 3 quando ultrapassa 40.

‘Não é o corpo que eu queria ter'

Cauê Dellalibera, 18, é um dos pacientes de Menezes e se submeteu à intervenção bariátrica em março de 2024 após quase dois meses de acompanhamento médico multidisciplinar. Graduando em Administração, o jovem “sempre foi gordinho”, mas teve muito ganho de peso por conta de ansiedade e depressão, o que o levou a ter fortes crises no final de 2023.

Aos 17 anos, marcava 125 quilos na balança e queria uma mudança em sua vida. “Comecei a ter depressão por conta do peso e a me comparar com os meus amigos. Começou a ficar bem difícil pra mim a socialização, me ver no espelho e falar ‘esse não é o corpo que eu queria ter’. A cabeça não estava legal mesmo”.

O jovem contou que já sofreu bullying por conta da obesidade grave e “tentou emagrecer de todo jeito”. Disse que nunca foi sedentário, sendo que já tinha acompanhamento nutricional na época e praticava esportes regularmente. “No final do ano, em 2023, ele não queria mais sair do apartamento pra ir para a praia, não queria tirar a camiseta. Ele chorava pra pôr roupa, não queria comprar porque não servia”, relembrou a mãe de Cauê, Camila Junco.

A empresária mostrou ao filho o relato de um adolescente que havia passado pela cirurgia, que encontrou em uma reportagem, e o jovem se animou em iniciar o tratamento médico para, posteriormente, ser submetido ao procedimento. Além do nutricionista e endocrinologista, começou a se consultar com um psicólogo. Como era menor de idade, seus pais também passaram pela terapia.

Cauê Dellalibera, que se submeteu à intervenção, com a mãe Camila Junco
Cauê Dellalibera, que se submeteu à intervenção, com a mãe Camila Junco | Foto: Heloísa Gonçalves

Menos fome e mais saciedade

Menezes realizou a cirurgia robótica no jovem, que é minimamente invasiva. A dieta no pós-operatório foi líquida no início, passando de água de coco, suco e bebida proteica a caldo de frango, comida batida no liquidificador e carne moída. O estômago demora 60 dias para cicatrizar completamente, e a restrição no que é ingerido impede que as linhas de costura se abram novamente.

“Como nos sete primeiros dias o estômago e a ferida estão moles, eu não posso dar comida sólida, depois vamos entrando com uma dieta branda até voltar ao normal. Por volta de mais ou menos 40 dias, a pessoa já está apta a comer a ‘comida da mesa’ e liberamos para fazer uma atividade física de esforço”, elencou o médico.

Ao reduzir o tamanho do estômago e alterar a anatomia intestinal, a operação modifica 23 hormônios relacionados à obesidade, atuando em nível mitocondrial. “Isso faz com que a pessoa tenha menos fome e mais saciedade. Ela consegue levar a alimentação saudável à frente, o que não conseguia no passado, e não é porque ela tinha preguiça ou má vontade, é porque tinha um desarranjo hormonal que fazia com que ela tivesse mais fome, menos saciedade e com que a célula não trabalhasse, ou seja, ela acumulava gordura mais facilmente do que uma pessoa normal”, explicou Menezes.

Autoestima melhorou 100%

O colesterol alto, refluxo gastroesofágico e gordura no fígado de Cauê deram lugar a exames normais sem déficit nutricional. Hoje, com 18 anos e 57 quilos a menos (pesa 68 kg), é consultado pelo médico a cada seis meses e se considera uma pessoa mais saudável, mental e fisicamente, praticando esportes e se atentando à uma boa alimentação.

“A autoestima, a respiração e para dormir, melhoraram 100%. Eu gosto muito de jogar bola e tênis, antes eu cansava demais, agora jogo tranquilo, não dói nada na perna, joelho e coluna”, comemorou o adolescente. Rindo, a mãe brincou que agora Cauê “compra roupa até demais, porque tudo fica bonito, tudo veste bem”.

Antes e depois da cirurgia de Cauê Dellalibera
Antes e depois da cirurgia de Cauê Dellalibera | Foto: Arquivo Pessoal

Fila em Londrina

A resolução do CFM também detalhou exigências para os hospitais que oferecem a cirurgia bariátrica, que devem possuir UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) e plantonista 24 horas. Em pacientes com IMC acima de 60, a instituição precisa ter estrutura física adaptada e equipe experiente para evitar complicações.

Conforme a Secretaria de Saúde de Londrina, 120 pessoas estão na fila para serem submetidas ao procedimento via SUS, sendo 59 na Irmandade da Santa Casa e 61 no HU/UEL (Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina) com autorização de internação emitida.

Existem ainda 916 munícipes aguardando a primeira consulta médica, que pode ou não levar a cirurgia. A Santa Casa oferta 60 atendimentos mensais, com o HU oferecendo quatro. A fila vem passando por um processo de requalificação nos últimos meses, a depender dos interessados confirmarem se ainda precisam da intervenção.

De acordo com informações da SBCBM, pacientes que pretendem recorrer ao SUS (Sistema Único de Saúde) para fazer a cirurgia bariátrica devem procurar a Unidade Básica de Saúde e ter esgotado as possibilidades de tratamento clínico da obesidade (com medicamentos e alterações comportamentais) e cumprir com os requisitos impostos pelo Ministério da Saúde que incluem: idade mínima de 16 anos; IMC maior ou igual a 40; ou IMC 35 e comorbidades comprovadas por laudo médico.

Depois, confirmada a indicação, o paciente será encaminhado para o preparo pré-operatório que inclui acompanhamento psicológico, nutricional e avaliação médica com especialistas, de acordo com a necessidade e avaliação da equipe multidisciplinar.

'Eu era uma bomba-relógio'

Eliani Angelosi, 52, foi submetida à cirurgia bariátrica em outubro de 2022 na Santa Casa, quando pesava 112 quilos. Como sequela da Covid-19, motivo de ter permanecido entubada por 38 dias, a técnica de enfermagem sofreu perda da capacidade motora e só conseguia se locomover com uma cadeira de rodas. Também tinha uma ferida no pé causada pelo diabetes que quase levou a amputação do membro, além de pressão e colesterol altos.

“Ela estava com um grau de perda visual por retinopatia diabética, também uma doença renal crônica que estava evoluindo e estava caminhando para a hemodiálise”, relembrou Menezes.

Angelosi tomava 18 comprimidos diariamente, além de dois tipos de insulina por dia. “Os médicos falavam que eu era literalmente uma bomba-relógio, porque minha pressão e meu diabetes viviam muito altos, coisa bem absurda mesmo”, recordou. "É duro ouvir isso, que pode explodir a qualquer momento. Eu ficava com medo de não chegar a ver meus netos, porque eu sabia que não tinha uma perspectiva de vida longa”, acrescentou.

Angelosi disse ainda que a obesidade afetava todos os aspectos de sua vida, principalmente a autoestima. “Eu tinha muita vergonha, não tirava uma foto, na hora de comprar roupa era terrível."

Eliani Angelosi temia não conseguir ver o nascimento de seus netos: a cirurgia foi a minha salvação
Eliani Angelosi temia não conseguir ver o nascimento de seus netos: a cirurgia foi a minha salvação | Foto: Heloísa Gonçalves

'Nova perspectiva de vida'

Ela enfrentou seus receios e iniciou o acompanhamento médico, mesmo com o risco de morrer na mesa de cirurgia por conta das comorbidades. “Um ano depois da cirurgia ela entra aqui no consultório andando. Fez um tratamento da retinopatia e voltou a enxergar normalmente, estava fazendo atividade física. A obesidade, diabetes, hipertensão e dislipidemia (gordura no sangue elevada) controladas sem medicação,” relatou Menezes.

O médico considera o caso de Angelosi o mais emblemático de sua carreira, afirmando que, sem a intervenção, a mulher “estaria em uma máquina de diálise, cega, com a perna amputada e morreria em um ano”.

Para ela, a cirurgia a concedeu uma nova chance de viver, com 60 quilos a menos na balança. “Ela não é só uma mudança de corpo, é uma nova perspectiva de vida. Hoje eu sou outra pessoa, não tomo remédio nenhum, a não ser minhas vitaminas, sem falar na autoestima que vai lá em cima. Quando eu me vi em um beco sem saída, a cirurgia bariátrica foi a minha salvação”.

Logo da Folha de Londrina
Heloísa Gonçalves

Heloísa Gonçalves

Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.

Repórter de Educação, Saúde e Cidades, com foco em políticas públicas e cotidiano.