Cápsula viaja pelo intestino e detecta doenças raras
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domingo, 10 de junho de 2012
Michelle Aligleri <br> Reportagem Local <br> 
Percorrer o corpo humano registrando imagens internas com detalhes e exatidão. Esta cena que remete aos filmes de ficção científica já está presente em consultórios médicos. A façanha é possível graças ao desenvolvimento de uma cápsula que é engolida e segue pelo trato digestivo tirando três fotos por segundo do caminho percorrido. A cápsula endoscópica foi desenvolvida em Israel e é utilizada para diagnosticar problemas no aparelho gastrointestinal.
De acordo com o médico gastroenterologista Clóvis Kuwahara, as imagens feitas pela cápsula são enviadas para um aparelho que fica acoplado à cintura do paciente. A junção das fotos acaba formando um filme que é analisado posteriormente pelo médico. O exame é indicado quando o paciente já se submeteu à endoscopia e colonoscopia, mas a causa da queixa não foi identificada. ''Usamos para visualizar principalmente o intestino delgado, que fica entre o estômago e o intestino grosso''.
Segundo Kuwahara, faltava um exame que conseguisse registrar a situação naquele órgão e a cápsula veio para suprir esta necessidade. ''Mesmo com endoscópio e colonoscópio a maior parte do intestino delgado ficava obscura. Ele tem entre cinco e dez metros e havia uma dificuldade de chegar até lá para fazer diagnósticos e tratamentos'', explicou.
O exame com a cápsula endoscópica permitiu identificar com mais frequência doenças que antes eram consideradas raras. O filme permite que o médico investigue se no local há alterações vasculares e até tumores que antes não eram diagnosticados. ''Muitas vezes era preciso abrir o paciente para investigar uma suspeita. Hoje reduzimos muito a realização de cirurgias nestas circunstâncias'', destacou. Após passar pelo trato digestivo, a cápsula é eliminada com as fezes e não precisa ser recuperada.
O médico considera este um avanço muito grande na área médica. ''Foi capaz de mudar o diagnóstico. Antes tínhamos dois tipos de hemorragia digestiva, a alta, que era no estômago, e a baixa, que era no intestino grosso. Com a cápsula identificamos que este problema também pode acontecer no intestino delgado, o que passamos a chamar de hemorragia digestiva média'', explicou.
A possibilidade de se diagnosticar doenças nesta região do corpo serviu como estímulo para o desenvolvimento de aparelhos que chegassem até la para fazer alguns tratamentos. ''É o caso do enteroscópio, que chega até o intestino delgado e permite tratar algumas situações sem precisar operar''.
Apesar de tanta inovação e do salto na possibilidade de diagnósticos, a cápsula endoscópica atual ainda não permite conhecer com precisão problemas nos outros órgãos do sistema gastroesofágico. ''Pelo fato da câmera ser apenas em num dos lados, a cápsula pode deixar algumas áreas cegas, principalmente no estômago. Ao chegar no intestino delgado, ela se ajusta e apresenta um resultado melhor'', disse, acrescentando que está sendo desenvolvido um novo tipo de cápsula com mais câmeras, que vai possibilitar imagens mais completas.
O exame é contra indicado para pacientes que apresentam sinais de obstrução intestinal. Conforme o médico, nestes casos a cápsula pode ficar retida e piorar mais o quadro. Para crianças o exame também é contra indicado, já que a cápsula com a câmera é maior que as cápsulas de medicamentos comuns e pode ser difícil de engolir.
O custo do exame para o paciente é de R$ 3,5 mil, apenas a cápsula custa cerca de R$ 1,5 mil e nenhum valor é coberto pelos planos de saúde, segundo Kuwahara. ''Alguns pacientes do SUS já conseguiram o direito de fazer o exame. Em um ano e meio que estamos aplicando a técnica, já atendemos cinco pacientes do Hospital Universitário'', afirmou.
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