Grandes avanços no entendimento e tratamento do lúpus, inclusive com a produção de novos medicamentos, lançaram recentemente boas expectativas de resolutividade no tratamento e controle da doença. O médico reumatologista pesquisador do centro de pesquisas clínicas do Hospital Abreu Sodré e clínico e reumatologista do Hospital Israelita Albert Einstein, Morton Scheinberg, salienta que as descobertas dos últimos anos colocam fim a uma lacuna de 50 anos sem novidades científicas na área, e ainda possibilitam uma série de recursos para tratar a doença sem medicamentos à base de cortisona – droga que provoca vários efeitos colaterais. "Atualmente, o lúpus não causa a mesma mortalidade do que há 50 anos, mas o problema dos pacientes é depender de altas doses de cortisona para manter a doença controlada", lembra.
Sem prevenção e cura, a doença faz com que as células de defesa do corpo percam a capacidade de distinguir os agentes invasores das proteínas naturais, e passem a combater o próprio organismo. Por isto, tratar a doença é um desafio porque é preciso combater estas células que se voltaram contra o corpo, sem que o paciente tenha mais sequelas.

Menos cortisona


Scheinberg ressalta que em meio às pesquisas os cientistas entenderam que se fosse possível controlar a produção excessiva de anticorpos que agridem o organismo, haveria uma opção de tratamento que possibilitaria a redução das doses de cortisona, e isto foi responsável pelas grandes mudanças nos últimos anos no setor. "A tendência atual é usar menos cortisona e mais medicamentos que interferem na produção de anticorpos", complementa.
O médico reumatologista Evandro Klumb, coordenador da Comissão de Lúpus da Sociedade Brasileira de Reumatologia, explica que na última década foram descritos pela primeira vez os benefícios dos medicamentos antimaláricos para controle do lúpus. "Estudos realizados na França mostraram que o uso deste tipo de remédio em doses contínuas permitiu um controle muito significativo da doença, o que não se observava em pacientes que usavam o tratamento convencional", enfatiza. Conforme ele, o ideal é associar as terapias, já que os antimaláricos possibilitam reduzir as doses de cortisona do tratamento.
Estudos feitos na Europa mostraram que há novas gerações de medicamentos que representam grande avanço no tratamento do lúpus. "Observou-se que novas drogas imunossupressoras permitem o controle da doença com menor risco de efeitos colaterais", explica Klum. Há ainda a possibilidade de se utilizar agentes biológicos, conhecidos como "terapia alvo". O médico considera este novo produto, lançado exclusivamente para o lúpus, interessante, mas afirma que ele está longe de revolucionar o tratamento convencional. De acordo com o médico, se seguirem o tratamento adequado, a maioria dos pacientes consegue um excelente resultado no controle da doença. No entanto, ele salienta que não se pode reduzir a atenção do diagnóstico precoce.
Segundo estimativas, a enfermidade autoimune atinge cerca de 50 pessoas a cada 100 mil habitantes, sendo nove mulheres para cada homem. Atualmente, cerca de cinco milhões de pessoas no mundo convivem com ela e, de acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia, entre 120 mil e 250 mil pessoas sofrem da doença no País, e uma a cada mil mulheres tem Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), o tipo mais comum.
Hoje os médicos têm ciência que não existe apenas um tipo de lúpus e uma forma específica de manifestação. "Sabemos que esta patologia é sistêmica e bastante variável. Sendo possível que num determinado momento o paciente precise de muitos remédios e em outro não precise de nenhum", frisa Klumb.

Cuidados específicos


"Não há chance de avançar no tratamento sem abordar com o paciente aspectos gerais como atividade física e correção das medidas de risco cardiovascular. Afinal, o lúpus aumenta em seis vezes o risco de doenças cardiovasculares", alerta o reumatologista. Ele acrescenta que o cigarro também requer atenção especial dos médicos, já que o tabagismo favorece a aceleração da doença.
Pesquisas apontam que o uso prolongado de alguns medicamentos contraceptivos funciona como fator desencadeante da doença. "O anticoncepcional que tem doses altas de estrogênio aumenta a frequência do lúpus e a atividade da doença para mulheres que já apresentam os sintomas", destaca. Klumb acrescenta que um conceito relativamente novo referente ao lúpus é em relação à exposição ao sol. "O conceito de fotoproteção é mais do que evitar a praia ou usar o filtro solar, a simples exposição à claridade já é prejudicial e deve ser evitada pelo paciente", conclui.

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